Agro

Expansão do etanol de milho redefine a cadeia do grão no Brasil

Produção deve alcançar 13,2 bilhões de litros até 2027

Por Redação* 03/01/2026 10h10 - Atualizado em 03/01/2026 10h10
Expansão do etanol de milho redefine a cadeia do grão no Brasil
Etanol de milho - Foto: Reprodução

A cadeia do milho no Brasil atravessa um momento de profunda transformação, impulsionada principalmente pela rápida expansão do etanol produzido a partir do grão. Entre 2024 e 2025, a produção saltou de 8,3 bilhões para 10,2 bilhões de litros, um crescimento de aproximadamente 1,9 bilhão de litros em apenas um ano.

Segundo a Datagro Consultoria, esse avanço tem alterado de forma estrutural a dinâmica de oferta e demanda no mercado interno, sustentando os preços ao produtor e redefinindo as perspectivas para o milho no País.

De acordo com Plínio Nastari, CEO da Datagro, a expansão do etanol de milho elevou significativamente o consumo doméstico do grão. Atualmente, a demanda interna total é estimada em cerca de 99 milhões de toneladas, consolidando o mercado doméstico como o principal fator de equilíbrio do setor. “O aumento da produção de etanol de milho foi, sem dúvida, o grande impulsionador do mercado de milho no Brasil em 2025”, afirmou em entrevista ao Agro Estadão.

E a tendência é de continuidade. Para a safra 2026/27, com início em abril de 2026, a Datagro projeta uma nova expansão de aproximadamente 3 bilhões de litros na produção de etanol de milho, o que pode elevar o volume total para 13,2 bilhões de litros.

Esse crescimento deverá pressionar ainda mais a demanda por grãos. Para atender à produção projetada, o consumo de milho destinado ao etanol pode atingir cerca de 31,4 milhões de toneladas, ante 24,3 milhões de toneladas em 2025. “Trata-se de uma expansão relevante”, destacou Nastari, ao ressaltar o avanço do uso industrial do milho.

Exportações pressionadas pelo consumo interno


Com o fortalecimento do consumo doméstico — impulsionado tanto pelo setor de proteínas animais quanto pela indústria de etanol —, as exportações brasileiras de milho tendem a permanecer moderadas em 2026. A Datagro trabalha com a possibilidade de uma leve retração nos embarques, reflexo da maior absorção interna.

Historicamente, o Brasil consome entre 99 e 100 milhões de toneladas de milho e exporta de 40 a 42 milhões de toneladas. Esse equilíbrio, segundo Nastari, passa a depender cada vez mais do ritmo do consumo interno. “O consumo doméstico é o fator determinante do volume disponível para exportação”, afirmou.

Preços sustentados e expansão da área


O aumento estrutural da demanda cria um ambiente favorável à expansão da área plantada de milho no País. No entanto, esse movimento depende da manutenção de preços remuneradores ao produtor — condição que, segundo a Datagro, está presente no cenário atual.

Para 2026, a consultoria projeta preços capazes de cobrir os custos médios de produção. “Nas principais regiões produtoras, como o norte do Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, os preços devem remunerar o produtor e viabilizar o milho safrinha”, avaliou Nastari.

Clima segue como principal ponto de atenção


O maior fator de risco para o próximo ciclo segue sendo o clima. O plantio da soja apresentou atrasos em algumas regiões, o que tradicionalmente gera preocupações quanto ao estreitamento da janela de plantio do milho safrinha.

Ainda assim, Nastari pondera que atrasos já observados em outros anos foram compensados por condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da soja. “O atraso no plantio não implica necessariamente em redução da janela do milho safrinha”, afirmou.

Neste ciclo, porém, o desafio está no volume e, sobretudo, na irregularidade das chuvas. As precipitações permanecem ligeiramente abaixo da média histórica de 30 anos e apresentam distribuição heterogênea, o que pode aumentar o risco de estreitamento da janela de plantio da safrinha. O cenário, segundo a Datagro, exige monitoramento contínuo nas próximas semanas.

Para a safra 2025/26, já em andamento, a consultoria estima uma produção total de milho de cerca de 142 milhões de toneladas, sendo aproximadamente 27 milhões de toneladas da safra de verão e 115 milhões de toneladas da segunda safra.

Fatores externos e geopolítica


No cenário internacional, eventos geopolíticos — como a possibilidade de um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia — têm impactado os mercados de commodities. No entanto, Nastari avalia que os reflexos diretos sobre o milho são limitados, com efeitos mais relevantes sobre o trigo.

Ainda assim, a queda nos preços do petróleo pode reduzir os custos de frete internacional, facilitando importações pontuais, sem alterar de forma significativa a dinâmica do mercado doméstico de milho. “A queda do petróleo também reflete essas expectativas ligadas ao conflito na Ucrânia”, concluiu.

*Com informações do Estadão Agro