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Musk prioriza Lua e planeja cidade lunar pela SpaceX; entenda

Bilionário diz que base na Lua pode sair antes de Marte; SpaceX mira pouso lunar em 2027 e cidade marciana em até sete anos

Por Redação com BBC Brasil 23/02/2026 16h04 - Atualizado em 23/02/2026 17h05
Musk prioriza Lua e planeja cidade lunar pela SpaceX; entenda
Elon Musk pretende criar uma cidade lunar - Foto: Reprodução

Uma "cidade que cresce sozinha" na Lua e poderia ser construída em menos de 10 anos é o novo plano revelado recentemente por Elon Musk.

O dono do X (antigo Twitter), da Tesla e da SpaceX — e a pessoa mais rica do mundo — declarou em postagem recente, com mais de 40 milhões de visualizações, que a SpaceX mudou de foco para construir uma cidade na Lua, em vez de Marte.

Mas por que Musk mudou de ideia? E o que sabemos sobre a cidade lunar "que cresce sozinha"?

Lua x Marte


Ainda não há um plano formal, totalmente detalhado, com plantas para a cidade que cresce sozinha. Esta é uma visão compartilhada por Musk na sua plataforma de rede social.

Ele descreveu a formação de um assentamento humano que poderá se expandir gradualmente, usando recursos lunares, graças a lançamentos mais frequentes em direção à Lua.

Na sua postagem, Musk declarou que este objetivo poderá ser atingido em "menos de 10 anos, enquanto Marte levaria 20 anos ou mais".

"A missão da SpaceX permanece a mesma: levar a consciência e a vida como a conhecemos até as estrelas", segundo ele.

Musk explicou que só é possível viajar para Marte quando os "planetas se alinham, a cada 26 meses (tempo de viagem de seis meses)".

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Musk prioriza Lua e planeja cidade lunar pela SpaceX


O bilionário Elon Musk afirmou que a SpaceX deve priorizar a construção de uma cidade na Lua antes de avançar definitivamente para Marte. Segundo ele, a proximidade do satélite natural da Terra permite missões mais rápidas e frequentes.

“Podemos lançar foguetes para a Lua a cada 10 dias. Isso significa que podemos agir com muito mais rapidez para estabelecer uma cidade na Lua do que em Marte”, escreveu Musk na rede social X.

Apesar da mudança de foco, o empresário reforçou que a meta de longo prazo segue sendo a colonização de Marte. De acordo com ele, a empresa começará a construir uma cidade no planeta vermelho entre cinco e sete anos, mas “a principal prioridade é garantir o futuro da civilização, e a Lua é mais rápida”.

Mudança estratégica e pouso lunar em 2027


A declaração ocorre após reportagem do The Wall Street Journal indicar que a SpaceX teria informado investidores sobre a priorização de missões lunares, com pouso não tripulado previsto para março de 2027.

A nova estratégia contrasta com declarações anteriores de Musk. Em janeiro de 2025, ele afirmou publicamente que a empresa iria “direto para Marte” e que a Lua seria uma distração. Até 2024, o plano divulgado era lançar uma missão não tripulada ao planeta vermelho até o fim de 2026.

Musk é conhecido por estabelecer cronogramas ambiciosos para projetos tecnológicos, que nem sempre se concretizam dentro dos prazos anunciados.

Desafios técnicos da cidade na Lua


Especialistas avaliam que a proposta é ousada, mas viável em teoria. Sungwoo Lim, professor da Universidade de Surrey, afirmou à BBC que utilizar recursos da própria Lua para produzir oxigênio, água e materiais de construção é tecnicamente possível, pois se baseia em processos industriais já usados na Terra.

No entanto, ele alerta para os desafios do ambiente lunar, como temperaturas extremas, poeira fina, baixa gravidade e escassez de energia. Segundo o pesquisador, os sistemas ainda precisam ser testados adequadamente na superfície antes de serem implementados em larga escala.

Ugur Guven, diretor do Centro de Estudos de Energia e Aeroespaciais da Universidade GD Goenka, destaca que a Lua oferece vantagem logística em relação a Marte. A viagem entre Terra e Lua leva de dois a três dias, o que facilita reabastecimento e respostas rápidas a emergências.

Ainda assim, especialistas ponderam que uma cidade lunar totalmente autossustentável — com produção própria de alimentos e sistema fechado de reciclagem — pode levar décadas para se tornar realidade.

A visão de Musk, segundo analistas, é possível, mas deve avançar gradualmente, à medida que novas tecnologias forem testadas e validadas.

O professor de ciências da Terra e engenharia civil e ambiental Clive Neal, da Universidade Notre Dame em Indiana, nos Estados Unidos, pesquisa a exploração lunar por seres humanos e é da mesma opinião.

"Até realizarmos uma campanha abrangente de prospecção de recursos, que demonstre que existem na Lua recursos que podem ser extraídos de forma econômica, não teremos ideia de onde construir uma cidade 'que cresce sozinha', sem recursos acessíveis para extração", explicou ele à BBC.

Lim acredita ser "realista" que um "pequeno posto avançado lunar" possa começar a produzir parte do seu próprio oxigênio e, possivelmente, extrair água nos próximos 10 anos.


"Seria um avanço importante", afirma ele.

O ex-astronauta da Nasa Jeffrey Hoffman, hoje professor de aeronáutica e astronáutica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos (MIT, na sigla em inglês), defende que "podemos gerenciar o fornecimento logístico para uma base lunar agora" se a SpaceX e a Blue Origin (a empresa de tecnologia do fundador da Amazon, Jeff Bezos) desenvolverem módulos lunares com sucesso.

"Mas Marte ainda está muito distante", disse ele à BBC.

Para Hoffman, a experiência obtida com a construção de habitats lunares sustentáveis poderá ser eventualmente aplicada ao estabelecimento de uma base em Marte.

Guven concorda e acrescenta que, quando a base na Lua estiver estabelecida, ficará muito mais fácil chegar a Marte, pois o nosso satélite poderá servir de "trampolim".

Aumento da concorrência


Os comentários de Elon Musk vieram em um momento em que os Estados Unidos enfrentam aumento da concorrência chinesa pelo retorno dos seres humanos à Lua nesta década.

A última vez em que pusemos os pés na superfície lunar foi em 1972, durante a missão Apollo 17, da Nasa.

Musk anunciou recentemente que a SpaceX adquiriu a empresa de inteligência artificial também chefiada por ele, a startup xAI. O negócio avaliou a empresa de satélites e foguetes em US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,16 trilhões) e a firma de IA em US$ 250 bilhões (cerca de R$ 1,29 trilhão).

O anúncio poderá também vir em apoio à sua ambição de instalar centros de dados no espaço, que lidariam com grandes volumes de computação de IA, segundo a correspondente da BBC em Nova York, nos Estados Unidos, Michelle Fleury.

Musk é o maior acionista da SpaceX e vem agilizando seus negócios, frente a uma possível entrada na bolsa de valores. Ele estaria considerando abrir o capital da empresa, segundo Fleury.

Esta decisão poderá levantar até US$ 50 bilhões (cerca de R$ 258 bilhões), naquela que talvez venha a ser a maior oferta pública de ações da história.

Em janeiro, Musk anunciou planos de colocar um milhão de centros de dados no espaço. Ele espera que este programa ajude a atender à demanda cada vez maior de instalações na Terra, gerada pelo aumento do uso da IA.

Mas alguns especialistas permanecem céticos. Eles destacam que um dos principais desafios é a falta de ar no vácuo espacial para resfriar unidades de processamento gráfico. Elas desempenham papel importante nas tarefas de IA e no uso intensivo de dados.

No início de fevereiro, Musk declarou no X, em resposta a um usuário, que a Nasa teria menos de 5% da receita da SpaceX este ano.

A SpaceX é uma das principais contratadas do programa lunar Artemis, da Nasa, cuja missão é levar astronautas para pousar na Lua.