Internacional
'Decisão ideológica': Milei privatiza empresa de água de Buenos Aires
A medida faz parte de um plano mais amplo de privatização de ativos estratégicos
O governo argentino concluiu a venda de 90% da AySA, empresa responsável pelo abastecimento de água para 14 milhões de pessoas na Grande Buenos Aires, por US$ 340,2 milhões (R$ 1,7 bilhão). A medida faz parte de um plano mais amplo de privatização de ativos estratégicos, incluindo hidrelétricas, ferrovias de carga e parte do setor nuclear, visando reforçar as reservas internacionais em um ano eleitoral.
O presidente Javier Milei segue com seu programa de privatizações aceleradas. A AySA, maior empresa de saneamento da Argentina, teve a maioria de suas ações adquiridas por um consórcio formado por investidores internacionais, empresários locais e uma operadora brasileira de saneamento (controlada pela Equipav), que assumirá a gestão técnica. O sócio majoritário do grupo, com 55% de participação, é um veículo de investimento registrado em Londres pouco antes da apresentação das propostas.
O valor arrecadado ficou abaixo da expectativa inicial do governo, que estimava cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) com a venda. Embora 17 empresas tenham demonstrado interesse, apenas dois consórcios argentinos apresentaram propostas formais. A operação marca o retorno da AySA à iniciativa privada após 20 anos de reestatização pelo ex-presidente Néstor Kirchner, que havia rescindido o contrato anterior devido a descumprimento de investimentos.
Privatizações avançam sobre energia e transportes
O governo prepara novas privatizações: em 11 de novembro, serão abertas propostas para três linhas ferroviárias de carga, essenciais para o transporte de grãos, minerais e insumos da região de Vaca Muerta. Em dezembro, vencem as concessões de quatro hidrelétricas nas províncias de Mendoza, Chubut e Santiago del Estero.
Para 2027, está prevista a venda de 44% da Nucleoeléctrica Argentina, operadora das três usinas nucleares do país, além de duas termelétricas da Energía Argentina. O objetivo é arrecadar cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões) até o fim do mandato de Milei, cobrindo compromissos da dívida externa em um período de volatilidade eleitoral.
'Não é uma decisão econômica, é ideológica'
Especialistas apontam que a venda da AySA não se justifica por questões financeiras. Segundo o historiador Alejandro Olmos Gaona, a empresa deixou de ser deficitária após reajustes tarifários recentes. "O argumento é ideológico: abrir espaço para o setor privado, independentemente da situação econômica da empresa", afirmou à Sputnik.
Olmos Gaona alerta que a privatização pode impactar diretamente a população, já que o Estado deixará de ter responsabilidade direta sobre um serviço essencial, e as tarifas poderão ser reajustadas com maior liberdade por agentes privados.
O deputado nacional Pablo Yedlin (Unión por la Patria) também criticou o processo, classificando-o como descontrolado e prejudicial a setores estratégicos. Ele questionou ainda a intenção de privatizar parte da Nucleoeléctrica, considerando a medida contraditória com o discurso de soberania do governo, especialmente em relação às Malvinas.
Venda de ativos busca garantir dólares para a dívida
Há consenso entre analistas de que o objetivo central é reforçar as reservas em moeda estrangeira para enfrentar compromissos bilionários da dívida em 2027. Moisés Solorza, ex-secretário de Energia de Tierra del Fuego, afirmou que o governo precisa urgentemente captar divisas para pagar vencimentos que ultrapassam US$ 20 bilhões (R$ 100,5 bilhões), conforme recomendação do FMI.
Solorza manifestou preocupação com a segurança energética do país, especialmente no setor nuclear, sob gestão privada. Já Olmos Gaona lembrou que futuras mudanças políticas podem reverter as privatizações: "Uma lei pode ser revogada por outra sem nenhum problema. Não existem normas jurídicas imutáveis. O que hoje é válido pode mudar no futuro", concluiu.
Por Sputnik Brasil

