Internacional

'Comeram mosca': Europa tenta recuperar espaço na disputa pelo Ártico

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil analisam como o avanço de Estados Unidos, Rússia e China sobre rotas, minerais e energia pressiona a União Europeia

Por Sputnik Brasil 01/10/2026 14h02
'Comeram mosca': Europa tenta recuperar espaço na disputa pelo Ártico
Doze países europeus se reuniram na Finlândia e defenderam que a União Europeia (UE) amplie sua atuação na região - Foto: © AP Photo / David Goldman

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil analisam como o avanço de Estados Unidos, Rússia e China sobre rotas, minerais e energia pressiona a União Europeia a reforçar sua presença no Ártico.

Doze países europeus se reuniram na Finlândia e defenderam que a União Europeia (UE) amplie sua atuação na região, cuja importância geopolítica cresce diante do degelo e das pressões dos EUA sobre a Groenlândia.

"Conclamamos a União Europeia a desempenhar um papel mais estratégico e proativo no Ártico europeu", afirmaram os líderes em declaração conjunta após cúpula em Rovaniemi. Participaram do encontro Dinamarca, Alemanha, Estônia, França, Letônia, Lituânia, Romênia, entre outros países e representantes da União Europeia.

Apesar de medidas adotadas em 2021 para reforçar a segurança ártica — como investimentos em quebra-gelos e equipamentos —, os países europeus ainda se veem "espremidos" na disputa por novas rotas e recursos naturais que surgem com o degelo do polo.

Foco passou de 'pesquisa' para 'estratégico'

Antes visto principalmente como área de pesquisa científica e ambiental — com destaque para sua biodiversidade adaptada às condições extremas e papel no equilíbrio climático global —, o Ártico tornou-se ainda mais cobiçado.

Carolina Pavese, especialista em Europa, consultora e professora, explica à Sputnik Brasil que o Ártico concentra rotas marítimas essenciais para o transporte de energia, além de reservas de petróleo e minerais críticos, cada vez mais relevantes para as economias, inovação tecnológica e indústria de defesa.

"Quem conseguir garantir acesso a esses recursos primeiro leva muita vantagem", afirma. Segundo ela, a importância desses recursos tende a crescer com o avanço da inovação tecnológica e da demanda da indústria de defesa.

Além disso, os conflitos no Oriente Médio e as turbulências nos estreitos de Ormuz e Bab al-Mandeb aumentaram a relevância global das rotas logísticas árticas, ao abrir novas possibilidades de circulação marítima.

"A exploração desses recursos se deve principalmente às mudanças climáticas e ao degelo, que abrem novas rotas marítimas, sobretudo entre Ásia e Europa." Nesse cenário, a própria Groenlândia se insere em uma disputa mais ampla pelo Ártico, como forma de "marcar presença" na região.

Presença no Ártico

Pavese ressalta que o alerta da União Europeia ocorre após anos de "política muito branda" sobre sua participação no Ártico. Isso se reflete na classificação da região como "geopolitical hotspot" pela alta representante da UE para Política Externa e Segurança, Kaja Kallas.

Em contraste, a Rússia mantém presença histórica no extremo norte, região estratégica para o transporte de commodities.

"Eles comeram um pouco de mosca esse tempo e agora estão, já que essa região passou a ganhar tanta atenção nessa agenda das relações internacionais, tentando correr um pouco atrás do prejuízo."

Segundo Pavese, a declaração conjunta representa uma tentativa de chamar a atenção de Bruxelas para a necessidade de atuação mais efetiva na região.

A especialista cita ainda acordo firmado pela UE com a Groenlândia, via programa Global Gateway, destinando € 200 milhões para o desenvolvimento regional em áreas como minerais críticos, energia e pesca. "Isso mostra uma guinada na orientação da União Europeia."

Enquanto os Estados Unidos buscam conter Rússia e China no Ártico, a especialista observa que o interesse pela Groenlândia também se relaciona ao perfil do ex-presidente Donald Trump.

"Vem também nessa ideia de ampliar a sua influência e a sua zona de controle territorial num sentido bem geográfico, físico, e que é uma característica do governo de Trump", explica, lembrando a ambição do republicano de converter o território no 51º estado do país.

Entre agenda ambiental e necessidade de recursos

Letícia da Luz, mestranda em estudos marítimos da Escola de Guerra Naval (EGN), destaca que a política ambiental da União Europeia entra em contradição com o interesse crescente pelos recursos naturais do Ártico. Embora o bloco defenda políticas de proteção ambiental e exploração sustentável, sua transição energética depende de minerais críticos e terras raras presentes na região.

"Acaba sendo um pouco contraditória a política europeia para essa questão ambiental."

Para ela, a necessidade desses insumos exige conciliação entre questões ambientais e interesses econômicos e estratégicos europeus. A exploração, porém, envolve riscos ambientais elevados: um eventual derramamento de petróleo ou acidente com embarcação pode ter consequências graves em uma região com pouca infraestrutura e expectativa de aumento do tráfego marítimo.

Acima de tudo, as preocupações são militares. "O primeiro objetivo é o militar e o segundo são os recursos energéticos", aponta Luz, argumentando que proteger reservas e rotas de transporte justifica presença militar maior no Ártico.

Nesse contexto, a entrada de Finlândia e Suécia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ampliou a presença da aliança no Ártico. Dos oito países que integram o Conselho do Ártico, principal fórum de discussão sobre a região, sete também fazem parte da organização.