Política
A “astúcia” de Luciano Barbosa, ensina Tancredo, pode engolir o dono
Luciano Barbosa não poderia ter escolhido frase melhor para resumir sua participação na eleição deste ano
“Não contaram com a nossa astúcia. Do lado de cá, a gente também não é bobo.” Luciano Barbosa não poderia ter escolhido frase melhor para resumir sua participação na eleição deste ano. Nem pior para preservar sua conhecida habilidade de jogar sem mostrar todas as cartas.
Em cima do trio elétrico, comemorando a eleição dos filhos Daniel e Lucas, o prefeito de Arapiraca quebrou o protocolo. Riu. Os filhos riram. E Luciano resolveu celebrar publicamente não apenas os votos conquistados, mas a própria “astúcia”.
Sim, teve astúcia.
Luciano chegou à eleição com Daniel Barbosa no PP de Arthur Lira e colocou Lucas Barbosa no PSDB de JHC. Cada um nas chapas consideradas melhores para a vitória.
A candidatura de Lucas chegou a ser ameaçada pelos tucanos quando o prefeito se aproximou de Renan Filho. O argumento era que o espaço dado ao filho de Luciano, que levaria uma vaga (como de fato levou) só se justificaria com a a garantia do apoio do pai.. Do Agreste veio a advertência: mexer com Lucas poderia produzir uma rebelião contra JHC em Arapiraca. Lucas ficou.
Depois, Luciano fechou com Renan Filho. E fez mais: declarou apoio e participou da campanha. O mesmo Luciano que, meses antes, segundo interlocutores, dizia guardar mágoas do ex-governador.
Mesmo alertado, repetidas vezes, Renan Filho acreditou no acordo e convenceu Paulo Dantas a apadrinhar a aliança. Luciano, segundo interlocutores, conseguiu como compensação apoio para ampliar a votação de Daniel Barbosa em outras cidades.
No meio desse jogo, Arapiraca ganhou anúncios e obras importantes, como o VLT e o Hospital Metropolintado do Agreste, obras e investimentos do governo de Alagoas. Luciano conseguiu ainda algo mais curioso: terminou a eleição com gente de sua confiança nas duas chapas majoritárias. Célia Rocha, sua mais antiga aliada, foi vice de JHC. Yale Fernandes, seu braço direito, vice de Renan Filho.
Um pé de cada lado talvez fosse pouco. Luciano terminou a eleição com os dois filhos eleitos, relação preservada com Arthur Lira e aliados nas duas chapas que disputaram o governo. Foi habilidoso? Os fatos mostram que soube aproveitar cada movimento.
Mas a parte mais interessante veio depois. Quando as urnas fecharam, o homem conhecido por falar pouco falou demais.“Não contaram com a nossa astúcia”, disse, antes de completar, entre gargalhadas: “Do lado de cá, a gente também não é bobo e nós, que só tivemos 63 mil (vostos) na outra eleição, passamos de 100 mil votos nessa. Foi assim que aconteceu".
Se do lado de Luciano estavam os astutos, quem eram os bobos? JHC? Foi eleito governador e ganhou em Arapiraca, resultado que dificilmente aconteceria com um maior engajamento do prefeito na majoritária. Arthur Lira? Também não parece: foi eleito senador. Célia Rocha estava na chapa vencedora. Yale, segue ao seu lado. E Renan Filho? Renan Calheiros? Luciano não explicou. Talvez nem precisasse.
Tancredo Neves deixou uma advertência que atravessou décadas de política: quando a esperteza é muita, acaba engolindo o dono. Luciano fez acordos, mudou de posição, negociou com adversários e aliados e saiu das urnas com os dois filhos eleitos. Sua habilidade esteve justamente em fazer tudo isso sem fechar definitivamente as portas.
Até que veio a gargalhada. A astúcia que Luciano conseguiu guardar durante meses parece ter escapado, por alguns segundos, pela vaidade da língua. E talvez esse seja o único erro de cálculo do prefeito nessa eleição: quem faz questão de anunciar que foi mais esperto também acaba alertando aos demais que eles podem ter sido enganados no jogo.
Depois de 2026, qualquer novo acordo com Luciano certamente carregará essa lembrança. Ou não. Política tem memória curta. E, conhecendo Alagoas, não se deve descartar que apareça outro Renan no caminho de LB.
