Agro
Demanda dos EUA por carne bovina abre janela estratégica para Brasil e Mercosul
A necessidade de Washington abre espaço para que o Brasil utilize seu peso no mercado como argumento para pressionar a redução de tarifas impostas aos produtos nacionais
A crescente demanda dos Estados Unidos por carne bovina do Brasil e de outros países do Mercosul é vista como uma oportunidade estratégica para o bloco sul-americano. Especialistas ouvidos pela Sputnik avaliam que o cenário pode fortalecer a posição do governo Lula em negociações para a remoção de tarifas em setores-chave da economia brasileira.
A necessidade de Washington em ampliar as importações de carne bovina abre espaço para que o Brasil utilize seu peso como fornecedor no mercado norte-americano como argumento para pressionar pela redução de tarifas impostas aos produtos nacionais.
A urgência dos EUA ficou evidenciada em resolução anunciada ao fim de agosto pelo então presidente Donald Trump, que autorizou uma cota extra de 300 mil toneladas de carne bovina importada, dividida em três parcelas mensais de 100 mil toneladas entre setembro e novembro de 2026, como parte dos esforços para baixar os preços nos supermercados americanos.
O governo norte-americano reconheceu que tarifas sobre cortes de carne importados elevavam os preços internos e, por isso, ampliou a cota de importação. Segundo o economista espanhol radicado no Brasil, José Luis Oreiro, a medida é consequência da forte redução do rebanho bovino nos EUA devido a fatores climáticos, como incêndios florestais e secas, que levaram a produção ao menor nível em 75 anos. Além disso, restrições sanitárias reduziram as importações vindas do México.
Oreiro destaca que, diante desse cenário, os EUA passam a depender da carne brasileira, já que o país superou a marca de 12 milhões de toneladas em 2025 e tornou-se o maior produtor mundial, ultrapassando os próprios Estados Unidos.
Para o economista, o contexto favorece o Brasil na contestação de tarifas impostas pela Casa Branca nos últimos anos. “Os EUA precisam importar carne do Brasil e impor tarifas sobre nossas exportações só aumentaria o preço da carne lá, pressionando a inflação em um momento sensível, próximo às eleições de meio de mandato”, analisa Oreiro.
Ele avalia que a demanda americana pode ser uma oportunidade para o governo Lula discutir outras tarifas, como a de 25% que incide sobre uma série de produtos brasileiros exportados aos EUA.
Lula e a realpolitik com Trump
Oreiro ressalta que o Brasil ganha poder de barganha com a questão da carne bovina, podendo negociar a remoção de tarifas sobre produtos industriais em troca do fornecimento ao mercado americano. “Se querem nossa carne, as tarifas sobre outros produtos industriais devem ser revistas”, sugere.
O economista defende que o governo Lula adote uma postura de realpolitik para avançar nas negociações com Washington, que historicamente tem dado mais atenção a países que se posicionam de forma assertiva.
O paraguaio Víctor Benítez González concorda que Lula está em posição de conquistar benefícios adicionais nas negociações tarifárias, impulsionados pela necessidade americana de manter os hambúrgueres acessíveis. Ele destaca ainda a relevância dos frigoríficos brasileiros no mercado internacional e a proximidade do presidente com grandes empresários do setor, como os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, uma das maiores produtoras globais de alimentos.
Benítez González lembra que Lula teve papel decisivo nas negociações com Trump para manter as exportações brasileiras aos EUA. “A abertura dos mercados se deve em grande parte à atuação de Lula, que nunca recuou diante das tarifas”, afirma.
Uma oportunidade para o Mercosul?
O Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, é um dos grandes produtores mundiais de carne bovina. A urgência dos EUA em importar o produto chamou a atenção dos países do bloco. No entanto, a nova cota aberta pelos EUA não se aplica a todos os membros: Argentina e Uruguai já possuem cotas anuais isentas de tarifas, de 100 mil e 20 mil toneladas, respectivamente.
Assim, a cota adicional tende a ser disputada entre Brasil e Paraguai, sem gestão conjunta pelo Mercosul. O analista paraguaio Héctor Sosa Gennaro avalia que a disputa será individual, especialmente entre os dois países, e destaca a evolução da indústria frigorífica paraguaia, que investiu em qualidade e capacidade de exportação.
Para Sosa Gennaro, o Paraguai pode aproveitar seu alinhamento geopolítico com os EUA para buscar melhor acesso ao mercado americano e negociar uma cota fixa e permanente de exportação de carne bovina.
Oreiro lamenta que o Mercosul não consiga atuar como bloco, devido às divergências políticas entre Brasil e Argentina. “Argentina e Brasil precisam restabelecer relações diplomáticas normais o quanto antes, para que o Mercosul possa aproveitar a escassez de carne bovina nos EUA e ampliar suas exportações”, conclui.
Por Sputnik Brasil
