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Jovem relata agressões físicas e tentativa de afogamento por Dr. Jairinho

Por Agência Brasil 28/05/2026 14h02
Jovem relata agressões físicas e tentativa de afogamento por Dr. Jairinho
Dr. Jairinho é acusado de homicídio qualificado por meio cruel, três torturas contra criança, fraude processual e coação no curso do processo - Foto: Reprodução

A estudante de turismo Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, de 18 anos, prestou depoimento nesta quinta-feira (28) no quarto dia do julgamento do caso Henry Borel, no 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Ela relatou ter sido vítima de agressões físicas praticadas pelo réu, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho.

Kaylane é filha de Natasha de Oliveira Machado, ex-namorada de Jairinho, que responde pela morte do menino Henry Borel, de 4 anos, ocorrida em março de 2021. Segundo a jovem, o relacionamento da mãe com Jairinho começou quando ela tinha 3 anos e durou até os 7 anos de idade. As agressões, conforme relatou, aconteceram do meio para o fim desse período.

Durante o depoimento, Kaylane detalhou episódios de violência física, afirmando que era agredida com socos na cabeça, tinha o braço torcido e era afundada na piscina por Jairinho. “Era tudo junto, ele pegava a minha cabeça, ficava batendo na quina, depois torcia o meu braço, me dava socos na cabeça, ia repetindo e depois eu ia embora para casa”, contou, emocionada.

A pedido de Kaylane, o depoimento foi realizado sem a presença de Jairinho no plenário. Monique Medeiros, mãe de Henry Borel e também ré no processo, acompanhou o depoimento.

A estudante esclareceu que não chegou a morar com o vereador, mas passava períodos com o casal e também sozinha com ele.

Afogamento na piscina

Kaylane relatou que costumava acompanhar a mãe e Jairinho a um local que acredita ser um motel. Ela negou ter sofrido abuso sexual, mas afirmou que era submetida a episódios de afundamento em uma piscina próxima à garagem do local. “Na piscina, ele me afogava com o pé na minha barriga até eu encostar no chão. Ele me soltava, eu subia, respirava um pouco, e ele me afundava de novo”, relatou.

Segundo Kaylane, não ficava com marcas visíveis das agressões. Ela afirmou que sabia que não se tratava de brincadeiras e era orientada por Jairinho a não contar à mãe sobre a violência. “Para ela não ficar triste”, explicou. Em uma ocasião em que machucou o braço, ele pediu que dissesse que a lesão ocorreu em uma aula de jiu-jitsu.

“Disse que eu atrapalhava”

A jovem também revelou que ouvia do réu que ela “atrapalhava” a vida da mãe e do casal. “Ele falava que, se eu não existisse, se fossem só ele e minha mãe, seria muito melhor, que eu atrapalhava. Se eu não existisse, ela poderia viajar. Seria melhor se eu não estivesse ali”, relatou.

A acusação é semelhante ao que consta na investigação policial sobre Henry Borel, que teria perguntado à mãe se ele a atrapalhava.

Kaylane contou que desenvolveu medo de Jairinho antes do fim do relacionamento da mãe. “Sempre que via o carro dele chegando, eu corria e vomitava”, revelou. Ela só contou sobre as agressões à mãe e à avó cerca de um ano após o término, depois de assistir a um programa de TV com um caso parecido. “Eu chorei muito”, disse.

Durante o depoimento, que durou cerca de uma hora, Kaylane afirmou que evitava relembrar a história para não reviver os sofrimentos.

Sentimento de culpa

Ao tomar conhecimento da repercussão do caso Henry, Kaylane disse que sentiu um “gatilho” e chegou a se sentir culpada: “Se eu tivesse revelado antes, não chegaria onde chegou”. O sentimento a motivou a incentivar a mãe a procurar Leniel Borel, pai de Henry, para colaborar com o caso. “É uma forma de evitar que a história se repita com outras pessoas. Ele [Jairinho] pode conhecer outra pessoa com filho e fazer as mesmas coisas”, afirmou.

Depoimento da mãe

Natasha Machado, mãe de Kaylane, também depôs e afirmou que se separou do pai da filha seis meses após o nascimento, tendo Jairinho como primeiro relacionamento após a separação. Ela confirmou que não percebia marcas de lesões na filha e, ao tomar conhecimento das agressões, cortou contato com Jairinho.

Natasha relatou que, em conjunto com a filha, procurou Leniel Borel para relatar os episódios e que o advogado que representa a família no processo contra Jairinho foi indicado pelo pai de Henry. Ela também disse desconfiar que era dopada por Jairinho: em uma ocasião, simulou tomar o comprimido e flagrou o réu erguendo Kaylane da cama durante a madrugada. Questionado, Jairinho alegou que a menina havia acordado.

Natasha afirmou não ter sofrido violência física, mas reconheceu episódios de violência psicológica após o término do relacionamento. “Quando apareceu uma foto minha íntima na rua, ele apareceu dizendo que ninguém mais iria me assumir, que era melhor eu voltar”. Ela acredita que Jairinho foi responsável por espalhar a imagem.

Retorno do advogado

O júri contou nesta quinta-feira com a presença de Fabiano Lopes, defensor de Jairinho, que havia sofrido um infarto no último sábado (23). A ausência do advogado chegou a ser usada pelo réu para tentar adiar o júri. Na entrada do tribunal, Lopes afirmou que precisava estar presente para acompanhar depoimentos de testemunhas que fazem parte de outros processos de agressão contra Jairinho.

Além de Natasha e Kaylane, outra ex-namorada, Débora Mello Saraiva, também deve depor. O filho dela teria sofrido fratura no fêmur em uma agressão atribuída a Jairinho.

Os depoimentos estavam previstos para começar às 9h, mas iniciaram por volta das 10h30 devido a um dos jurados ter passado mal e precisado de atendimento médico.

O caso Henry Borel

De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro e a Polícia Civil, a morte de Henry foi provocada por agressões cometidas por Jairinho, então vereador em seu quinto mandato. Monique Medeiros, mãe da vítima, é acusada de omissão e de ter conhecimento de casos anteriores de agressão.

Inicialmente, Jairinho e Monique tinham o mesmo advogado, mas atualmente cada um conta com equipe de defesa própria. Ao todo, 27 testemunhas de acusação e defesa foram arroladas. A decisão do júri será tomada por sete jurados, e a previsão inicial era de que o julgamento durasse cerca de cinco dias.

Dr. Jairinho é acusado de homicídio qualificado por meio cruel, três torturas contra criança, fraude processual e coação no curso do processo. Monique responde por sete crimes, incluindo homicídio, coação no curso do processo, tortura e fraude processual.