Agro

Alta nos fertilizantes importados pode ameaçar segurança alimentar global

Com destaque em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, o Brasil se consolidou como um dos maiores produtores agrícolas do mundo

Por Sputnik Brasil com Redação 17/03/2026 06h06
Alta nos fertilizantes importados pode ameaçar segurança alimentar global
Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil

O agronegócio brasileiro consumiu cerca de 49 milhões de toneladas de fertilizantes em 2023, sendo 87% desse volume proveniente de importações, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). Esse cenário de forte dependência externa reacende preocupações diante da atual instabilidade no Oriente Médio, que pode afetar o fornecimento desses insumos ao Brasil.

Com destaque em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, o Brasil se consolidou como um dos maiores produtores agrícolas do mundo, devendo atingir um recorde de 353,4 milhões de toneladas na safra atual. Esse desempenho está diretamente relacionado ao uso intensivo de fertilizantes, especialmente nitrogênio, fósforo e potássio. No entanto, a elevada importação desses insumos expõe o país a riscos em períodos de instabilidade internacional, como o conflito recente envolvendo o Irã.

Para Alexis Dantas, professor do Departamento de Evolução Econômica da UERJ, a situação decorre de políticas que enfraqueceram a indústria nacional de fertilizantes. Ele alerta que os preços globais desses insumos já acumulam alta de cerca de 30%, prejudicando a competitividade do setor agrícola brasileiro, especialmente nas cadeias de soja e milho.

"No passado, a Petrobras atuava em várias regiões do país na produção de fertilizantes, mas essa atividade foi transferida à iniciativa privada. Esperava-se que o setor privado retomasse a produção, mas isso não ocorreu. Nossa capacidade interna de garantir preços razoáveis foi bastante enfraquecida, representando também um prejuízo industrial e empresarial, fruto de uma privatização mal conduzida", explica Dantas.

Embora considere o aumento dos preços uma situação temporária, Dantas avalia que o cenário evidencia um erro estratégico do país ao depender quase totalmente do fornecimento internacional desses insumos. Diana Chaib, doutora em economia pelo Cedeplar/UFMG, concorda e acrescenta que a instabilidade provocada pelo conflito pressiona diretamente os preços da energia usada na produção de fertilizantes, especialmente o gás natural.

"Isso gera uma tendência de alta nos custos desses produtos. Conflitos no Oriente Médio podem trazer volatilidade aos mercados internacionais, afetar cadeias logísticas e influenciar os preços de commodities estratégicas. A lógica é clara: o conflito tende a elevar o preço das commodities agrícolas, que dependem desses insumos", afirma a economista.

Segundo Chaib, a produção de fertilizantes está concentrada em poucos países, alguns deles localizados justamente na região do conflito, responsáveis por cerca de 30% das exportações mundiais, além de grandes produtores como Rússia e Canadá.

"Essa concentração torna o mercado mundial mais suscetível a choques geopolíticos e comerciais. Para países como o Brasil e outras economias dependentes, isso aumenta a vulnerabilidade a eventos extremos e pode afetar a produção agrícola e a segurança alimentar global", ressalta.

Brasil busca reduzir dependência externa de fertilizantes

Em 2022, o governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, com a meta de reduzir pela metade, até 2050, a participação dos insumos importados no volume consumido pelo setor agrícola. Para Chaib, a iniciativa reconhece a vulnerabilidade estrutural do país, mas depende de investimentos robustos e apresenta resultados apenas no médio e longo prazo.

"O plano é estratégico, mas enfrenta limitações por exigir grandes investimentos e por trazer resultados graduais", resume a economista.

O professor Alexis Dantas lembra ainda que a Petrobras assumiu o compromisso de retomar o protagonismo na produção nacional de fertilizantes em seu plano estratégico. No entanto, ele ressalta que será necessário um período mais longo para reconstruir a estrutura produtiva.

"Esse movimento se assemelha ao que ocorreu com a distribuição de petróleo no Brasil. A privatização da BR Distribuidora também resultou em aumentos significativos nos preços dos combustíveis. Mesmo sem reajustes nas refinarias da Petrobras, algumas distribuidoras elevaram preços sem aumento de custos. Algo semelhante ocorre agora com os fertilizantes, evidenciando nossa grande dependência das importações", compara Dantas.

Embora ainda seja cedo para mensurar os efeitos diretos da guerra no Oriente Médio sobre o agronegócio brasileiro, caso o encarecimento dos fertilizantes persista, o setor pode enfrentar não apenas aumento de custos, mas também dificuldades para expandir a produção.

"Dada a importância do Brasil na produção global de alimentos, qualquer impacto em nossa capacidade produtiva pode contribuir para a redução da segurança alimentar em nível mundial", alerta Dantas.

Apesar dos riscos, Diana Chaib destaca que o agronegócio brasileiro mantém elevada competitividade internacional e tende a absorver parte desses choques no curto prazo, "seja por ajustes tecnológicos ou pela própria escala produtiva".