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Operação Lívia desmantela rede que induzia jovens ao suicídio em plataforma

Organização criminosa atraía crianças e adolescentes para comunidades virtuais, onde as vítimas eram submetidas a coerção psicológica e incentivadas à prática de violência extrema contra animais

Por Agência Brasil 04/08/2026 17h05
Operação Lívia desmantela rede que induzia jovens ao suicídio em plataforma
Apuração começou após o suicídio, transmitido ao vivo, de uma adolescente de 13 anos, Lívia, ocorrido em 22 de julho - Foto: Reprodução

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apresentou, nesta terça-feira (4), os resultados da Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, com apoio técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp/MJSP). A ação investigou uma organização criminosa que atraía crianças e adolescentes para comunidades virtuais, onde as vítimas eram submetidas a coerção psicológica e incentivadas à prática de violência extrema contra animais (principalmente gatos), desafios de automutilação e induzimento ao suicídio.

A apuração começou após o suicídio, transmitido ao vivo, de uma adolescente de 13 anos, Lívia, ocorrido em 22 de julho. A transmissão foi realizada em um grupo virtual na rede social Discord, com duração aproximada de 45 minutos. Antes de ser induzida a tirar a própria vida, a adolescente foi coagida pelos criminosos a torturar e matar um gato, sem sucesso, em sua residência, na cidade de Naviraí (MS).

Em entrevista coletiva em Brasília, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, ressaltou a importância da prevenção e da vigilância ativa por parte dos pais e de toda a sociedade no combate a crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes.

“Redobrem a atenção no cuidado com os seus filhos, com as crianças, com os adolescentes, no contato com esses conteúdos, em função dos graves eventos que foram reportados aqui.”

Além de Mato Grosso do Sul, a operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em outros quatro estados: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, com colaboração das polícias civis locais.

Entre os detidos na operação estão cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, e um homem de 18 anos, todos usuários do serviço de mensagens Telegram. O suposto líder do grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido no Rio de Janeiro. Outro investigado é um estudante seminarista de um mosteiro em Pernambuco.

As investigações apontaram que os integrantes do grupo abriram uma chave PIX em nome da vítima, sem o conhecimento da mãe, conforme relatou Alessandro Barreto, delegado de Polícia Civil do Piauí e representante do Ciberlab.

“Os próprios criminosos criaram chave Pix para menina, mandavam dinheiro para comprar gillette, para se automutilar e tudo.”

O material apreendido será analisado para identificar outros possíveis envolvidos e esclarecer as circunstâncias da atuação online da organização.

O secretário Nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Fernandes, destacou o descumprimento da legislação por parte das plataformas Discord e Telegram em relação ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, Lei nº 15.211/2025), ao Marco Civil da Internet, atualizado pelo Decreto 2.975/2026, e ao Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital (nº 12.976/2026). Entre as infrações citadas, o Discord não interrompeu a transmissão ao vivo, não removeu o conteúdo imediatamente e não notificou as autoridades competentes.

“Pelo ECA Digital, o Discord teria a obrigação de derrubar esses conteúdos e comunicar imediatamente às autoridades policiais, para que as autoridades pudessem agir antes que esses resultados acontecessem. E isso não foi feito”, afirmou Victor Fernandes.

O secretário também apontou indícios de falhas na verificação da idade dos usuários, exigida pelo ECA Digital.

“Todas essas cenas de automutilação, de induzimento e, no final, nesse caso mais chocante, de suicídio de uma jovem de 13 anos, aconteceram em grupos em transmissões ao vivo no Discord, feitas totalmente por crianças e adolescentes. Todos conseguiam acessar a plataforma sem fazer nenhum tipo de verificação de idade para acessar esses ambientes.”

O MJSP informou que enviará pedido de investigação contra o Discord e o Telegram pela morte da adolescente à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável por aplicar o ECA Digital no Brasil.

O delegado Alessandro Barreto revelou ainda que a polícia identificou outra vítima do grupo em outro estado e conseguiu evitar novo suicídio, previsto para ocorrer em outra transmissão ao vivo.

"Estamos vendo os nomes de outras possíveis vítimas para mandar avisar aos pais e responsáveis para que fiquem atentos”, destacou o delegado.