Internacional

Colapso político na França revela crise mais ampla na Europa

Um dos principais catalisadores da crise na Europa, inclusive nas maiores economias como França e Alemanha, é o aumento do custo da energia em função das sanções à Rússia

Por Sputnik Brasil 06/10/2026 09h09
Colapso político na França revela crise mais ampla na Europa
Foto: © AP Photo / Markus Schreiber

Greves e protestos tomam conta da França em meio a uma dívida pública de 119% do PIB e instabilidade política, enquanto o país mantém apoio militar à Ucrânia. Paralelamente, outros países europeus enfrentam crises e defendem posições divergentes na política regional.

A situação francesa reflete a crise do próprio bloco europeu, conforme explica Pedro Martins, doutorando em Relações Internacionais pela UERJ. Nesse contexto, o presidente Emmanuel Macron busca exercer liderança entre os países da zona do euro, mas enfrenta dificuldades diante da falta de coesão política na União Europeia (UE).

"Quando a [Angela] Merkel sai, a UE não consegue colocar um líder à altura para conseguir fazer esse tipo de coordenação política. A crise econômica também acaba dificultando. E o Macron tenta assumir essa coisa de liderança europeia e não consegue porque a Europa está dividida, internamente a Europa, e não está conseguindo mais se entender e nem mais coordenar posições", analisa.

O pesquisador ressalta ainda que a política externa se tornou um mecanismo crucial para Macron, que tenta utilizar vitórias internacionais para projetar força junto ao público interno e contornar impasses domésticos.

"A negociação, a política, deixa de ser qual é o projeto melhor para a França e passa a ser: manter a estabilidade de um determinado regime político na França. Então, ele [Macron] tenta usar o sucesso exterior para criar uma imagem de força internamente, só que ele está em um contexto regional muito complicado e tenta jogar em dois cenários ao mesmo tempo, só que cada um dos cenários vai se enfraquecendo", comenta.

Crise social e econômica europeia passa pela energia

Um dos principais catalisadores da crise na Europa, inclusive nas maiores economias como França e Alemanha, é o aumento do custo da energia em função das sanções à Rússia. Segundo Pedro Martins, a situação evidencia a vulnerabilidade do continente, que permanece dependente dos recursos energéticos russos.

"Durante muito tempo, a UE viveu um equilíbrio entre dois polos. Havia o compromisso de segurança com os EUA e uma interdependência econômica muito grande com a Rússia, que permitia que esses países conseguissem manter os Estados de bem-estar social porque se tinha acesso à energia barata, como petróleo e gás. Com isso, se conseguia controlar a inflação, baratear e exportar seus produtos, inclusive para a Rússia, de novo, a interdependência econômica", destaca.

O analista observa que, embora a energia nuclear seja a base da matriz elétrica francesa, o país ainda não dispõe de alternativas sólidas para substituir os combustíveis fósseis necessários no cotidiano da população.

"A energia elétrica da França é nuclear, mas o combustível, que é usado no frete, no transporte marítimo, nos caminhões, enfim, no dia a dia dos franceses, é o petróleo, e se o seu preço sobe, o preço do combustível sobe muito. E isso gera um efeito inflacionário na cadeia. Enquanto a situação do preço do petróleo internacional continuar muito alta, vai haver esse tipo de problema", observa.

G7 libera reservas de petróleo e acende alerta

Outro ponto destacado por Pedro Martins é a recente liberação de reservas estratégicas de petróleo pelo G7, grupo formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Para o especialista, a medida revela a gravidade da crise energética, mas está longe de ser uma solução definitiva.

"Quando o G7 solta o petróleo, está tentando forçar uma queda no preço do petróleo para manter a inflação sob controle. Então, isso é uma forma de tentar manter a estabilidade econômica. O problema é que a reserva um dia acaba. Eles não podem ficar liberando reserva porque uma hora isso vai acabar. Isso é um problema econômico, ecológico e político e pode se transformar num problema político social", conclui.

Em um mundo cada vez mais globalizado e de economias interdependentes, é inevitável que a turbulência de um país impacte outras nações, especialmente as mais próximas geograficamente. Nesse cenário de interconexão, a política regional é a primeira a sentir os efeitos, como se observa hoje na França dentro do contexto europeu.