Turismo
Flutuação no Rio Gelado vira atração turística em Alagoas
Brincadeiras de criança motivaram a criação em roteiro para turistas
Sol e mar são as primeiras coisas que vêm à mente quando se fala de turismo em Alagoas. No entanto, o estado é um mosaico de riquezas naturais, cultura e ancestralidade que vão muito além das belas praias. Em contraponto à agitação do litoral e ao luxo dos resorts, Jequiá da Praia é um convite para descobrir uma Alagoas mais densa, sombreada por matas preservadas e árvores centenárias que convidam para o descanso e o silêncio, cortado apenas pelos sons da natureza em volta.
Imagine-se deslizando suavemente em uma boia confortável, enquanto a correnteza mansa do rio gelado faz todo o trabalho de conduzir seu corpo por entre a vegetação nativa e quase intocada. O que hoje é o ápice de um roteiro turístico disputado por viajantes de todo o país, um dia foi apenas uma brincadeira despretensiosa de crianças ribeirinhas, que com garrafas pet improvisavam boias para descer o rio em direção à Lagoa Jequiá.
A flutuação no Rio Gelado é a tradução perfeita de como a memória afetiva pode se transformar em negócio estruturante. O que a Eco Boat propõe é mais do que um passeio de barco como tantos outros oferecidos no litoral e em regiões ribeirinhas; é uma imersão na identidade de um povo que aprendeu a conviver em harmonia com o meio ambiente. Sob o comando de Alysson do Nascimento Cardoso, um biólogo, filho de pescadores que retornou às suas raízes para empreender, a experiência em Jequiá da Praia prova que o turismo contemporâneo está de braços abertos para autenticidade e a conexão real com a natureza.
De biólogo a empreendedor: o retorno às águas ancestrais
A história da Eco Boat começa com um movimento de retorno. Alysson saiu de Jequiá muito jovem, em busca de melhores oportunidades de estudo. Após concluir o Ifal, se formou em Biologia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Mas o chamado de suas águas ancestrais falou mais alto e, ao apresentar o Rio Gelado para um grupo de amigos que estava empreendendo com turismo em 2019, descobriu que o que era cotidiano para ele, o banho na lagoa, a exuberância de árvores centenárias, como a Sumaúma e o Pau Brasil, e a sabedoria da pesca artesanal formavam um cenário rico e exuberante para quem está acostumado a paisagens urbanas.
O início foi, como ele mesmo define, “minúsculo”, usando caiaques de pescadores da região e coletes emprestados. “Muitas vezes, quando chovia, o único jeito era atender os turistas dentro da nossa própria casa. Minha mãe cozinhava na nossa cozinha e os visitantes usavam nosso banheiro”, recorda Alysson. Essa proximidade, no entanto, se tornou a semente do atendimento humanizado que se tornou marca registrada do negócio.
O amadurecimento veio rápido. Com o suporte estratégico do Sebrae Alagoas, o Microempreendedor Individual (MEI) evoluiu para uma Empresa de Pequeno Porte (EPP) e deu um salto no número de visitantes. Em 2024, a Eco Boat atendeu 1.398 visitantes durante o ano todo. Em 2025, o número cresceu para 3.751. Mas o ápice veio justamente em janeiro de 2026, com o recorde de 1.054 visitantes em apenas 30 dias, um crescimento impressionante de 253% no faturamento, que consolidou o destino entre os roteiros mais buscados no estado.

De biólogo a empreendedor, Alysson transformou uma brincadeira de infância no Rio Gelado em um dos roteiros mais autênticos de Alagoas.
O Santuário de Jequíá: entre mangues e gigantes da floresta
O passeio da Eco Boat é uma aula de ecologia viva. Jequiá da Praia, o município mais jovem de Alagoas, abriga uma Reserva Extrativista Federal, uma unidade de conservação onde os humanos e a natureza convivem em harmonia. O roteiro começa justamente mostrando essa simbiose, onde o visitante é apresentado ao “covo”, instrumento artesanal feito de folhas de palmeira ou dendê, usado para pescar o camarão, seguida por uma navegação mansa na lagoa.
A trilha na Mata Atlântica é um capítulo à parte, são quatro quilômetros de imersão em um ecossistema preservado. Alysson conduz os visitantes pela vegetação nativa, que inclui Pau-Brasil e a majestosa Sumaúma, gigante que guarda histórias de séculos. Com seu olhar de biólogo, o anfitrião transforma o trajeto em momento de conscientização ambiental. “Não é apenas levar o turista para tomar banho, é mostrar o modo como a comunidade vive e a importância de preservar cada centímetro desse território”, afirma.
Após a caminhada, vem o ponto alto do passeio: a flutuação no Rio Gelado. Se quando criança, Alysson experimentava a calma e a conexão com a natureza descendo o rio usando garrafas pet, hoje ele oferece boias que parecem colchões flutuantes, capazes de conduzir com segurança pessoas de todas as idades, mesmo aquelas que não sabem nadar.
O impacto da experiência encantou o jornalista Zeca Camargo, que eternizou o momento em uma edição da sua coluna na Folha de S. Paulo, em 2022. “Com o corpo livre, a mente se soltava ainda mais. E, vendo as copas das árvores em cima de mim, eu só pensava em quantos lugares assim ainda vou descobrir no Brasil. Não digo “assim” no sentido de lugares parecidos com esse. A paisagem ali em Jequiá é o que eu chamaria de única e original”, disse.
Essa originalidade mencionada por Zeca é o que faz o visitante se desconectar do mundo exterior. Após serem convidados a deixar o celular de lado, o barulho dos motores é substituído pelos sons dos animais, o farfalhar da vegetação ao vento, a calmaria da correnteza e o toque da água gelada regenerando as energias e conectando com a natureza.

Flutuar no Rio Gelado é desacelerar, ouvir a natureza e se reconectar com o essencial. Uma experiência única em meio à Mata Atlântica de Jequiá da Praia.
A poesia do Pirão da Leidinha
Se a flutuação é o ápice do passeio, o almoço do Pirão da Leidinha fecha com chave de ouro a imersão na cultura ribeirinha local, com o que existe de mais autêntico na culinária alagoana. Localizado estrategicamente à beira da lagoa, é comandado pela Leidinha, a mãe de Alysson, e foi criado a partir da necessidade de atender os visitantes cansados da aventura.
O carro-chefe do restaurante, o icônico pirão é preparado com paciência e poesia, como descreve a jornalista alagoana Nide Lins. “Um pirão de leite de coco com peixe e camarão é clássico da mesa alagoana, mas o de Leidinha… ah, o dela é vida. É de lamber os beiços e guardar na memória como um afeto. Tudo fresco, do jeito certo: peixe da lagoa, camarão pescado de covo, leite de coco natural ralado na hora. É comida com alma. É raiz, história, sustento”, define.
Um dos pilares do crescimento da Eco Boat foi justamente a profissionalização desse talento. Com consultorias do Sebrae, a cozinha da Leidinha ganhou escala sem perder a identidade. Hoje, o restaurante é um destino por si só, atendendo os visitantes que fazem o passeio como o público que chega procurando a peixada que se tornou uma das mais famosas do Litoral Sul.
Salto estratégico é resultado de diagnóstico e maturidade
O sucesso da Eco Boat não é fruto apenas das belezas naturais, mas de um acompanhamento técnico que permitiu a transição de um negócio familiar para uma estrutura empresarial sólida. Se no começo Alysson sozinho conduzia os visitantes pelo roteiro e Leidinha preparava o almoço, a empresa hoje agrega toda a família e gera 24 postos de trabalho diretos e indiretos, numa operação que conta atualmente com 11 embarcações, parte delas alugadas de pescadores da região, impactando toda economia da Reserva Extrativista.
O empreendedor conta que, no início, tinha medo de não conseguir atender a demanda de visitantes e chegou a limitar a 50 pessoas por dia, com receio de perder a identidade e não conseguir entregar uma experiência de qualidade aos turistas. “Como não tínhamos experiência com turismo, a gente limitava muito e tinha medo de crescer e não conseguir dar conta de tudo. Mas, com o Sebrae a gente despertou para as possibilidades. Já temos ficha técnica no restaurante, melhoramos o ambiente da margem da lagoa e começamos a divulgar”, explica o empreendedor, que conta com a mentoria de Sidartha Reis, analista do Sebrae em Penedo.
“Alysson atuava como MEI. A partir do diagnóstico, priorizamos as ações estratégicas e o levamos a vivenciar experiências de benchmarking, aliadas a orientações que contribuíram para a organização da gestão, a qualificação da experiência turística e a tomada de decisões mais seguras. Hoje, a transição para EPP reflete o amadurecimento do negócio e demonstra como o apoio técnico contínuo pode impulsionar o crescimento sustentável, a geração de empregos e o fortalecimento do turismo local”, ressaltou.
Sob esse acompanhamento, a Eco Boat já expandiu suas atividades com mais um produto turístico: a Trilha do Mangue, que também é sucesso entre os visitantes, além de planejar a expansão das atividades em parceria com a Associação das Mulheres em Ação de Jequiá (Amaje), com a implantação de uma loja de artesanato. É o compromisso social caminhando junto com o crescimento do negócio.
Com apoio do Sebrae, a Eco Boat saiu do modelo familiar para se tornar uma empresa estruturada, gerando empregos e crescendo de forma sustentável.
Visitar a Eco Boat em Jequiá da Praia é, sobretudo, apoiar um modelo de desenvolvimento sustentável que valoriza quem nasceu e cresceu naquela região. É comprovar que Alagoas tem muito mais do que praias e se abrir para novos destinos no Estado. Para agendar passeios, entrar em contato com o Instagram: @ecoboat_lagoajequia


