Política

Oposição e Celso Amorim divergem sobre atritos entre Brasil e EUA

Segundo ele, a Casa Branca sob Donald Trump busca subordinar a América Latina aos interesses norte-americanos

Por Agência Brasil com Redação 12/08/2026 15h03
Oposição e Celso Amorim divergem sobre atritos entre Brasil e EUA

Deputados da oposição e o assessor especial da Presidência da República, embaixador Celso Amorim, divergiram nesta quarta-feira (12), em comissão na Câmara dos Deputados, sobre os recentes atritos nas relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos (EUA).

De um lado, Amorim defendeu que as ações dos EUA contra o Brasil, como o recente tarifaço, têm motivação política. Segundo ele, a Casa Branca sob Donald Trump busca subordinar a América Latina aos interesses norte-americanos.

“O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos para o nosso país”, destacou Amorim.

O embaixador citou um vídeo publicado pela diplomacia dos EUA, na terça-feira (11), no qual se afirma que a dominação norte-americana sobre a América Latina não deve ser questionada.

“Quem tiver visto o vídeo divulgado ontem pelo Departamento de Estado, lido pelo embaixador dos EUA no Panamá, verá que o objetivo é relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral, inclusive, naturalmente, do Brasil”, completou.

Por outro lado, parlamentares da oposição responsabilizaram o governo brasileiro pelas ações do governo Trump. O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP), afirmou:

“A atual conversão do Brics em uma linha de frente anti-ocidental demonstra um padrão sistemático de anti-americanismo, que priorizou o debate retórico e a vaidade pessoal em detrimento do pragmatismo comercial estratégico do Estado brasileiro.”

O Brics é um grupo político e econômico formado por grandes países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os membros costumam negar ser um bloco anti-ocidental, destacando, por exemplo, a participação da Índia, país historicamente próximo dos EUA.

Luiz Philippe também cobrou que o governo brasileiro “destrave” a concessão do visto diplomático ao indicado pela Casa Branca para a embaixada no Brasil, Daniel Pérez. A demora levou os EUA a cancelar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.

Já o deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS) afirmou que houve uma “agressão à soberania dos EUA” por parte do Brasil, citando, entre outros fatores, o bloqueio de contas de empresas norte-americanas no caso envolvendo a rede social X, que se recusou a cumprir decisões judiciais brasileiras.

“O que estamos vendo é uma agressão brasileira à soberania americana. Dizer que o tarifaço não tem relação com o que o Brasil está fazendo com os EUA é maquiar os fatos”, declarou Van Hatten.

Celso Amorim rebateu a tese de que os atritos com a Casa Branca tenham razões ideológicas. Segundo ele, o Brasil está aberto a negociar com qualquer governo, independentemente das posições políticas.

O embaixador explicou que o governo federal decidiu não conceder vistos diplomáticos a representantes estrangeiros, de qualquer país, até as eleições de outubro. Ele classificou como “bizarra” a divulgação do nome do indicado para embaixador dos EUA no Brasil antes do Itamaraty aceitar o pedido, o que contraria tratados internacionais.

“Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui após a saída da representante do governo [Joe] Biden. Ficou apenas um encarregado de negócios. Agora, na proximidade das eleições, às pressas e sem nosso consentimento, querem credenciar outro embaixador”, comentou Amorim.

Para o governo brasileiro, há uma tentativa de Donald Trump de interferir nas eleições brasileiras.

EUA respondem ao Brasil na OMC e aceitam reunião para consultas.

Grupo de 25 estados dos EUA contesta tarifas de Trump na Justiça.

Facções criminosas

Celso Amorim foi convidado à Comissão de Relações Exteriores da Câmara para comentar, entre outros temas, a decisão dos EUA de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

O assessor presidencial explicou que a medida não pode ser descontextualizada das ações recentes da Casa Branca e do atual cenário internacional. Para o Planalto, a decisão pode servir de pretexto para intervenções externas no Brasil, inclusive militares.

“Não se pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de força em outros contextos internacionais”, alertou Amorim.

Segundo ele, a designação pode ser manipulada geopoliticamente para interferir nos assuntos internos do Brasil, motivo pelo qual o governo tem se posicionado contra a classificação feita pela Casa Branca.

“De acordo com a lei americana, o fato de ser classificada como terrorista dá poder aos EUA para agir militarmente. Não falo só da Venezuela, mas também dos mais de 200 que morreram em operações no Pacífico e no Caribe, sem nenhuma preocupação sequer de prova”, disse, referindo-se a ataques dos EUA contra embarcações sob alegação, sem provas, de tráfico internacional de drogas.

Pela oposição, o deputado General Girão (PL-RN) defendeu a postura norte-americana e criticou o governo brasileiro por se opor à decisão de Trump.

“Existe um medo de que as forças especiais americanas entrem aqui no Brasil para capturar criminosos associados a terroristas”, justificou o parlamentar.

Amorim respondeu que a soberania cabe ao Brasil: “Não é chamar ou permitir que venha um russo, americano ou chinês fazer isso”.

O embaixador ainda ressaltou que a designação das facções como terroristas pode trazer prejuízos econômicos ao país e reforçou o compromisso do governo no combate ao crime organizado.

“Não queremos, de maneira alguma, subordinar nossa soberania à presença de outros países. Nem da China, nem dos EUA, nem da Rússia, nem de nenhum deles. Isso é uma questão brasileira”, concluiu Amorim.