Agro
Soja mostra maior sensibilidade que o milho em cenários de guerra
Mesmo com estoques elevados, oleaginosa sobe mais que milho em meio a tensões globais e alta de custos logísticos
O mercado internacional de grãos tem reagido de forma distinta aos conflitos geopolíticos, com a soja demonstrando maior sensibilidade em relação ao milho. Apesar da valorização recente, o avanço dos preços não tem garantido aumento significativo de renda aos produtores.
Segundo a analista da AgRural, Daniele Siqueira, a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã impacta de maneira mais intensa a soja, mesmo com estoques globais mais elevados que em crises anteriores.
Na safra 2025/26, a relação entre estoques e consumo da soja é de 30%, acima dos 26% registrados em 2021/22. Em volume, os estoques mundiais somam 125,3 milhões de toneladas, contra 93,5 milhões no início do conflito entre Rússia e Ucrânia. Ainda assim, os preços da oleaginosa avançaram.
As cotações passaram de US$ 10,64 por bushel no fim de janeiro para cerca de US$ 11,73 nesta semana. Já o milho apresentou comportamento mais volátil: subiu inicialmente, mas perdeu força mesmo com estoques globais mais apertados, atualmente equivalentes a 23% do consumo — o menor nível desde 2012/13.
De acordo com Siqueira, a diferença está na estrutura de mercado. A produção e a demanda da soja são mais concentradas, além de haver menor possibilidade de substituição. No caso do milho, a oferta é mais diversificada e pode ser parcialmente substituída por produtos como sorgo e trigo de menor qualidade.
Apesar da alta da soja no mercado internacional, os ganhos não chegam integralmente ao produtor. No Brasil, a saca subiu de R$ 116,50 para cerca de R$ 119 em Cascavel (PR), enquanto o preço da tonelada exportada à China avançou de US$ 461,50 para US$ 477,5.
Mesmo assim, o aumento dos custos logísticos internos praticamente anulou os ganhos, reduzindo o impacto positivo da valorização externa.
Diferentemente da guerra entre Rússia e Ucrânia — que afetou diretamente a oferta global —, o atual conflito no Oriente Médio tem efeito indireto, elevando custos de produção e transporte. Esse cenário pode resultar, no médio prazo, em redução de área plantada ou menor uso de insumos, com reflexos na produção mundial.
“A situação atual é mais delicada não pelo que aconteceu até agora, mas pelo que poderá ocorrer lá na frente”, afirma a analista.
Pressão política nos Estados Unidos
O tema também repercute nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump enfrenta pressões de grupos com interesses divergentes.
Produtores rurais defendem maior uso de combustíveis renováveis, como o etanol, enquanto a indústria petrolífera busca manter espaço no mercado energético.
A proposta de ampliar a mistura de etanol para 15% na gasolina ao longo de todo o ano poderia elevar o consumo de milho em cerca de 61 milhões de toneladas adicionais. Atualmente, cerca de um terço da produção americana do cereal já é destinada à produção de etanol.
No caso da soja, a expansão do uso de biodiesel e diesel renovável também pode impulsionar a demanda. Um plano da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos prevê o uso de 21,2 bilhões de litros desses combustíveis, o que representaria aumento de 67% na mistura atual.
A definição dessa política energética será determinante para o equilíbrio entre os interesses do agronegócio e da indústria de combustíveis fósseis.


