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Violência cresce no Uruguai e governo Orsi é criticado por falta de ações

Apesar do aumento da violência, o especialista não considera que o país viva uma crise absoluta de segurança, como ocorre em Equador, Peru ou Paraguai

Por Sputnik Brasil 11/08/2026 14h02
Violência cresce no Uruguai e governo Orsi é criticado por falta de ações
Apesar do aumento da violência, o especialista não considera que o país viva uma crise absoluta de segurança, como ocorre em Equador, Peru ou Paraguai - Foto: © AP Photo / Matilde Campodonico

O Uruguai registrou 195 homicídios no primeiro semestre de 2026, o maior número para o período nos últimos oito anos, segundo dados do governo. Diante do aumento da violência, a gestão do presidente Yamandú Orsi iniciou medidas para enfrentar o problema, mas ainda sem resultados expressivos, tornando-se alvo de críticas da oposição.

Com pouco mais de três milhões de habitantes e reconhecido por políticas progressistas, o Uruguai sempre foi visto como um exemplo de segurança pública na América do Sul. No entanto, números recentes do Ministério do Interior acenderam o sinal de alerta: houve crescimento de 6,6% nos homicídios no primeiro semestre deste ano, sendo que três em cada quatro assassinatos foram cometidos com arma de fogo.

Na região metropolitana de Montevidéu, onde vive a maior parte da população, a polícia identificou que mais de 70% das mortes tiveram relação com acertos de contas ligados ao tráfico de drogas. O cenário levou o governo a revisar suas estratégias de segurança. O professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, João Estevam, destacou em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a expansão da violência também alcança o interior do país.

"Isso tudo ocorre, obviamente, com o aumento da atividade do narcotráfico no Uruguai. Há um processo de crescimento da violência que não é recente e está ligado à reestruturação do crime organizado na América Latina, com uma lenta inserção do país na chamada economia do crime. Por isso, o aumento dos homicídios está relacionado à atuação das facções", explica.

Segundo Estevam, o Uruguai era visto, até pouco tempo, como país consumidor de drogas como a cocaína, em menor escala que Estados Unidos e Europa. Nos últimos anos, porém, a posição estratégica no Atlântico Sul passou a atrair facções devido à importância logística. "O Uruguai tem se inserido como país de trânsito relevante. Isso está vinculado à reorganização do narcotráfico", avalia.

Apesar do aumento da violência, o especialista não considera que o país viva uma crise absoluta de segurança, como ocorre em Equador, Peru ou Paraguai. O maior desafio, afirma, é conter a expansão das facções criminosas locais, conhecidas como gangues. "Não se observa um quadro semelhante ao de outras regiões, que exigiria medidas drásticas ou emergência social", ressalta.

Para enfrentar o problema, Estevam defende maior cooperação entre países da América do Sul e integração das inteligências policiais, tanto no compartilhamento de informações como em operações conjuntas.

"Estamos falando de atores extremamente vinculados, fora do alcance do Estado. É um processo antigo de transnacionalização e regionalização do narcotráfico, não só no Uruguai, mas em toda a região. O financiamento dessas redes, aliás, se concentra no Norte Global, com contas em paraísos fiscais e políticas de regulamentação financeira", acrescenta.

Como o governo Yamandú enfrenta a violência no Uruguai?

O historiador e pesquisador Daniel Osowicki, especializado em relações internacionais e geopolítica, ressalta ao podcast Mundioka que as medidas do governo Orsi não se mostraram eficazes. Pesquisas indicam que 46% da população desaprova a gestão, ante 29% de aprovação.

Osowicki cita o assassinato recente de uma criança de 12 anos, vítima de acerto de contas entre famílias ligadas ao tráfico, como símbolo da crise. O governo ampliou operações em áreas dominadas por facções e tomou a medida mais polêmica: o uso do Exército em regiões críticas.

"Não houve uma grande reestruturação no combate ao narcotráfico. O ministro do Interior, responsável pela política de segurança, também é fortemente questionado pela falta de resultados", aponta.

Entre as ações mais criticadas está a mobilização de unidades das Forças Armadas, com veículos blindados, para patrulhar bairros considerados críticos. A decisão reacendeu o debate sobre o papel do Exército em operações de segurança pública.

"Acredito que foi uma medida para demonstrar ação. Foi tomada rapidamente, sem treinamento adequado. No primeiro dia, um dos carros do Exército apresentou problemas mecânicos. Tudo isso serviu de combustível para críticas da oposição", analisa.

Para Osowicki, apesar da tentativa do governo em demonstrar presença do Estado nas áreas mais afetadas, as medidas não representam uma solução para o avanço da violência.

"O Uruguai não fez nada realmente sério para combater o problema, mesmo sendo um país de apenas três milhões de habitantes, onde seria teoricamente mais fácil enfrentar desafios. Não é uma questão de direita ou esquerda, mas de consciência política coletiva sobre a gravidade da situação", conclui.