Nacional
Denúncias de violência contra menores crescem 31% no Nordeste
Levantamento aponta avanço dos registros e expõe vulnerabilidades; Alagoas tem 120 casos por 100 mil habitantes
O número de denúncias de violência contra crianças e adolescentes aumentou 31% no Nordeste nos últimos três anos. Dados da Agência Tatu, com base no Disque 100, apontam 822.045 registros entre 2023 e 2025.
Em 2025, o Rio Grande do Norte liderou as estatísticas regionais, com 140 denúncias por 100 mil habitantes. Na sequência aparecem Paraíba (127) e Sergipe (125). Alagoas registra 120 denúncias por 100 mil habitantes, ocupando a quinta posição entre os estados nordestinos.
Os dados diferenciam denúncias de violações. Uma única denúncia pode reunir múltiplos episódios de violência, como agressões físicas, psicológicas, negligência, exploração e restrição de direitos.
Violência ocorre, em maioria, dentro de casa
O levantamento indica que a maior parte das violações acontece dentro da própria residência, onde vítima e agressor convivem. Entre os registros, ataques à integridade física e psíquica lideram os casos.
“O aumento das denúncias ao Disque 100 no Nordeste reflete tanto o fortalecimento da cultura da denúncia e da conscientização social quanto o agravamento de vulnerabilidades que expõem crianças e adolescentes a situações de violência. Mais do que números, esses dados refletem a necessidade de qualificar a prevenção, o atendimento e a proteção integral”, afirma.
Segundo a análise, há um padrão recorrente de polivitimização, em que a mesma vítima sofre diferentes tipos de violência simultaneamente. “Os dados revelam um padrão de polivitimização, ou seja, a mesma criança ou adolescente costuma sofrer múltiplas formas de violência simultaneamente (violência física, psicológica, sexual, negligência, exploração ou violações institucionais). Isso indica que os casos que chegam aos canais oficiais, em regra, já são os mais graves, marcados por violações contínuas e em estágio avançado”.
A residência se consolida como o principal cenário desses casos devido às relações de dependência e poder. “A residência se consolida como o principal cenário de violência porque é onde a criança está inserida em relações de confiança, dependência e forte assimetria de poder. A ideia ainda presente de que a dinâmica familiar pertence ao âmbito privado dificulta a denúncia e retarda a intervenção estatal, permitindo que práticas violentas sejam naturalizadas. Além disso, a violência doméstica costuma ser crônica, repetitiva e invisibilizada no cotidiano, o que faz com que os casos só cheguem aos canais oficiais quando já envolvem múltiplas e graves violações de direitos”, afirma.
Combate exige ações integradas
Especialistas apontam que o enfrentamento da violência contra menores exige políticas públicas articuladas e contínuas. “O enfrentamento eficaz da violência contra crianças e adolescentes exige políticas públicas integradas e contínuas, orientadas pelo princípio da proteção integral. Isso envolve ações de prevenção e fortalecimento das famílias, identificação precoce das situações de risco, articulação efetiva da rede intersetorial de proteção, atendimento especializado e humanizado às vítimas, além da responsabilização dos agressores e da produção qualificada de dados. Trata-se de uma resposta estrutural, que ultrapassa ações pontuais e demanda atuação coordenada do Estado e da sociedade.”
Canais de denúncia
A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos disponibiliza diferentes canais para o registro de denúncias, que podem ser feitas de forma anônima ou identificada. O serviço funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados.
Além do Disque 100, é possível denunciar por meio do site oficial, WhatsApp e Telegram. O órgão também oferece atendimento acessível em Libras e gera protocolo para acompanhamento de cada caso.
Para Mariana Sampaio, o crescimento dos índices reflete tanto o aumento das denúncias quanto o agravamento das violências. “O crescimento dos índices evidencia um tanto o aumento no hábito de reportar as ocorrências e, simultaneamente, a intensificação das violências que vitimizam a juventude”, afirmou.
*Com informações da Agência Tatu


