Internacional
China aposta na Rota da Seda de Gelo e transforma Ártico em novo corredor logístico
A empresa chinesa Sea Legend vai inaugurar o primeiro serviço regular de contêineres pelo Ártico, reduzindo pela metade o tempo de viagem entre China e Reino Unido. O avanço ocorre em meio ao derretimento acelerado do gelo e à busca por rotas alternativas diante de tensões no mar Vermelho, atraindo o interesse global pelas rotas polares, apesar dos crescentes riscos ambientais e operacionais.
Segundo a mídia britânica, o Ártico ganha destaque como alternativa estratégica entre Europa e Ásia, impulsionado tanto pelo recuo do gelo quanto pela necessidade de evitar gargalos marítimos tradicionais. Nesse contexto, a Sea Legend conectará Ningbo, na China, a Felixstowe, no Reino Unido, por meio da chamada "Rota da Seda de Gelo".
A nova rota promete cortar pela metade o trajeto convencional de aproximadamente 40 dias, aproveitando o aumento do tráfego na Rota Marítima do Norte, que registrou 23 passagens no último verão do Hemisfério Norte. Nessa época, o gelo marinho recua o suficiente para permitir a navegação sem necessidade de quebra-gelos, ampliando o interesse comercial na região.
A escolha pelo Ártico também reflete as recentes tensões no mar Vermelho, onde ataques de grupos houthis elevaram os riscos e pressionaram o preço do petróleo. Para empresas de navegação, a rota polar surge como alternativa para evitar zonas de conflito e reduzir custos, conforme apontam especialistas em riscos marítimos consultados pela reportagem.
Controlada pela estatal russa Rosatom, a Rota Marítima do Norte exige permissões específicas e segue normas que variam conforme as condições do gelo. Apesar do potencial logístico, grandes empresas europeias ainda evitam a rota, especialmente devido à relação com a Rússia em meio ao conflito na Ucrânia.
O avanço da navegação ocorre em meio ao declínio recorde do gelo ártico, que registrou a maior redução anual já medida. Especialistas alertam para os riscos de segurança decorrentes do aquecimento global, sobretudo diante do aumento de embarcações em um ecossistema frágil e remoto.
A demanda crescente por quebra-gelos confirma o interesse comercial: 167 foram construídos no último ano e outros 164 devem ser entregues até 2026. Ainda assim, navegar no Ártico exige experiência, enfrenta falhas de GPS e envolve riscos elevados de acidentes e derramamentos.
Relatórios apontam mais de 500 incidentes marítimos na região na última década, muitos ligados a falhas mecânicas. Com recursos limitados de busca e salvamento, especialistas alertam que qualquer acidente no Ártico é mais difícil de conter, apesar dos ganhos logísticos da rota mais curta.
