Nacional
Aluno tira zero na redação da Fuvest por excesso de “palavras difíceis” e processa USP
Luiz Henrique Etechebere Bessa usou expressões como “perpassa em altivez” e “grandiloquência condoreira”; professores ouvidos pelo g1 concordaram com a desclassificação
Um candidato ao curso de Direito na Universidade de São Paulo (USP) entrou na Justiça após receber nota zero na redação da segunda fase da Fuvest 2026. Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, foi desclassificado do processo seletivo e, por meio de mandado de segurança, pede que a instituição justifique a avaliação.
O texto do jovem começa com a frase: “Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.” Em outros trechos, ele cita Ferdinand de Saussure, Pierre Bourdieu, Michael Sandel e Djaimilia de Almeida, com construções como “sobrepuja-se a subjetividade” e “é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia”.
“Recebi um e-mail genérico quando perguntei qual o motivo da eliminação. Juntamente à minha mãe, que é advogada, entrei com pedido de mandado de segurança. Ainda estou aguardando uma resposta do reitor da USP. Só queria entender minha nota”, disse ao g1.
O que diz a Fuvest
A organização do vestibular afirmou que o candidato foi eliminado porque o texto não abordou o tema proposto: “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. Segundo a nota, “não há indícios suficientes que demonstrem essa compreensão [do tema] e desenvolvimento (...) o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual”.
A Fuvest informou ainda que o texto passou por mais de três avaliações cegas e que, por já haver uma banca com até quatro corretores, não é possível pedir revisão da nota.
Professores avaliam redação
O g1 enviou o texto a três professores de cursinhos pré-vestibulares, que concordaram com a atribuição da nota zero. Para Marina Rocha, do Curso Skued e do Curso Raio-X, “o aluno elabora construções sintáticas extremamente confusas devido ao alto teor de formalidade. Essas estruturas comprometem a compreensão do texto, o que é um grave problema em termos de vestibular”.
Sérgio Paganim, coordenador de Redação do Curso Anglo, aponta três problemas principais:
Falta de conexão das ideias com o tema: o texto se torna “uma colagem de pensadores e conceitos” sem posicionamento claro sobre o perdão limitado ou condicionado.
Estrutura pouco clara: a linguagem dificulta a identificação de tese e argumentos.
Excesso de citações: o texto revela mais preocupação em demonstrar erudição do que em construir uma reflexão autoral.
Thiago Braga, autor e professor do Colégio e Sistema pH, também avalia que o excesso de erudição prejudicou o aluno. “As referências ficam empilhadas e não são utilizadas com o intuito de formular uma argumentação que responda à proposição temática. Elas mais ornamentam o texto do que sustentam uma tese”, afirmou.
O que diz o candidato
Luiz afirmou que sempre teve “estilo de escrita com vocabulário não tão usual” e que nunca havia recebido críticas sobre rebuscamento. “As dissertações argumentativas dos candidatos ao curso de Direito sempre se destacam, em especial no processo de vestibular da USP, por serem textos densos em termos de conteúdo e de vocabulário. Sei que meu texto tinha inconsistências e que eu poderia ter me aprofundado mais, mas não recebi até agora a justificativa da anulação da redação.”
Ele fez posts no X relatando o caso, mas deletou tudo após receber centenas de comentários com críticas e piadas em relação ao léxico usado. A ação judicial ainda aguarda resposta da universidade.


