Agro
Arroba do boi gordo sobe e pressiona mercado interno e externo
Cotação passa de R$ 319 para R$ 351 em São Paulo; valorização e queda do dólar elevam preço em dólares e reduzem competitividade da carne brasileira
A arroba do boi gordo iniciou o ano cotada a R$ 319 no estado de São Paulo e atualmente está em R$ 351, o que representa uma alta de 10%. O aumento encarece o produto para o consumidor brasileiro. No mercado externo, a pressão também cresce: com a valorização da arroba no campo e a queda do dólar no mercado interno, o preço do boi gordo em moeda americana subiu 18% em 2026.
No começo de janeiro, a arroba correspondia a US$ 58. Agora, o valor chega a US$ 68,5. Ao longo da série histórica, poucas vezes a cotação ultrapassou US$ 60. Isso ocorreu em agosto de 2008, novembro de 2010, junho de 2021 e março de 2022, quando foi registrado o recorde de US$ 73.
Em reais, a arroba saiu de uma média anual de R$ 255 em 2023 e 2024 para R$ 330 neste ano.
De acordo com Thiago Bernardino de Carvalho, analista do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o cenário atual é consequência dos investimentos realizados na pecuária em 2021 e 2022. Esses aportes ampliaram a oferta de animais em 2023, 2024 e no início de 2025.
Com isso, a produção brasileira avançou e levou o país a assumir a liderança mundial no setor, ultrapassando os Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda).
A ampliação da estrutura de confinamentos também contribuiu para esse resultado. Atualmente, cerca de 9,25 milhões de animais são criados nesse sistema, o que representa 21% de todo o abate no país. Segundo Carvalho, esse modelo sustentou tanto o crescimento das exportações quanto a recuperação da demanda interna.
Na virada do ano, porém, alguns fatores alteraram o equilíbrio do mercado. Além da redução sazonal na oferta de animais de confinamento, as chuvas melhoraram as condições das pastagens, o que favorece o manejo do rebanho e a retenção de fêmeas para inseminação.
Esse cenário gerou um impasse entre pecuaristas e frigoríficos. “A oferta no campo está sendo ajustada”, afirmou o analista.
No mercado internacional, as exportações brasileiras seguem em bom ritmo. A China mantém compras expressivas e outros países, como os Estados Unidos, voltaram a adquirir carne do Brasil.
A baixa oferta global da proteína ajuda a explicar o momento favorável para as exportações brasileiras. No entanto, o desempenho dependerá do câmbio. Com o dólar em torno de R$ 5,15 e a arroba a R$ 351, a carne brasileira perde competitividade frente a outros concorrentes.
Segundo Carvalho, a menor produção no campo também reduziu a disponibilidade de carne, levando o indicador ao nível mais baixo dos últimos 14 meses. A expectativa é de preços firmes ao menos até março e abril.
Para o segundo semestre, no entanto, o cenário é incerto, principalmente em relação ao comportamento da China. Caso o Brasil mantenha uma produção mais ajustada e exportações menores, o equilíbrio poderá vir do consumo interno.
O analista avalia que 2026 tende a registrar maior circulação de recursos na economia, impulsionada pela isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, pelas eleições e pela realização da Copa do Mundo.
Ainda assim, as vendas brasileiras para a China podem diminuir. Nesse caso, o país tende a exportar cortes mais baratos, como os do dianteiro. Se China e Estados Unidos ampliarem as compras da Argentina, mercados tradicionalmente atendidos pelos argentinos podem passar a buscar fornecedores no Brasil.
*Com informações do Brasilagro


