Municípios
Oncologia do HU da Ufal amplia serviços e reduz tempo de espera no SUS
Hospital atende pacientes dos 102 municípios alagoanos e recebe encaminhados de estados sem serviço próprio
Com cerca de 5 mil novos casos de câncer estimados por ano em Alagoas, a ampliação da assistência especializada se tornou um dos desafios da rede pública de saúde. No Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA-UFAL), mudanças na estrutura, na tecnologia e na organização dos serviços têm ampliado o atendimento oncológico e reduzido o tempo de espera dos pacientes.
Vinculado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e integrante da rede HU Brasil, o HUPAA é um dos dois Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) habilitados no estado. A unidade recebe pacientes dos 102 municípios alagoanos e passou por uma reorganização assistencial e física nos últimos anos.
Entre as mudanças está a ampliação do atendimento de urgência para pacientes oncológicos. O antigo serviço funcionava somente até as 19h, o que deixava pessoas em tratamento sem assistência especializada durante a noite em situações de intercorrência.
O hospital passou a contar com um Pronto Atendimento Oncológico 24 horas, acompanhado por uma estrutura de retaguarda com plantões de cirurgia, diagnóstico por imagem e laboratório.
“No passado, houve caso de o paciente voltar para casa com recomendação de vir no dia seguinte, e ele falecer em casa. Hoje, tem 24 horas funcionando muito bem, não somente com pronto atendimento. Tem uma retaguarda, plantão de cirurgia, plantão de diagnóstico por imagem, plantão laboratorial, para necessidades desses pacientes. É uma grande evolução, fruto do aumento de quase 50% dos trabalhadores da HU Brasil, desde 2023”, relata o superintendente do HUPAA, Célio Rodrigues.
TECNOLOGIA NO TRATAMENTO
A estrutura também ganhou reforço tecnológico. Em 2025, a Oncologia do HU da Ufal contabilizou 9.692 procedimentos de quimioterapia e 943 de radioterapia.
Na radioterapia, um dos principais avanços foi a instalação de um novo acelerador linear, inaugurado em 2022. O equipamento substituiu uma tecnologia considerada obsoleta e permite a realização de radiocirurgias com precisão milimétrica, buscando atingir o tumor e preservar os tecidos saudáveis ao redor da lesão.
Para receber o aparelho, foi construído um bunker no pavimento térreo do setor de oncologia. As paredes chegam a sete metros de espessura de concreto, estrutura destinada à contenção da radiação.
A modernização também ampliou a capacidade de atendimento do hospital para além da própria demanda. O serviço passou a atuar em cooperação com a rede pública estadual, recebendo pacientes encaminhados pelo Hospital Metropolitano de Alagoas para sessões de radioterapia.
O atendimento alcança ainda pacientes de outros estados. Roraima, que não possui serviço próprio de radioterapia, já encaminhou paciente para tratamento no hospital universitário.
CONTROLE DE INSUMOS
Para evitar que procedimentos sejam interrompidos por falta de materiais ou medicamentos, o HUPAA implantou um sistema de acompanhamento contínuo dos estoques de farmácias e almoxarifados.
Mais de 80 mil itens são rastreados pelo sistema, permitindo acompanhar a necessidade de reposição e planejar as compras. Segundo a gestão, a medida contribuiu para reduzir as suspensões cirúrgicas causadas pela falta de insumos para menos de 1%.
O hospital também foi responsável pelo desenvolvimento da carga de insumos e medicamentos correlatos utilizada pela rede HU Brasil em todo o país. Outra marca da instituição é a implantação de 100% dos módulos do sistema de prontuário eletrônico.
MAIS SALAS PARA CIRURGIAS
A expansão chegou também ao centro cirúrgico. O número de salas em funcionamento passou de quatro, em 2020, para oito atualmente.
A mastologia, voltada principalmente ao tratamento do câncer de mama, concentra parte importante dos procedimentos. A assistência também envolve casos de câncer de próstata, bexiga, rim, cabeça e pescoço, colo e tumores gastrointestinais.
O atendimento é articulado entre diferentes áreas médicas. Segundo o superintendente, 52 especialidades médicas trabalham em conjunto com os cirurgiões oncológicos para atender os pacientes.
O aumento da capacidade busca reduzir a demanda reprimida e evitar que o avanço da doença prolongue ainda mais a espera por uma intervenção.
“No passado, tinha cirurgiões que operavam a cada 15 dias, mas por falta de sala de cirurgia. E estamos providenciando mais expansões para haver suporte de retaguarda para mais cirurgias. Queremos avançar para cirurgias noturnas e aos sábados. Isso agiliza, faz com que o paciente espere menos e que a sua doença não se agrave”, relatou Célio Rodrigues.
A assistência não termina na sala de cirurgia. A enfermagem reúne cerca de 780 profissionais, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares, responsáveis pelo acompanhamento dos pacientes e pela aplicação dos medicamentos.
ATENDIMENTO ALÉM DA DOENÇA
A proposta de cuidado do hospital também envolve profissionais de diferentes áreas. Psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e dentistas integram a assistência aos pacientes oncológicos.
O atendimento odontológico, por exemplo, busca prevenir complicações infecciosas relacionadas à saúde bucal durante a internação.
Para Célio Rodrigues, o tratamento precisa considerar o paciente para além da doença que o levou ao hospital. Professor de anatomia ainda em atividade, ele resume a ideia a partir de um princípio que leva para as aulas:
“o paciente não é um órgão, mas é uma pessoa que precisa ser entendido como um todo”.
A instituição também mantém atenção específica a pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo populações indígenas e comunidades quilombolas. Um dos exemplos é o acompanhamento dermatológico especializado de quilombolas albinos de Santana do Mundaú diagnosticados com câncer de pele.
ACOLHIMENTO E HUMANIZAÇÃO
As ações de humanização fazem parte da rotina do Centro de Oncologia. Durante campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul, o espaço recebe apresentações musicais, oficinas de maquiagem e atividades que permitem aos próprios pacientes compartilhar experiências.
Em uma dessas ocasiões, uma jovem contou ao superintendente que acompanhava a mãe, em tratamento contra o câncer de pulmão, havia vários anos. Segundo Célio, ela agradeceu à equipe pelo tempo de vida que o atendimento havia ajudado a proporcionar à mãe.
Em outro evento, inicialmente organizado para que médicos falassem sobre a doença, os próprios pacientes tomaram o microfone para agradecer publicamente aos profissionais pelo atendimento recebido.
A humanização também aparece em projetos de extensão universitária, como o Sorriso de Plantão. A iniciativa leva estudantes caracterizados para os leitos, utilizando arte, interação e escuta como parte do acolhimento.
Célio Rodrigues relembra a história de um paciente idoso que estava em cuidados paliativos por causa de um câncer avançado. Segundo ele, o homem inicialmente evitava conversar com os profissionais, mas mudou de comportamento após o contato frequente com os estudantes do projeto.
“Era um senhor muito ranzinza, não aceitava conversa com ninguém, tinha câncer e estava em cuidados paliativos. Com o passar do tempo, deixou de ser uma pessoa amargurada e passou a esperar todo final de semana que os meninos do Sorriso de Plantão fossem visitá-lo. Passou a ser uma pessoa alegre, e disse que nunca se sentiu tão amado, tão acolhido. Ele morreu com câncer, mas morreu com um amor que ele nunca tinha sentido”, lembrou o superintendente.
