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Assédio dos EUA leva Canadá a buscar novas alianças, aponta especialista

Por Sputnik Brasil 01/09/2026 11h11
Assédio dos EUA leva Canadá a buscar novas alianças, aponta especialista
Foto: © AP Photo/Evan Vucci

A tensão comercial entre Washington e Ottawa evoluiu de uma disputa tarifária para uma ofensiva mais agressiva sobre a soberania e a identidade do Canadá. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto para rebatizar o lago Ontário como 'lago América', acirrando ainda mais as relações entre os países vizinhos.

Diante desse cenário, o Canadá é pressionado a diversificar seus mercados e reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos. A avaliação é de Denilde Oliveira Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, em entrevista à Sputnik Brasil.

"A gente vê dois níveis [de análise]: Trump vai continuar fazendo ameaças e tentando usar estratégias de pressão, e o outro é a negociação de fato que vai ocorrer do ponto de vista mais técnico. Então, acho que essa vai ser a lógica desse processo, e a tendência é o Canadá buscar outros parceiros e tentar se afastar ainda mais dos EUA", afirmou Holzhacker.

Apesar da necessidade de diversificação, a especialista ressalta que o processo será de longo prazo, devido à forte dependência estrutural do Canadá em relação à economia americana. Ainda assim, ela considera essa estratégia inevitável.

"O Canadá entra em uma fase mais difícil, porque outros países já tinham feito a diversificação, e o Canadá vai começar agora a fazer sua diversificação. Então, eles já começaram e tiveram um efeito positivo, ampliaram os números de parceiros, mas ainda têm uma dependência que é muito grande dos Estados Unidos", comenta.

Ações dos EUA acentuam o nacionalismo canadense

Holzhacker destaca ainda que as tentativas da Casa Branca de interferir na soberania e na identidade cultural do Canadá, como as pressões para restringir a língua francesa, acabam reacendendo o nacionalismo entre os canadenses.

"[Essa situação] tem gerado um alto nacionalismo canadense devido a uma ameaça constante à soberania, Trump vem dizendo que vai anexar e que vai transformar o Canadá em um país, um Estado americano. O outro [ponto de tensão] é colocar em xeque um dos pontos mais importantes da cultura canadense, que é ser bilíngue", destaca.

A analista lembra ainda que as investidas dos Estados Unidos contra o Canadá começaram ainda durante o governo de Justin Trudeau. Nesse contexto, a ascensão política de Mark Carney é vista como sinal de resistência da opinião pública canadense ao assédio da Casa Branca.

"No final do governo Trudeau, a posição americana passou a ser mais agressiva, porque também os Estados Unidos nunca tinham colocado aqui uma anexação do Canadá. Então a reação começou a ser uma reação de mais de confrontação, mesmo assim, tentando estabelecer canais de negociação [entre os países]", observa.

'Amizade' histórica entre os vizinhos está no passado

De acordo com Holzhacker, até pouco tempo atrás seria impensável prever tamanha deterioração nas relações bilaterais, considerando a histórica integração política, econômica e social entre Estados Unidos e Canadá.

"Se a gente pensar em termos do que foi a globalização, o Canadá e os Estados Unidos eram a expressão dessa maior integração e de como, para além do comércio, como as políticas eram feitas bastante em conjunto. Muitos até falavam que era quase a extensão americana", conclui.

A crescente imprevisibilidade da política interna dos Estados Unidos tem provocado tensão entre parceiros tradicionais, como o Canadá, que agora buscam mitigar sua dependência da influência americana. No longo prazo, esse distanciamento pode indicar o início de uma profunda reconfiguração nas relações bilaterais e na arquitetura de poder entre antigos aliados e a Casa Branca.