Política
Autor de impeachment de Dilma, Miguel Reale Júnior declara voto em Lula
Advogado cita risco à democracia e alerta para possível anistia dos condenados pelo 8 de janeiro
O advogado Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), declarou apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Em carta publicada nesta quarta-feira (7), o ex-ministro da Justiça criticou o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Intitulado “Cuidado com o precipício”, o texto foi divulgado no Instagram e aponta possíveis riscos à democracia em caso de vitória do parlamentar.
Reale Júnior relacionou a candidatura de Flávio à possibilidade de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Cada eleitor de Flávio deve ficar ciente de que ao escolhê-lo está a admitir a anistia, ou seja, referendando a invasão das sedes dos três Poderes e a tentativa de anulação pela força da eleição fidedigna de 2022. Votar em Flávio é, portanto, legitimar o golpe”, escreveu.
Críticas à relação com os EUA e à segurança pública
O jurista também criticou o posicionamento de Flávio Bolsonaro sobre a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para Reale Júnior, os grupos atuam com objetivos econômicos, e não para promover “terror social”. Ele afirmou que o senador teria apoiado a medida para “atender ao Tio Sam”, o que, em sua avaliação, poderia abrir espaço para uma intervenção norte-americana no Brasil.
Outro ponto abordado foi a defesa de referências do modelo de segurança pública de El Salvador pelo candidato. Reale Júnior criticou as prisões em massa adotadas no país e afirmou que medidas semelhantes poderiam resultar em “um estado policial opressor pavoroso”.
Para o advogado, uma eventual vitória de Flávio poderia levar a uma política de “repressão indiscriminada, sem o devido processo penal”.
“Se é certo que o PT e o próprio Lula revelam o desgaste do tempo e permeia a sociedade um cansaço com o discurso petista, todavia, uma coisa é segura: com os governos petistas não se instala a apologia ou a tentativa do golpe militar, se preserva nossa independência e não se promove um estado policialesco”, escreveu.
Ao final da carta, o jurista afirmou que a escolha entre os candidatos terá consequências para o futuro institucional do país.
“Nada justifica que, ao se pretender mudar o rumo, tome-se o caminho do precipício. Dentro de quinze dias resolve-se o destino do Brasil e desejo ardentemente que não vivamos sob o signo da violência”, declarou.
Histórico de apoio a Lula
Não é a primeira vez que Reale Júnior declara apoio a Lula em uma eleição presidencial. Em 2022, embora defendesse uma terceira via, o advogado anunciou voto no petista ainda no primeiro turno, justificando a decisão como uma forma de “evitar um mal maior”.
O jurista ganhou projeção nacional por sua participação no processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em 2015, foi um dos autores da denúncia apresentada à Câmara dos Deputados, ao lado de Hélio Bicudo e Janaína Paschoal.
Lula e Flávio Bolsonaro avançaram para o segundo turno após a votação de domingo (4). O senador terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto o atual presidente recebeu 45,16%. A votação decisiva está prevista para 25 de outubro.
