Agro

'Suicídio ecológico': mudanças climáticas alteram mapa agrícola mundial

Efeitos mais visíveis dessa crise incluem riscos à segurança alimentar de bilhões de pessoas

Por Sputnik Brasil 08/01/2026 16h04 - Atualizado em 08/01/2026 17h05
'Suicídio ecológico': mudanças climáticas alteram mapa agrícola mundial
Regiões como Canadá e Sibéria, conhecidas pelo frio extremo, vêm sendo especuladas como possíveis novas fronteiras agrícolas - Foto: © Sputnik / Guilherme Correia

Mudanças climáticas estão redesenhando o mapa agrícola mundial, deslocando zonas tradicionais de plantio para novas áreas, enquanto regiões antes frias tornam-se mais aptas à agricultura. No entanto, os riscos dessa transformação superam os eventuais benefícios econômicos.

As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção científica distante e já impactam diretamente a produção de alimentos em todo o mundo. Um aumento de temperatura de 1,5ºC já altera regimes de chuva, intensifica eventos climáticos extremos e favorece a proliferação de doenças e pragas, alertam cientistas.

Os efeitos mais visíveis dessa crise incluem riscos à segurança alimentar de bilhões de pessoas e instabilidade nos preços dos alimentos. Para se adaptar, zonas tradicionais de plantio estão migrando para regiões mais amenas — ainda consideradas frias e pouco produtivas — ou surgindo em áreas antes improváveis para a agricultura.

Exemplos desse fenômeno já são observados: países tradicionalmente produtores de azeite, como Itália e Espanha, tiveram colheitas prejudicadas pelo calor, enquanto Reino Unido e Alemanha passaram a produzir. Na França, maior produtora de vinho sob o clima mediterrâneo da Occitânia, muitas produções migraram para a Inglaterra. Na América do Sul, o Chile, maior produtor da região, deslocou vinhedos para latitudes mais ao sul.

No Brasil, esse movimento já é perceptível, com produções migrando para outros estados. A laranja, commodity na qual o país lidera mundialmente, já teve produtores transferindo-se de São Paulo para o Mato Grosso do Sul.

O café, outro produto em que o Brasil é líder global, corre risco de desaparecer do país caso as atuais políticas de emissão se mantenham, pressionando o aumento da temperatura global para 4°C até 2100, segundo pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Estamos diante de um "novo normal" climático?

Para Carlos Nobre, professor da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia-SPA, ainda é possível evitar esse cenário.

"Pela primeira vez, nos últimos três anos, a média de temperatura atingiu um aumento de 1,5°C. E há um enorme risco de que esse patamar se torne permanente em poucos anos", afirma Nobre.

Segundo ele, 75% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis, e o volume segue crescendo. Em vez de reduzir, em 2025 foi registrado um novo recorde, com 1,1% mais emissões do que em 2024.

Dados do Climate TRACE indicam variações entre países — a China, por exemplo, teve pequena queda —, mas a tendência global é de alta recorde, projetando o esgotamento do teto de carbono para 1,5°C antes de 2030.

Com mais gás carbônico na atmosfera, a eficiência da fotossíntese aumenta, explica Nobre. Por isso, regiões como Canadá e Sibéria, conhecidas pelo frio extremo, vêm sendo especuladas como possíveis novas fronteiras agrícolas. Com o aumento das temperaturas, o eixo da produção de alimentos pode mudar.

No entanto, Nobre desmistifica a ideia de que o aquecimento global favoreceria a agricultura. O calor provocado pelos gases de efeito estufa também prejudica a eficiência da fotossíntese, o que representa um "desastre" para o setor.

Além disso, a baixa fertilidade do solo, o alto teor de ácido húmico e a falta de infraestrutura impedem que essas novas regiões se tornem o próximo "celeiro do mundo".

"E quando está super seco, também nada acontece, porque não tem água para transpirar e para abrir o estômato para fazer a fotossíntese. O que a gente está vendo no mundo inteiro são grandes quebras de safra."

Nesse contexto, o Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo, está entre os mais prejudicados.

De acordo com estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os impactos econômicos das mudanças climáticas podem chegar a US$ 184,1 bilhões (aproximadamente R$ 992,1 bilhões, ou 8,5% do PIB de 2025). Atualmente, o agronegócio representa de 23% a 29% do PIB brasileiro.

A situação se agrava ainda mais com o derretimento do permafrost — solo congelado no Ártico e na Antártida que armazena enormes quantidades de carbono e metano. Estima-se que, até 2100, possam ser liberadas 200 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa se nada for feito para reverter as mudanças climáticas.

"A partir de 2026, precisamos reduzir, no mínimo, 5% ao ano as emissões. Mas não estamos vendo nada caminhando nessa direção", alerta Nobre.

"Isso é um ecocídio, como nós chamamos, um suicídio ecológico, porque vamos iniciar a sexta extinção de espécies. Vamos extinguir todos os recifes de corais, que mantêm 25% da biodiversidade oceânica. Vamos perder a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e muitos outros ecossistemas em todo o mundo. É isso que vai acontecer."

Por Sputnik Brasil