Política
Pressão dos EUA aproxima ainda mais Brasil e México, avalia especialista
Blocos como Mercosul e CELAC enfrentam impasses internos devido às preferências ideológicas de seus membros
A recente estratégia dos Estados Unidos de reconfigurar a Doutrina Monroe, tradicionalmente voltada para tratar os países latino-americanos como parte de sua esfera de influência, vem alterando o cenário geopolítico regional. Neste contexto, Brasil e México, liderados por governos que não seguem automaticamente as diretrizes de Washington, aprofundaram sua parceria.
Segundo Beatriz Naddi, professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e doutora em relações internacionais, a pressão política dos EUA, a adesão ideológica de países vizinhos à influência norte-americana e episódios como o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos EUA, têm levado governos que buscam autonomia, como Brasil e México, a estreitarem suas relações bilaterais.
"Com certeza, essa pressão vinda dos EUA pode ser considerada um fator de aproximação entre o Brasil e o México. São potências regionais com muitas semelhanças, principalmente pelo maior desenvolvimento industrial em relação aos vizinhos. Contudo, não se pode atribuir essa aproximação apenas a isso. Existe também um contexto político-ideológico contemporâneo que influencia bastante", analisa.
Blocos como Mercosul e CELAC enfrentam impasses internos devido às preferências ideológicas de seus membros. Assim, o Brasil busca alternativas de cooperação ao norte, como com a Colômbia e, em âmbito latino-americano mais amplo, com o México, destaca Naddi, que também é mestre em Integração Regional da América Latina e integra o Observatório de Regionalismo.
"A partir do segundo governo de FHC [Fernando Henrique Cardoso], o Brasil reduziu o espaço geográfico estratégico da América Latina para a América do Sul. Com a fragmentação política do Mercosul, o Brasil busca outros parceiros mais ao norte. Isso pode levar a uma reinversão desse processo de sul-americanização, com o Brasil voltando a valorizar a América Latina, o que está previsto inclusive em nossa Constituição", comenta.
Aproximação vai além da esfera política
Brasil e México compartilham características semelhantes, desde dimensões geográficas e culturais até a relevância de empresas estatais como Petrobras e Pemex, que discutem possíveis parcerias. Para a pesquisadora, o momento de tensão geopolítica representa uma oportunidade para ambos fortalecerem a cooperação prática.
"Podemos considerar essa conjuntura uma oportunidade de aproximação menos discursiva e mais prática entre os dois países, especialmente por meio de suas grandes estatais de petróleo. Isso é ainda mais relevante diante do conflito no Estreito de Ormuz, da escassez de petróleo e da dependência do mercado internacional", destaca.
Naddi também relembra a visita do vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin ao México, acompanhado de uma comitiva de empresários, quando ocupava também o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O encontro simbolizou uma tentativa de expandir a relação bilateral para novas áreas.
"Em agosto de 2025, houve a visita do vice-presidente Geraldo Alckmin ao México, com a assinatura de acordos de cooperação, além do aspecto diplomático, já alimentado pela pressão constante dos EUA e pelas tarifas que vão e voltam com Trump. Além disso, Brasil e México mantêm acordos de complementação econômica de longa data", observa.
Relação precisa ser institucionalizada para se fortalecer
Segundo Naddi, a relação bilateral pode ser prejudicada por mudanças de governo. Para evitar isso, é necessário institucionalizar os acordos, garantindo que as cooperações não fiquem sujeitas a alterações políticas.
"Nas relações internacionais, a inconstância na manutenção de uma política externa coerente a cada troca de governo é muito comum. Por isso, para aproveitar o bom momento, é preciso institucionalizar as relações. A conversa recente entre Lula e Claudia Sheinbaum, já apontando para um próximo encontro da comissão binacional, mostra esse esforço", conclui.
Com os governos latino-americanos divididos entre o alinhamento à política dos EUA e a busca por soberania em um mundo multipolar, as relações bilaterais tornam-se alternativas práticas frente aos impasses recorrentes nos blocos regionais, frequentemente marcados por divergências políticas internas.


