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Modelo do Pix desafia domínio financeiro dos EUA, dizem especialistas

Pesquisadores avaliam que sistema brasileiro de pagamentos instantâneos ampliou autonomia financeira e entrou em debate geopolítico

Por Agência Brasil 21/07/2026 11h11 - Atualizado em 21/07/2026 11h11
Modelo do Pix desafia domínio financeiro dos EUA, dizem especialistas
Sistema criado pelo Banco Central brasileiro passou a ser discutido em meio às tensões comerciais com os EUA - Foto: Agência Brasil

O Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, tornou-se alvo do governo dos Estados Unidos por desafiar o controle financeiro de Washington sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos no Brasil. A avaliação é de especialistas em economia e relações internacionais consultados pela Agência Brasil.

A decisão do governo de Donald Trump de incluir o Pix entre as justificativas para o tarifaço de 25% teria, principalmente, origem geopolítica, e não apenas econômica ou motivada pela concorrência com empresas dos EUA, como Visa, MasterCard ou WhatsApp Pay.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, destaca que o ataque ao Pix está diretamente relacionado à perda de poder e controle dos EUA sobre o sistema financeiro brasileiro.

“Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder esse poder que têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com maior soberania e autonomia desse país”, afirmou.

Professor de economia da UFRRJ, Maicon Cláudio da Silva diz que ataque ao Pix tem relação direta com perda de poder dos EUA sobre sistema financeiro do Brasil – Foto: UFRRJ/Divulgação

Silva lembra que o Pix ampliou a bancarização da população brasileira, gerando ganhos econômicos inclusive para empresas dos EUA.

“Movimentos econômicos que antes ocorriam só em dinheiro passaram a ocorrer via sistema financeiro, através do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, eventualmente, também a cartão de crédito”, explicou.

Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões impulsionados pela expansão do Pix, um crescimento de 10,1%, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Perdas econômicas imediatas

Como os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil, o tarifaço tende a prejudicar mais as empresas americanas, observa o professor da UFRRJ. Nesse cenário, interesses econômicos imediatos ficam em segundo plano.

“Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os EUA. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio de sanções e tarifaços, pressionando países a se submeterem aos EUA”, conclui.

Pix como instrumento de poder

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, ressalta que o Pix tornou-se instrumento de poder do Brasil, ampliando a soberania econômica e financeira do país.

Professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona diz que Pix se tornou instrumento de poder do Brasil – Foto: Sindicato dos Bancários da Bahia

“Ao aumentar a autonomia e a soberania do país, o Brasil promove o comércio exterior bilateral com outros países em moedas nacionais, fugindo da arbitragem e da senhoriagem [receita oriunda da emissão de moeda] do dólar”, avalia.

Carmona destaca ainda que o Banco Central mantém acordos de cooperação técnica com 47 países para implementação de sistemas semelhantes ao Pix, o que pode fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre transações financeiras em outras regiões do mundo.

Pix barra sanções

Sistemas nacionais de pagamentos, como o Pix, limitam a aplicação de sanções econômicas dos EUA contra instituições e indivíduos, “diferentemente do que ocorre com sistemas americanos”, explica Ronaldo Carmona.

Isso ocorre porque sistemas de pagamento sediados nos EUA costumam cumprir todas as sanções impostas pela Casa Branca.

Maicon Cláudio da Silva cita como exemplos as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bloqueio a Cuba, casos em que Washington projeta poder sobre países soberanos por meio de bloqueios financeiros.

“O avanço do bloqueio econômico dos EUA contra Cuba levou Visa e Mastercard a deixarem de operar na ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os EUA podem, a qualquer momento, impor sanções econômicas contra países ou indivíduos”, explica.

Europa busca soberania financeira

Em artigo publicado antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, a revista inglesa The Economist afirma que o Pix, assim como iniciativas da União Europeia (UE), ameaça a “supremacia” financeira dos EUA.

“A ascensão de sistemas ‘soberanos’, especialmente na Europa – uma grande fonte dos negócios internacionais da Visa e da Mastercard –, pode corroer suas margens operacionais de mais de 50%”, destaca a revista especializada em finanças globais.

Recentemente, a UE anunciou o Euro Digital, sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, gratuito e público, com previsão de projeto-piloto para 2027.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, admitiu que o objetivo é reduzir a dependência de sistemas estrangeiros.