Agro
Estiagem prolongada desafia produtores de cana em Alagoas
Setor sucroenergético enfrenta perdas no cultivo de sequeiro; irrigação ameniza impactos
O setor sucroenergético de Alagoas enfrenta um desafio que se arrasta pelas últimas três safras: a irregularidade climática. Na Usina Santa Clotilde, os gráficos de monitoramento confirmam o que os produtores já sentem no bolso. O déficit hídrico está reduzindo o tamanho da cana-de-açúcar e colocando em xeque as estratégias de manejo no campo.
A produção da usina reflete o impacto direto da seca. Enquanto a safra anterior registrou 901 mil toneladas, a previsão para o ciclo atual é de 870 mil toneladas, uma quebra de 3,48%. O número, porém, esconde uma disparidade significativa entre o cultivo irrigado e o de sequeiro.
A cana dos fornecedores, que em 90% dos casos depende exclusivamente da chuva, sofreu uma queda de 17%, o equivalente a 81 mil toneladas a menos. Em contrapartida, a cana própria da usina, beneficiada por sistemas de irrigação, cresceu 12%.
O supervisor agrícola da Santa Clotilde, Pedro Sarmento, explica que o problema começa no planejamento do plantio. “Um rendimento que a gente esperava de uma cana planta de 80 a 85 toneladas por hectare, devido a isso [seca], ela passa a colher com 50, 55. Dá uma queda grande na cana planta de 18 meses”, afirmou.
Segundo ele, o impacto é em cascata. “Uma safra puxa a outra. Quando o canavial é cortado e a chuva não vem, a brotação já inicia o novo ciclo comprometida pelo déficit acumulado”, acrescentou.
Outro ponto crítico destacado é a forma como a chuva ocorre. No Nordeste, a baixa capacidade do solo em armazenar água transforma tempestades isoladas em desperdício.
“Maio choveu 570 mm. Quem faz essa leitura acha que foi muita chuva. Entretanto, ficou até o dia 17 com zero chuva. Do dia 17 ao dia 30, choveu 570. Imagine um copo ou um balde que só armazena 50 litros e você bota 70: vai transbordar e essa água não vai ser aproveitada”, explicou Sarmento.
Com um déficit atual de 146 mm em relação à média histórica, o setor segue em alerta. A estratégia de aumentar o TCH (Toneladas de Cana por Hectare) através do plantio novo esbarra na realidade climática que se repete para as safras de 2025 e 2026.
Para o fornecedor de sequeiro, a sobrevivência depende da volta da regularidade das chuvas.
*Estagiário sob supervisão


