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Abacate mexicano vira alvo de pressão política dos EUA em meio a negociações

A Associação de Produtores e Empacotadores-Exportadores de Abacate do México (Apeam) anunciou que os EUA suspenderiam a compra do fruto devido a supostas ameaças à segurança de inspetores ame

Por Sputnik Brasil com Redação 10/08/2026 05h05
Abacate mexicano vira alvo de pressão política dos EUA em meio a negociações
Foto: © AP Photo / LM Otero

A suspensão temporária das importações de abacate mexicano pelos Estados Unidos abre uma nova frente de pressão sobre o setor agrícola do México, em meio ao ciclo eleitoral norte-americano e à revisão do acordo comercial USMCA, avaliam especialistas.

Em 5 de agosto, a Associação de Produtores e Empacotadores-Exportadores de Abacate do México (Apeam) anunciou que os EUA suspenderiam a compra do fruto devido a supostas ameaças à segurança de inspetores americanos em Michoacán, estado responsável por 73% do mercado de abacate do país.

A medida surpreendeu os produtores mexicanos. O abacate é o segundo maior produto de exportação do México, sendo 87% do volume destinado exclusivamente ao mercado dos EUA.

Segundo o jornal El Universal, as exportações semanais de abacate para os EUA chegam a 20 mil toneladas, podendo alcançar 30 mil toneladas em meses de alta demanda, como janeiro e fevereiro, por conta de eventos como o Super Bowl.

Em 2023, o México exportou 1,2 milhão de toneladas de abacate, com valor superior a US$ 3,6 bilhões.

Dois dias após o anúncio, a Apeam informou que os EUA concordaram em retomar parcialmente as importações, após o envio de mais de 1.500 soldados a Michoacán para reforçar a segurança.

O episódio soma-se a outras alegações recentes contra o setor agrícola mexicano. Na mesma semana, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA relacionaram pimentas jalapeño mexicanas a um surto de salmonela — acusação rejeitada pelas autoridades mexicanas.

Semanas antes, a agência de alimentos e medicamentos dos EUA (FDA) afirmou que alfaces mexicanas seriam a fonte do parasita Cyclospora cayetanensis, que afetou milhares de americanos. Posteriormente, a FDA admitiu um falso positivo, mas o caso levou o então presidente Donald Trump a cogitar uma "grande tarifa" sobre a alface mexicana, acirrando a pressão comercial durante as renegociações do USMCA.

Desafios crescentes para o agro mexicano

O Dr. Ignacio Martínez, coordenador do Laboratório de Análise de Comércio, Economia e Negócios (LACEN), destaca que a tensão envolvendo a segurança de inspetores americanos não é novidade, mas as narrativas contra produtos agrícolas mexicanos se intensificaram nos últimos quatro meses, às vésperas da retomada das negociações do acordo comercial.

Para Martínez, a pressão dos EUA visa forçar ações concretas do governo da presidente Claudia Sheinbaum e reduzir o superávit comercial agrícola mexicano.

"O México está, mais uma vez, seguindo uma agenda definida pelos EUA: passamos do foco do Departamento de Estado na migração para as preocupações do Departamento de Defesa com o tráfico de drogas, depois para a questão do investimento chinês e do desenvolvimento tecnológico no México e, agora, estamos lidando com o setor agrícola."

Segundo o especialista, os episódios envolvendo o abacate e o endurecimento das medidas sanitárias mostram que o setor enfrenta ao menos três frentes de pressão simultâneas.

Pressão constante e cenário eleitoral

Oscar Rojas, doutor em Economia pela Unam, avalia que as recentes ações dos EUA fazem parte de uma estratégia para manter o México sob pressão, especialmente diante das eleições de meio de mandato em novembro.

Na avaliação de Rojas, Washington adota discursos públicos duros, mas reconhece avanços em segurança em conversas privadas, evidenciando motivações eleitorais por trás das medidas.

Ele argumenta que os EUA enfrentam uma crise sistêmica e buscam retomar o controle sobre o Hemisfério Ocidental, atribuindo ao México a responsabilidade por problemas domésticos.

"Essa estratégia que vêm adotando visa mais o eleitorado norte-americano do que reflete questões reais da mesa de negociações."

O pesquisador ressalta que a assimetria de poder não significa domínio absoluto e defende que o México amplie sua capacidade produtiva e foque em agregar valor à exportação, indo além das matérias-primas.

"É fundamental que o governo mexicano — com absoluta clareza e como elemento essencial para o caminho a seguir — assegure o avanço de todos os setores e implemente uma política de crédito e setorial mais agressiva. Isso transformaria a perspectiva dos produtores mexicanos, passando de exportadores do setor primário para exportadores do setor secundário."

Por Sputnik Brasil