Agro

Crise da cana se agrava e perdas do produtor chegam a 50% em AL, diz Asplana

Dados do setor indicam que os fornecedores acumulam uma redução média de 15,2% na produção agrícola, enquanto as perdas financeiras já se passam de 28%

Por Blog de Edivaldo Junior 28/01/2026 04h04
Crise da cana se agrava e perdas do produtor chegam a 50% em AL, diz Asplana
Crise da cana se agrava e perdas do produtor chegam a 50% em AL - Foto: Reprodução

A crise da cana-de-açúcar em Alagoas tende a se agravar na safra 2025/2026. Dados do setor indicam que os fornecedores acumulam uma redução média de 15,2% na produção agrícola, enquanto as perdas financeiras já se passam de 28%, reflexo direto da combinação entre quebra de produção, recuo do ATR e nos preços do açúcar e do etanol.

Na comparação feita com dados de 15 de janeiro de 2026 e igual data do ano anterior, a produção dos fornecedores de cana em Alagoas ficou em 6,31 milhões de toneladas ante 7,36 milhões de toneladas do ciclo 2024/205. No mesmo período o preço médio da tonelada padrão caiu de R$ 163,53 para R$ 137,07.

A soma da quebra de produção e da queda no preço provocou perda de faturamento de R$ 338 milhões para os fornecedores. O faturamento bruto estimado foi R$ 1,203 bilhão na safra 2024/2025 e de R$ 865 milhões na safra 2025/2026. O cenário tem impacto direto sobre a renda no campo e levanta dúvidas sobre a capacidade dos produtores de atravessar o atual ciclo e chegar à próxima safra.

Para o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Estado de Alagoas (Asplana), Edgar Antunes, o momento é um dos mais críticos já vividos pelo setor sucroenergético alagoano. “É a maior ou uma das maiores crises da história do setor em Alagoas. Os fornecedores foram pegos de surpresa, logo no início da safra, com uma queda abrupta de preços de um mês para o outro. Quando se soma a redução da produtividade no campo com o recuo do ATR, o prejuízo financeiro ultrapassa 50% de uma safra para outra em muitos casos”, afirma.

Segundo Edgar, a safra atual reúne todos os fatores negativos possíveis. “Foi a tempestade perfeita. Tivemos ATR de campo ruim, queda de produtividade, redução de safra e uma queda brusca no preço da ATR para o fornecedor. Ao mesmo tempo, houve queda no preço do açúcar no mercado internacional e dificuldades também para a indústria com o etanol. A conta não fechou nem para as usinas, nem para os produtores”, reforça.

O presidente da Asplana alerta ainda para os efeitos imediatos da crise sobre o fluxo financeiro do setor. “Muitas unidades industriais, principalmente na região Norte, estão com dificuldade de pagamento e passaram a parcelar os saldos dos fornecedores. Tem sexta-feira sem pagamento, fornecedor desesperado, tendo que escolher entre manter o investimento na cana ou sustentar a família. Isso é muito grave”, afirma.

Apesar do quadro adverso, Edgar Antunes avalia que há expectativa de melhora no médio prazo, especialmente com a reação do mercado de etanol. “O etanol começa a reagir porque os estoques estão baixos. Isso pode ajudar na próxima safra. O grande desafio é chegar até lá. Muitos fornecedores não terão condições de comprar insumos este ano. Sem adubação e tratos culturais, a próxima safra pode ser ainda mais comprometida”, alerta.

Segundo ele, a redução de produção chega a 30% em áreas do Sul do Estado e varia entre 10% e 20% em regiões do Norte, com impacto direto sobre a economia, o emprego e a geração de renda em Alagoas.

Coopervales: clima e preços agravaram a crise no campo

Na avaliação do diretor da Cooperativa de Crédito Rural dos Plantadores de Cana de Alagoas (Coplan) e cooperado da Coopervales, Henrique Acioly, a crise atual começou a se desenhar ainda no ciclo climático anterior. “Pegamos uma estiagem muito pesada entre agosto e fevereiro, com chuvas muito abaixo da média em março e abril, que são meses fundamentais para o desenvolvimento do canavial. A chuva só veio de forma mais consistente em maio, o que atrasou demais o ciclo da cultura”, explica.

Segundo Acioly, o reflexo disso foi uma quebra expressiva na produção em diversas regiões. “Na área de Atalaia, Murici e Capela, a maioria dos produtores teve redução entre 15% e 25%, chegando a 30% em alguns casos. Além disso, houve uma queda de 20% a 25% no valor pago pela tonelada de cana. Foi uma perda muito grande no faturamento do fornecedor e também das usinas cooperativas”, afirma.

O dirigente destaca que, no caso da Coopervales, o impacto foi severo. “Estamos falando de redução de 30% a 40% no faturamento bruto em algumas situações. Isso é muito grave para um setor produtivo como o da cana, que depende de escala e de investimento contínuo”, alerta.

Henrique Acioly também associa a crise local ao cenário internacional do açúcar. Segundo ele, houve um superávit global estimado em cerca de seis milhões de toneladas, puxado por superprodução na Ásia e pela mudança do mix do Centro-Sul brasileiro para uma safra mais açucareira. “Mesmo com a redução da safra no Centro-Sul, a produção foi voltada ao açúcar. Isso, somado ao aumento da oferta internacional, derrubou os preços no mercado mundial e atingiu diretamente o valor do ATR pago ao fornecedor”, explica.

Para o cooperado, o impacto final foi devastador. “Tivemos redução de safra, queda no valor da cana e perda de faturamento. Foi uma combinação extremamente negativa. Agora, a expectativa é conseguir manter os tratos culturais e atravessar esse momento difícil, esperando que, com um cenário melhor de preços no futuro, seja possível recuperar parte do que foi perdido”, conclui.

O conjunto de dados e relatos reforça que a crise da cana em Alagoas vai além de um ciclo ruim. Ela compromete a renda do produtor, reduz o giro da economia no interior e coloca em risco a sustentabilidade da atividade no Estado, com reflexos que podem se estender por mais de uma safra.