Política

Do fictício ao prático: inteligência artificial já transforma o cenário político

Iniciativa surge em meio à preocupação com deepfakes, especialmente após o episódio em que um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro

Por Sputnik Brasil 07/08/2026 14h02
Do fictício ao prático: inteligência artificial já transforma o cenário político
Iniciativa surge em meio à preocupação com deepfakes, especialmente após o episódio em que um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro - Foto: © Reprodução

O uso da inteligência artificial (IA) já impacta profundamente a política, desde a criação de imagens e narrativas até a organização de estratégias eleitorais e formulação de políticas públicas.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em parceria com a Advocacia-Geral da União (AGU), lançou uma cartilha com boas práticas para o uso da IA nas eleições, ressaltando a importância de rotular conteúdos gerados artificialmente para garantir transparência ao eleitor.

A iniciativa surge em meio à preocupação com deepfakes, especialmente após o episódio em que um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro, produzido por IA, foi usado na convenção do PL para pedir votos ao candidato Flávio Bolsonaro. O Jornal de Alagoas apresenta as diferentes formas de aplicação da IA na política.

Jingles, sátiras e cenas fictícias

Na pré-campanha presidencial brasileira, a IA já é protagonista. A tecnologia tem sido utilizada para criar jingles, músicas, vídeos promocionais, animações e clipes satíricos, facilitando a produção de conteúdo em larga escala e com custos reduzidos.

Entre os casos de maior repercussão está o do senador Flávio Bolsonaro, que divulgou vídeos gerados por IA nos quais aparece como piloto de caça, capturando um ladrão de celulares e até contracenando com uma versão sintética do pai, Jair Bolsonaro. Na convenção do PL, a imagem e a voz do ex-presidente foram simuladas para declarar apoio à candidatura do filho.

Outros presidenciáveis também utilizam a tecnologia. O governador Romeu Zema publicou um clipe em que aparece cantando sobre Minas Gerais e, posteriormente, divulgou vídeos com personagens semelhantes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministros do STF, em tom crítico.

Ronaldo Caiado recorreu a imagens sintéticas em peças sobre segurança pública e também apareceu como cantor e violonista em vídeos criados por IA. Aliados de Lula, por sua vez, usaram a tecnologia para produzir vídeos que reconstituem sua trajetória política e pessoal.

Além de baratear a produção, a IA permite adaptar mensagens para diferentes públicos, alterando voz, imagens, cenários e discursos em minutos. No entanto, o uso de conteúdos sintéticos em peças humorísticas ou de ataque pode ampliar a desinformação e reforçar narrativas enganosas, dificultando a distinção entre fatos e manipulações.

Geração de candidatos e partidos por IA

Para apresentar agendas pouco debatidas e testar novas formas de representação, iniciativas ao redor do mundo têm recorrido à IA para criar candidatos virtuais e até partidos políticos.

Em alguns casos, a IA dialoga com eleitores e formula propostas; em outros, serve como experimento para discutir os limites entre automação, democracia e responsabilidade política.

Na Colômbia, a Gaitana IA foi lançada como candidata virtual ao Senado, focando em temas como transparência, combate à corrupção e participação cidadã. Embora não tenha personalidade jurídica nem concorra formalmente, a iniciativa buscou mostrar como a IA pode auxiliar na elaboração de propostas e no diálogo com a população.

No Reino Unido, Steve Endacott concorreu ao Parlamento com o AI Steve, um avatar alimentado por IA que respondia em tempo real às perguntas dos eleitores. A proposta era usar as interações para orientar suas decisões, ampliando a participação popular na formulação de políticas públicas.

Já nos Estados Unidos, o projeto VIC (Virtual Integrated Citizen) tentou registrar uma candidatura ao Senado em Wyoming para 2026, propondo que a IA fosse responsável pela campanha e posições políticas. O registro foi negado, pois apenas pessoas físicas podem disputar cargos eletivos.

No âmbito partidário, a Dinamarca criou em 2022 o Synthetic Party, iniciativa artística e política com programa elaborado por IA treinada com propostas de pequenos partidos sem representação parlamentar. O partido utiliza IA para interagir com eleitores e formular posicionamentos, mas candidatos humanos ainda são necessários para concorrer às eleições.

Simulação de cenários eleitorais e microssegmentação do eleitorado

Além da produção de conteúdo, a IA transforma estratégias eleitorais ao possibilitar simulações de cenários e personalização de mensagens para grupos específicos de eleitores.

Com grandes volumes de dados — pesquisas de opinião, comportamento em redes sociais, indicadores econômicos e resultados eleitorais —, algoritmos estimam o impacto de propostas, testam discursos e identificam temas com maior potencial de mobilização.

Assim, campanhas podem avaliar, por exemplo, como uma proposta de redução de impostos repercute entre pequenos empresários, enquanto mensagens sobre segurança pública são direcionadas a eleitores de grandes centros urbanos.

Essa estratégia, chamada de microssegmentação, ganhou notoriedade no escândalo Cambridge Analytica nas eleições dos EUA em 2016 e no referendo do Brexit, quando dados de milhões de usuários do Facebook foram usados para propaganda política personalizada.

Desde então, campanhas em diversos países passaram a adotar ferramentas semelhantes — agora sob regras mais rígidas de proteção de dados — para identificar nichos, prever tendências de voto e otimizar recursos.

No entanto, a hiperpersonalização pode criar "bolhas" de informação, dificultando o debate público e reduzindo a transparência sobre as promessas feitas a diferentes segmentos do eleitorado.

Formulação de políticas públicas e legislação

A IA avança também na formulação de políticas públicas e na atividade legislativa. Governos e parlamentos utilizam algoritmos para analisar dados, identificar tendências e simular efeitos de medidas antes da implementação.

A tecnologia cruza informações de saúde, segurança, educação, mobilidade e orçamento para apontar prioridades, estimar custos e prever impactos econômicos e sociais.

No Legislativo, a IA agiliza tarefas como elaboração de minutas de projetos de lei, resumos de textos legislativos, comparação de versões e análise de emendas. Ferramentas do tipo também auxiliam gabinetes parlamentares a responder cidadãos, organizar consultas públicas e identificar temas de maior interesse popular.

No Brasil, a ferramenta Ulysses, da Câmara dos Deputados, usa IA para apoiar pareceres e pesquisas legislativas. Nos Emirados Árabes Unidos, o governo anunciou em 2025 o uso de IA para redação e revisão de leis, analisando automaticamente como novas normas podem afetar a legislação existente e sugerir alterações.

Essas soluções têm potencial para tornar a administração pública mais eficiente e baseada em evidências. No entanto, decisões políticas envolvem valores e prioridades que não podem ser delegadas a algoritmos, além de levantarem preocupações sobre transparência, vieses e responsabilidade.