Polícia
Denúncia de casal que sofreu racismo foi formalizada
Christiane da Fonseca esteve na clínica Reabilit na sexta-feira (18), acompanhada do marido, Rafael Gonzaga, para uma consulta médica
O caso em que uma mulher denunciou um médico por racismo após ter seu nome exibido em um painel eletrônico de uma clínica localizada na Ponta Verde, em Maceió, acompanhado da palavra “cativeiro” foi formalizado nesta segunda-feira (21), na Delegacia Especial de Crimes contra Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina (DECCV).
Christiane da Fonseca esteve na clínica Reabilit na sexta-feira (18), acompanhada do marido, Rafael Gonzaga, para uma consulta médica. Segundo o casal, enquanto aguardavam atendimento, outros pacientes foram identificados no painel por expressões como “Sala VIP” e “Cafofo”. Quando chegou a vez de Christiane, o nome dela teria aparecido acompanhado do termo “Cativeiro”.
Abalada com o episódio, Christiane decidiu não se pronunciar publicamente neste momento. Ela afirmou que o marido está falando em seu nome porque tem dificuldade para relatar o que aconteceu. Rafael acompanhou a situação e levou o caso às autoridades.
De acordo com o relato apresentado à polícia, o casal questionou na própria clínica a utilização da palavra. Segundo eles, o médico teria reconhecido que havia colocado o termo no painel e afirmado que a intenção era “alegrar a nossa sexta-feira”.
Rafael afirma que considera necessário esclarecer o contexto em que a expressão foi utilizada. “Eu queria só perguntar ao doutor, à clínica responsável, em que momento a palavra ‘cativeiro’ pode ser aplicada de forma positiva para alguma pessoa”, questionou.
Após a situação, equipes do 1º Batalhão da Polícia Militar (1º BPM) foram acionadas e estiveram na clínica. Os envolvidos foram encaminhados à Central de Flagrantes, no Tabuleiro do Martins, onde prestaram depoimento.
Em seu depoimento, segundo a versão apresentada no procedimento, o médico Bruno Mendonça Moraes de Araújo afirmou que a utilização do termo teria sido uma brincadeira para descontrair. Ele também teria declarado que a expressão não fazia referência à cor dos pacientes e que não sabia quem seriam as pessoas identificadas no painel.
A defesa de Christiane, entretanto, questiona essa justificativa. O advogado Alberto Jorge Ferreira afirma que o contexto deve ser considerado na investigação, especialmente diante das diferentes expressões utilizadas para identificar os pacientes.
“Você não pode colocar um grupo de pessoas, ‘Sala VIP’, ‘Cafofo’, e quando chega um casal de negros você colocar ‘Cativeiro’”, declarou.
O advogado também mencionou o conceito de racismo recreativo ao contestar a alegação de que o episódio teria sido apenas uma brincadeira. Segundo ele, a justificativa não afastaria a necessidade de apuração do caso.
A defesa solicitou as imagens das câmeras de segurança da clínica. De acordo com o advogado, a delegada responsável pela investigação também requisitou o material. As gravações devem ser analisadas em conjunto com os depoimentos e outros elementos que possam ajudar a esclarecer o episódio.
O caso permanece sob investigação da Polícia Civil. A apuração deverá verificar as circunstâncias em que a expressão foi inserida no painel e confrontar as diferentes versões apresentadas pelos envolvidos.
Rafael afirma esperar que as provas reunidas durante a investigação esclareçam o ocorrido. “O racismo é considerado crime no Brasil. Nós nos sentimos atacados por esse crime. Agora, quem vai determinar isso, quem vai avaliar, são as provas testemunhais, as provas materiais e o juiz. Nós esperamos justiça”, afirmou.
Até o momento, o médico Bruno Mendonça Moraes de Araújo e a Clínica Reabilit não apresentaram manifestação pública oficial sobre o caso além da versão atribuída ao profissional durante o depoimento prestado na Central de Flagrantes.
