Política

Eleições 2026 em Alagoas: inteligência artificial põe democracia à prova

Ao Jornal de Alagoas, especialistas apontaram riscos e oportunidades positivas no uso da IA nas campanhas eleitorais

Por Jamerson Soares 24/04/2026 14h02 - Atualizado em 24/04/2026 14h02
Eleições 2026 em Alagoas: inteligência artificial põe democracia à prova
Especialistas explicam os prós e contras na relação entre IA e campanha política - Foto: Reprodução

A inteligência artificial (IA) tem exercido um papel fundamental na otimização de processos e de tempo, no entretenimento, na geração e materialização de ideias que outrora não seriam tão possíveis de vir à tona, bem como na resolução de problemas organizacionais em empresas e na ciência.

Por outro lado, é um artifício tecnológico que vem sendo debatido quanto à sua aplicabilidade e à forma como pode ser usado contra a democracia, já que, por meio da IA, podem ser criadas realidades distorcidas e narrativas visuais, como cenas falsas de pessoas famosas em determinados lugares, servindo também de base para embates políticos e difamações eleitoreiras.

Nos últimos dias, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, postou uma imagem, gerada por IA, na qual aparece como uma figura semelhante a Jesus Cristo, com luz divina saindo de suas mãos.

No mesmo período, em resposta à publicação, a embaixada do Irã divulgou um vídeo gerado por inteligência artificial em que Trump aparece levando um soco de Jesus Cristo e sendo lançado para uma espécie de inferno.

Em Alagoas, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AL), o primeiro caso de uso irregular de IA com teor político em pré-campanha foi registrado em 2026, após um veículo de mídia pertencente a um político alagoano publicar um conteúdo que simula uma cena de amizade entre JHC e o investigado Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master. O material dá a entender que o ex-prefeito teria uma espécie de relação com Vorcaro e o caso Master.

Para Gabriel Setti, cientista político e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde atua há 16 anos, isso evidencia a força que a inteligência artificial tem para gerar conflitos políticos e também o quanto pode ser uma aliada importante na propaganda política.

"A inteligência artificial pode ser usada para o bem, mas também para a manipulação de ideias e informações, o que se torna particularmente perigoso se não houver fiscalização, orientação ética e uso responsável. A política sempre conviveu com a disseminação de mentiras, mas a inteligência artificial potencializa essas práticas, sobretudo no ambiente digital e nas redes sociais", pontuou o professor.

Deepfakes e IA


Nesta semana, um policial militar foi preso por utilizar IA para simular a voz da ex-companheira e matar os pais dela em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. Segundo a polícia, ele teria manipulado áudios com o uso da tecnologia para atrair os pais da mulher e matá-los. O casal foi morto após atender a um falso pedido de ajuda. Ferramentas especializadas em detecção de deepfake indicaram que os áudios foram gerados por IA.

Esse foi apenas um exemplo de como a IA também pode ser utilizada: por meio de deepfakes ("deep learning" — aprendizado profundo — + "fake" — falso), uma tecnologia que permite a troca de rostos e a clonagem de vozes em vídeos. Essas técnicas são usadas desde 2017 para entretenimento e criatividade, mas também podem representar um risco significativo.

Uma informação recente que ilustra bem o momento atual do avanço da inteligência artificial é o lançamento, pela Alibaba, de um sistema de código livre, gratuito e com código-fonte aberto. A ferramenta permite que o usuário escreva um texto e gere automaticamente um áudio, além de possibilitar a clonagem de voz a partir de um trecho curto, como um áudio de aproximadamente um minuto acompanhado de sua transcrição.

Trata-se de uma tecnologia acessível, que pode ser testada por qualquer pessoa, evidenciando como hoje é relativamente simples clonar a voz de alguém com poucos cliques. Esse tipo de recurso ajuda a dimensionar o potencial impacto dessas tecnologias.

Segundo André Lage, professor de Inteligência Artificial Aplicada da Ufal e atuante na área há 16 anos, o termo "deepfake" é um neologismo criado para rotular conteúdos falsos produzidos com tecnologias de IA, ou seja, uma abordagem que permite a construção de sistemas computacionais inteligentes e que representa o estado da arte na resolução de diversos problemas da computação.

Para ele, essa técnica sofisticada tem grande potencial tanto para usos positivos quanto para usos nocivos. "Nesse sentido, diferentes tecnologias de inteligência artificial podem, sim, ter o mesmo potencial de serem utilizadas para fins prejudiciais. O alerta sobre esses riscos não é recente. Desde as eleições de 2018 já havia a preocupação com técnicas capazes de interferir nos alicerces da democracia, mesmo antes da popularização da IA generativa", explicou o especialista.

O professor doutor Lage também pontuou que o problema não se limita apenas aos períodos eleitorais, mas também se manifesta em outras situações, como a disseminação de desinformação sobre vacinas ou políticas públicas.

Ele acredita que uma das possíveis soluções imediatas seria rastrear o caminho de disseminação das fake news, de forma semelhante ao que se faz em investigações financeiras, seguindo a lógica do "follow the money".

"Nesse modelo, ao receber um conteúdo falso, o cidadão poderia denunciá-lo às autoridades competentes, responsabilizando legalmente quem o encaminhou. No entanto, ainda não existe um arcabouço jurídico específico e atualizado para lidar com esse tipo de prática, tampouco políticas públicas eficazes que garantam a aplicação das punições previstas", disse o professor.

Mesmo sendo importante a fiscalização da disseminação dessas informações, há um dilema central a ser enfrentado.

"No ambiente digital, o desafio é ainda maior devido à velocidade com que as infrações ocorrem, embora também existam técnicas digitais capazes de fiscalizar a disseminação dessas informações. Isso, porém, leva a um dilema central: até que ponto a sociedade estaria disposta a abrir mão da privacidade em nome de uma vigilância mais eficaz contra a desinformação? Trata-se de um debate que levanta mais perguntas do que respostas, mas que precisa ser enfrentado", concluiu.

É ano de eleições: o que podemos esperar?

O ano de 2026 começou com diversas hipóteses e até superstições, tanto nos bastidores da política alagoana quanto no cenário nacional, especialmente no que diz respeito à fiscalização de propagandas políticas na internet, à legislação e à polarização de ideias partidárias.

De acordo com o cientista político Gabriel Setti, esse cenário de forte polarização deve continuar, incluindo a dicotomia entre direita e esquerda e o processo de reorganização da direita brasileira.

"Há uma percepção de que, em um eventual segundo turno, essas forças de direita tendem a se unir para enfrentar a candidatura de Lula, que chega com indicadores positivos de governo, como melhora no emprego, inflação controlada e retomada do consumo", destacou o professor.

Em Alagoas, segundo ele, a polarização nacional também deve se refletir no cenário local. De um lado, forças alinhadas à direita, representadas pelo prefeito de Maceió, JHC, que possui alta aprovação, além de sua esposa, Marina Candia, que também desponta como um nome forte, apresentando índices de popularidade superiores aos de políticos tradicionais como Arthur Lira e Renan Calheiros. Do outro lado, forças alinhadas ao governo federal têm em Renan Filho um nome de destaque.

"Esse conjunto de forças desenha um cenário de disputa acirrada entre direita e esquerda, tanto no plano nacional quanto no estadual, configurando um verdadeiro tabuleiro político em constante movimento."

Nesse contexto, surge também a preocupação com o impacto das mentiras e manipulações, que tendem a se intensificar em períodos eleitorais, especialmente com o uso da IA. A discussão sobre a fiscalização de imagens e informações manipuladas no ambiente digital já vem sendo travada há algum tempo no Brasil, inclusive no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Autoridades e ministros têm debatido a regulamentação do uso das redes sociais, partindo do entendimento de que a internet não pode ser tratada como uma ‘terra sem lei’, onde tudo é permitido e ninguém responde por seus atos. Ao contrário, a cada dia surgem novos mecanismos de fiscalização e iniciativas voltadas à regulamentação desse espaço vasto e praticamente ilimitado que é o mundo digital", pontuou Setti.

O professor enfatizou que existe, sim, o risco de qualquer pessoa ser enganada por informações falsas geradas ou potencializadas por essas tecnologias. "Vivemos uma era em que imagens, vídeos e textos podem ser facilmente manipulados, o que torna o ambiente digital, onde grande parte da campanha política ocorre hoje, um espaço ainda mais sensível", complementou.

Já para o especialista André Lage, a IA pode ser útil na criação de assistentes virtuais para campanhas eleitorais, capazes de explicar projetos e propostas de um candidato por meio de avatares autorizados. "Por outro lado, pode ser altamente prejudicial se utilizada para criar avatares que façam um candidato dizer coisas que nunca disse, sem consentimento, comprometendo campanhas e o próprio processo democrático", explicou.

Ele destacou que o cenário social e político atual reforça esses riscos, pois vive-se um momento com pouco espaço para diálogo e com discursos enraizados no ódio ao opositor, tanto entre cidadãos quanto entre autoridades.

"Quando grupos extremistas permaneciam à margem do debate público, havia menos hostilidade e mais esperança de discussões produtivas. Ainda assim, existe a possibilidade de que, ao longo do processo eleitoral de 2026, parte significativa da população se afaste da disseminação de ódio e desinformação, seja por cansaço ou por desejo de mudança. O receio maior, no entanto, é que a ânsia pelo poder, historicamente ilimitada, continue levando à justificativa de meios questionáveis para alcançar fins políticos."

Legislação

Em fevereiro de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) regulamentou o uso da inteligência artificial na propaganda de partidos, coligações, federações partidárias, candidatas e candidatos nas eleições municipais daquele ano. A medida foi tomada pela Corte ao aprovar 12 resoluções, relatadas pela então vice-presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia.

A Resolução nº 23.610/2019, que trata de propaganda eleitoral, foi alterada de forma inédita, incluindo diversas novidades:

proibição de deepfakes;

obrigação de aviso sobre o uso de IA na propaganda eleitoral;

restrição do uso de robôs para intermediar contato com o eleitor, ou seja, a campanha não pode simular diálogo com candidato ou qualquer outra pessoa;

responsabilização das big techs que não retirarem do ar, imediatamente, conteúdos com desinformação, discurso de ódio, ideologias nazista e fascista, além de conteúdos antidemocráticos, racistas e homofóbicos.

Ainda segundo o TSE, dois artigos acrescentados ao texto trazem importante contribuição para coibir a desinformação e a propagação de notícias falsas durante as eleições.

O artigo 9º-C proíbe a utilização de conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos inverídicos ou descontextualizados com potencial de causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral, "sob pena de caracterizar abuso de utilização dos meios de comunicação, acarretando cassação do registro ou do mandato, bem como apuração das responsabilidades, nos termos do artigo 323 do Código Eleitoral".

Caso a campanha não retire o conteúdo do ar, a Justiça também pode aplicar multa.

Atenção redobrada

Ambos os especialistas entrevistados pelo Jornal de Alagoas deram orientações à população e ao poder público sobre a disseminação de informações falsas e a identificação de conteúdos produzidos por IA.

Gabriel Setti recomendou que o eleitor pesquise sobre seus candidatos, busque fontes confiáveis e esteja atento ao grande volume diário de desinformação, que muitas vezes é gerado de forma sistemática por pessoas ou até por máquinas, com o objetivo de difamar adversários ou criar narrativas falsas.

"Manter-se informado, conversar com pessoas que tenham conhecimento, consultar fontes sólidas e confiáveis e não basear decisões apenas em opiniões ou conteúdos manipulados são atitudes essenciais para se resguardar", recomendou.

Já André Lage lembrou que muitas pessoas tendem a consumir vídeos e outros conteúdos sem conseguir identificar se são verdadeiros ou falsos. "Mesmo pesquisas sobre um candidato não garantem que ele nunca tenha dito algo que aparece em um vídeo manipulado. Além disso, o conhecimento técnico sobre IA não impede, necessariamente, que alguém seja enganado, pois as decisões humanas são fortemente influenciadas pelas emoções."

Ele acredita que as campanhas deveriam utilizar imagens e vídeos de situações reais, evitando distorções que induzam o eleitor a interpretações equivocadas da realidade, como a simulação de filas inexistentes ou problemas superdimensionados.

"Uma medida inicial poderia ser a exigência de rótulos que indiquem o uso de inteligência artificial em conteúdos de campanha, mesmo quando utilizada de forma auxiliar, como na revisão de planos de governo. Além disso, poderiam ser estabelecidas proibições para a criação de seres humanos ou cenários fictícios que simulem situações irreais", frisou.

Apesar de a inteligência artificial ser usada de maneira positiva, não há garantia de que todas as pessoas agirão de forma ética. Por isso, os especialistas reforçam a necessidade de debate, regulamentação e fiscalização.