Nacional
STF inaugura painel sobre feminicídio no acervo permanente da Corte
Instalação da obra marca posicionamento institucional em defesa do combate à violência contra as mulheres
O Supremo Tribunal Federal (STF) incorpora nesta quinta-feira (6) ao seu acervo permanente o painel Sete Marias, do artista plástico Antonio Veronese. A obra, instalada no Hall dos Bustos da Corte, foi concebida como um manifesto artístico contra o feminicídio e a violência de gênero, tema que motivou uma mudança completa no projeto original idealizado para o tribunal.
A cerimônia de inauguração contará com a presença do presidente do STF, ministro Edson Fachin. O painel também será acompanhado por um texto do ministro aposentado Carlos Ayres Britto, que define a obra como uma denúncia "do que há de pior contra o que há de melhor sobre a face da Terra: o ser humano que designamos por… mulher", em referência à violência praticada contra mulheres.

Segundo Antonio Veronese, a proposta inicial era produzir uma obra sobre democracia, a convite da então presidente do STF, ministra Cármen Lúcia. No entanto, durante o desenvolvimento do trabalho, os dados sobre feminicídio no Brasil mudaram completamente o rumo da criação.
"Enquanto preparava esse trabalho, tomei conhecimento dos quatro feminicídios registrados diariamente no Brasil, além de outras 11 tentativas de assassinato contra mulheres todos os dias. Eu não consegui acreditar naqueles números. Aquilo me chocou profundamente."
O artista afirma que, a partir desse momento, a homenagem à democracia se transformou em um manifesto contra a violência de gênero.
"O painel sobre a democracia começou, inconscientemente, a se metamorfosear em uma obra dedicada a denunciar o feminicídio. Deixou de ser uma homenagem à democracia para se tornar uma crítica contundente à covardia dos homens contra as mulheres."
As sete mulheres retratadas em Sete Marias não aparecem derrotadas pela violência. Segundo Veronese, a intenção foi representar sobreviventes que, apesar das marcas do sofrimento, preservam a dignidade e seguem em frente.
"Eu não queria fazer mulheres derrotadas pela violência. Eu optei por fazer mulheres que, apesar da violência, mantém a dignidade e seguem em frente mesmo diante do sofrimento e da história que passaram."

Para o artista, o feminicídio é uma das formas mais graves de violência justamente por ocorrer, na maioria das vezes, dentro do ambiente familiar.
"O feminicídio é um dos, e talvez o pior dos, crimes, porque ele é cometido no foro íntimo de um casal, que é o lar deles, e pelo homem que deveria ser quem cuida da segurança e da proteção da mulher. É um crime de uma covardia sem limites, que envergonha os homens e envergonha o Brasil aos olhos do mundo."
Veronese também destacou o papel da arte como instrumento de conscientização social.
"A arte é um instrumento extraordinário para dar uma bofetada na indiferença, na frieza de uma parte da sociedade diante de dramas tão terríveis."
O artista avaliou que a presença da obra na principal Corte do país reforça o compromisso institucional com o enfrentamento à violência contra a mulher e agradeceu o apoio do presidente do STF, Edson Fachin, da ministra Cármen Lúcia e do ministro aposentado Carlos Ayres Britto para que o painel integrasse o patrimônio do tribunal.
Após a inauguração, Antonio Veronese seguirá para Paris, onde prepara a doação de um novo painel à UNESCO. A obra será instalada em um espaço especial da instituição, ao lado de um painel assinado por Pablo Picasso.
"É um espaço maravilhoso, onde eu expus em 2008. Agora, seria a doação de um painel que será instalado em um espaço especial, ao lado de um painel de Pablo Picasso. É algo que me honra enormemente, e vou me dedicar a fundo a isso."
