Nacional
Governo investe R$ 1 bilhão em supercomputador de IA e aposta em infraestrutura
O projeto integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e é uma das três frentes do governo para ampliar a infraestrutura nacional de supercomputação
O governo federal deu um passo importante para fortalecer a soberania digital e a capacidade tecnológica do Brasil ao anunciar, nesta quinta-feira (20), um investimento de R$ 1,06 bilhão para a instalação de um supercomputador dedicado à inteligência artificial (IA) no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Grande Natal, Rio Grande do Norte.
O movimento ocorre em meio à disputa global entre Estados Unidos e China pelo domínio de setores estratégicos da inteligência artificial, cenário que impõe ao Brasil o desafio de diversificar parceiros e evitar que a busca por capacidade tecnológica resulte em nova dependência externa.
O projeto integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e é uma das três frentes do governo para ampliar a infraestrutura nacional de supercomputação. Além do Rio Grande do Norte, estão previstas instalações semelhantes no Rio de Janeiro e o desenvolvimento de chips com arquitetura aberta em Campinas (SP).
Segundo Caio Almendra, consultor de inovação e sócio do Templo.cc, a decisão de diversificar fornecedores e tecnologias é estratégica, permitindo ao Brasil alternativas diante de eventuais mudanças na relação entre Estados Unidos e China. “Essa estratégia de diversificar tem um sentido, em especial para o Brasil, que consegue estar no meio termo entre um polo de influência estadunidense e um polo de influência chinês, reduz a dependência da geopolítica”, afirma.
Almendra destaca que a escolha por diferentes plataformas tecnológicas traz custos adicionais, como manutenção e formação de profissionais para operar cada infraestrutura. “Quando você usa a mesma tecnologia de infraestrutura, o grau de gasto com manutenção, em especial com gasto de conhecimento da manutenção, é menor e é menos arriscado.”
Apesar dos custos, a estratégia demonstra que o governo passou a tratar a IA como infraestrutura estratégica para a economia, e não apenas como tecnologia a ser incorporada por empresas e órgãos públicos. “O que isso acaba evidenciando é que o governo brasileiro está olhando a necessidade de IA como uma infraestrutura bastante robusta, como uma necessidade de investimento robusto.”
Supercomputação
A infraestrutura do supercomputador será instalada no Parque Tecnológico Augusto Severo (PAX), pertencente à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A escolha se deve ao potencial energético do estado, com ênfase em fontes renováveis, e ao esforço de descentralizar a infraestrutura de alta tecnologia, promovendo o desenvolvimento do Nordeste.
Com investimento superior a R$ 1 bilhão, o supercomputador deverá alcançar cerca de 7.200 petaflops — aproximadamente 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo —, colocando a máquina entre as mais potentes do mundo e muito acima da capacidade do Santos Dumont, o atual supercomputador mais potente do Brasil, localizado em Petrópolis (RJ).
Almendra faz uma ressalva sobre a relação entre a instalação do supercomputador e os investimentos necessários em energia. A demanda energética dessa infraestrutura deve ser vista como custo essencial para operação, não como fator que, por si só, atrairá novos investimentos para a região. “Todo data center tem como custo adicional, além do seu investimento em si, toda a capacidade de produção de energia e de transmissão de energia necessária para que o data center rode.”
O especialista ressalta que a disponibilidade de energia é condição necessária para o funcionamento do supercomputador. “Sem esse investimento em energia, o data center vira peso morto”, afirma.
A escolha do Rio Grande do Norte é vista como positiva, principalmente pela oferta de energia e alternativas existentes no estado. Para Almendra, o principal ganho deve vir do uso dessa infraestrutura para impulsionar setores produtivos brasileiros. “Nenhum país fica rico exportando energia. [...] Nenhum país ficou rico exportando alumínio. Um país fica rico exportando satélite feito de alumínio”, compara. O mesmo vale para a capacidade computacional: o Brasil deve usar o processamento para desenvolver aplicações que gerem ganhos reais em áreas como agricultura, logística e reflorestamento.
Nuvem Brasileira
O plano inclui ainda a criação de uma Nuvem Brasileira, alternativa para armazenamento e processamento de dados no país, buscando ampliar o domínio nacional dessas capacidades e reduzir a dependência de sistemas de big techs estrangeiras.
A ideia é desenvolver uma “nuvem” para o setor público e privado, baseando-se nas experiências da Nuvem do Governo, já operada por Serpro e Dataprev.
Almendra destaca a importância dessa iniciativa para a soberania digital, ressaltando a necessidade de infraestrutura própria, “bem preservada e bem protegida”. A externalização pode criar riscos, especialmente no caso de dados sensíveis, já que o país perde o controle sobre quem acessa as informações ou pode atacar os sistemas.
Além disso, o uso de serviços estrangeiros pode limitar a adoção de determinadas tecnologias em aplicações estratégicas. “Quando você está falando de dados sensíveis, você não pode utilizar uma LLM qualquer, porque esses dados sensíveis podem ser utilizados por um agente de má-fé.”
O especialista também cita o risco de espionagem industrial e compara a infraestrutura digital a estruturas essenciais à soberania, como estradas e sistemas de controle aéreo, que não poderiam depender de outro país.
“A espionagem industrial é uma continuidade da espionagem entre países, então você ter um espaço próprio com investimento em manutenção, com investimento em segurança, é essencial para a soberania.”
Almendra usa o Pix como exemplo: seria inviável deixar a infraestrutura do sistema de pagamentos sob controle estrangeiro, pois isso exporia informações sensíveis e vulnerabilidades da economia nacional.
A falta de infraestrutura própria pode limitar o desenvolvimento de aplicações digitais, já que empresas e pesquisadores deixam de usar determinados dados ou ferramentas por questões de segurança. “Quando você não tem essa segurança, você limita a possibilidade de desenvolvimento de técnicas. A ponta final da parte digital fica atrofiada por falta de infraestrutura.”
Nesse contexto, a Nuvem Brasileira pode reduzir a dependência de provedores estrangeiros e ampliar o espaço para desenvolvedores, cientistas e governo criarem novas aplicações com mais segurança.
“O investimento em soberania própria vai permitir que desenvolvedores brasileiros, cientistas brasileiros e o governo brasileiro, juntos, [...] possam pensar aplicações mais interessantes, sem medo que a sensibilidade dos dados e a utilização de armazenagem externa atrapalhe o desenvolvimento.”
Por Sputnik Brasil
