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Objeto além de Netuno surpreende cientistas com atmosfera

Corpo de apenas 500 km exibe camada gasosa rara, detectada após ocultação estelar em região remota do Sistema Solar

Por Sputnik Brasil 05/05/2026 08h08 - Atualizado em 05/05/2026 08h08
Objeto além de Netuno surpreende cientistas com atmosfera
Descoberta pode indicar atividade geológica em corpo distante - Foto: © Foto / NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute

Um pequeno objeto além de Netuno intrigou astrônomos ao revelar uma atmosfera extremamente tênue — uma surpresa para um corpo com apenas 500 km de diâmetro. A descoberta ocorreu após uma rara ocultação estelar, que evidenciou sinais de refração e levantou hipóteses sobre impactos recentes ou criovulcanismo ativo.

Localizado além da órbita de Netuno, o plutino (612533) 2002 XV93 desafia as expectativas ao exibir uma atmosfera leve, algo considerado improvável em objetos tão pequenos. A constatação amplia o entendimento sobre a possibilidade de retenção de gases em corpos distantes e diminutos do Sistema Solar.

A descoberta foi possível graças a uma ocultação estelar registrada em 2024 por uma equipe liderada por Ko Arimatsu, no Japão. Três estações observaram o momento em que o plutino passou diante de uma estrela distante, permitindo analisar como a luz se comportou ao atravessar o entorno do objeto. Diferentemente do esperado para uma rocha nua, a curva de luz apresentou escurecimento e clareamento graduais.

Ilustração artística do objeto transnetuniano chamado (612533) 2002 XV93 passando em frente a uma estrela ao fundo, visto da Terra, nesta imagem divulgada em 4 de maio de 2026
Ilustração artística do objeto transnetuniano chamado (612533) 2002 XV93 passando em frente a uma estrela ao fundo, visto da Terra, nesta imagem divulgada em 4 de maio de 2026

Esse fenômeno só pode ser explicado pela presença de uma atmosfera capaz de refratar a luz. Com base nesse sinal sutil, os pesquisadores modelaram possíveis composições atmosféricas, utilizando Plutão como referência. As simulações indicaram uma camada extremamente rarefeita, com densidade estimada entre 100 e 200 nanobars — milhões de vezes mais fina que a atmosfera terrestre ao nível do mar.

A detecção impressiona não apenas pela fragilidade da atmosfera, mas também pela distância do objeto, situado cerca de 40 vezes mais longe do Sol do que a Terra. O estudo destaca como as técnicas modernas de ocultação estelar permitem identificar fenômenos quase imperceptíveis em regiões remotas do Sistema Solar, abrindo novas perspectivas para a investigação do Cinturão de Kuiper.

No entanto, os modelos indicam que uma atmosfera tão leve deveria escapar para o espaço em poucas centenas ou milhares de anos, sugerindo que ela está sendo constantemente reabastecida. Uma das hipóteses é que um impacto recente com um pequeno cometa tenha liberado gases congelados, criando uma atmosfera temporária.

Outra possibilidade é que 2002 XV93 seja geologicamente ativo, como Plutão, possuindo criovulcões que expeliriam lama gelada e voláteis do interior, renovando uma atmosfera transitória à medida que o gás se dissipa. Se confirmada, a atividade indicaria que mesmo corpos pequenos podem abrigar processos internos significativos.

Esta é a primeira detecção de atmosfera em um objeto transnetuniano de pequeno porte, além de Plutão, sugerindo que atmosferas frágeis podem ser mais comuns do que se pensava no Cinturão de Kuiper.