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Frete caro e tensões globais ameaçam exportações de frutas do Brasil

Alta do frete marítimo, gargalos internos e tensões internacionais elevam custos e aumentam incertezas para produtores brasileiros

Por Redação 01/04/2026 09h09
Frete caro e tensões globais ameaçam exportações de frutas do Brasil
Atrasos no transporte e alta do frete impactam qualidade e competitividade das frutas brasileiras - Foto: Reprodução

A logística segue como um dos principais entraves para a fruticultura brasileira, sobretudo para produtores que dependem do mercado externo. O tema ganhou destaque durante a Fruit Attraction São Paulo 2026, com relatos recorrentes sobre aumento de custos, atrasos operacionais e falta de previsibilidade, fatores que comprometem a competitividade das frutas brasileiras no exterior.

O sócio-diretor da Agrodan, Paulo Dantas, avalia que o cenário global tem impacto direto nas exportações, especialmente por meio do frete marítimo, que representa parcela significativa dos custos. “Se o petróleo continuar subindo, a tendência é frete marítimo aumentar e aí termina complicando muito as exportações de frutas”, afirma. Ele relembra os efeitos recentes dessa dinâmica: “Em 2022 duplicou o frete marítimo. A Agrodan mesmo não teve lucro em 2022 e muita gente perdeu dinheiro”, relata.

Além do encarecimento, falhas operacionais na logística internacional também preocupam o setor. O gerente técnico comercial da Coopexvale, Cristhian Diaz, explica que atrasos no transporte geram impactos em cadeia. “Se atrasa um navio, isso gera muitos problemas lá fora. Às vezes chega junto com outros navios e aumenta a oferta ao mesmo tempo, derrubando preços”, diz. Segundo ele, esse tipo de situação se intensificou após a pandemia, exigindo maior capacidade de adaptação dos produtores.

Os desafios não se limitam ao cenário externo. Problemas estruturais no Brasil, como infraestrutura rodoviária e acordos com armadores, também dificultam o escoamento. “Temos que melhorar nossos acordos com os armadores e nossas estradas. A logística no Brasil ainda é um desafio”, pontua Diaz.

A natureza perecível das frutas agrava ainda mais o problema. O prazo entre a colheita e a entrega ao consumidor é curto, o que aumenta a sensibilidade a atrasos. “A gente trabalha com uma janela curta. Em cerca de 30 a 45 dias a fruta precisa sair do campo e chegar ao consumidor”, ressalta o gerente da Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco. Nesse contexto, qualquer falha compromete tanto a rentabilidade quanto a qualidade do produto.

Conflitos ampliam riscos logísticos


A instabilidade geopolítica, especialmente no Oriente Médio, surge como novo fator de pressão sobre o setor. Para Paulo Dantas, o cenário é “super preocupante”, principalmente pelo impacto sobre o petróleo e o frete marítimo. “Tomara que resolva logo”, afirma.

O diretor da Coopa, Marcelo Faria, destaca que os conflitos aumentam a incerteza e elevam custos. “É um momento de tensão, porque isso reflete diretamente no custo do transporte marítimo e nas seguradoras dos navios”, explica.

Segundo Diaz, os efeitos vão além do preço. “Quando você tem áreas estratégicas afetadas, muitos contêineres ficam parados e isso impacta o mundo inteiro”, afirma. A situação compromete a disponibilidade de equipamentos e a organização das rotas, gerando atrasos e maior volatilidade nos preços.

O sócio-diretor da Xportare, Junior Silveira, reforça o momento de cautela no setor. “O clima é bastante limitante, e desafiador, porque para alguns lugares você tem dificuldade com rota. [...] Então é um momento delicado”, relata.

Ele destaca que, embora o Oriente Médio não seja o principal destino das frutas brasileiras, a região exerce papel estratégico na logística global. “O Brasil exporta direto também para o Oriente Médio, que é um mercado menor em relação à participação, mas é um mercado relevante. [...] A região é um hub logístico, muito do mundo passa pelo Oriente Médio e isso afeta a gente”, avalia.

Diante desse cenário, produtores apontam que a logística se consolidou como um dos principais fatores de risco para a fruticultura, ao lado do câmbio e da demanda internacional. A combinação de custos elevados, conflitos geopolíticos e limitações estruturais reforça a necessidade de investimentos em infraestrutura e maior eficiência na cadeia logística para manter a competitividade do Brasil no mercado global.