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“Perda de duas décadas”: diz pesquisador sobre o incêndio na UFPE

Laboratórios que funcionavam no local tiveram equipamentos, insumos e amostras destruídos pelas chamas

Por Redação 08/10/2026 16h04
“Perda de duas décadas”: diz pesquisador sobre o incêndio na UFPE
Incêndio atingiu prédio multiuso da UFPE, no Recife, na noite de quarta - Foto: Reprodução

Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) enfrentam perdas de materiais e amostras acumulados ao longo de anos após um incêndio de grandes proporções atingir um prédio da instituição, no Recife, na noite de quarta-feira (7). O reitor estima que os danos cheguem a R$ 100 milhões.

O prédio multiuso, que anteriormente abrigava a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, reunia laboratórios voltados a pesquisas nas áreas de fármacos, informática e genética. O incêndio começou por volta das 20h.

A Polícia Federal iniciou as investigações para apurar as circunstâncias do incêndio. Até o momento, não foi informada a possível causa.

AMOSTRAS DE COVID-19 E ESCLEROSE


O pesquisador Ryan Cordeiro, de 29 anos, que faz pós-doutorado em inovação terapêutica, mantinha no prédio um banco de amostras de sangue e materiais de órgãos de animais utilizados em testes de novos fármacos contra a Covid-19.

“Essas amostras de sangue da época da Covid-19, que a gente guardava como forma de pesquisar também novos fármacos e continuar pesquisando a doença, foi perdida”, lamenta.

Segundo Cordeiro, um dos estudos realizados no local identificou que casos leves de Covid-19 não apresentavam danos prolongados ao cérebro dos pacientes. O resultado foi utilizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em uma cartilha de enfrentamento à doença.

O pesquisador também desenvolvia estudos com amostras de animais para pesquisas relacionadas à esclerose sistêmica, doença crônica e rara.

“A gente estava chegando perto de sintetizar fármacos para atuar no enfrentamento da esclerose. A gente estava na modalidade de testes de animais ainda, mas acabou que perdeu o fármaco, as amostras. É começar do zero.”

Entre os materiais destruídos estavam amostras biológicas, de tumores, sangue, urina, plasma, soro e células imortalizadas.

“Toda parte de armazenamento de insumos, reagentes e amostras biológicas perdidas. Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho”, resume.

Cordeiro também destacou a relação dos pesquisadores com o espaço onde os estudos eram desenvolvidos.

“O simbolismo dessa perda é grande. Nosso passado foi apagado. Era um ambiente saudável, em que desenvolvemos muitas amizades. O Nupit se tornou a segunda família de todos”, diz, em referência ao Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino, do qual faz parte.

ESTUDO SOBRE CHIKUNGUNYA


A bióloga Jamile Taniele, de 39 anos, que realiza pós-doutorado com pesquisas sobre dores crônicas associadas à Chikungunya, também perdeu materiais utilizados nos estudos.

“Foi desesperador. Parecia um pesadelo. Até agora acho que a ficha do que aconteceu não caiu”, diz ela.

“Tem muitos colegas que estão em desespero, chorando, deprimidos. Vivendo um luto, né? Eu também estou vivendo o luto, tentando buscar formas de ocupar a mente e de colocar para a frente.”

Taniele afirmou que o incêndio destruiu um acervo considerado referência nas pesquisas sobre Chikungunya.

“Perdemos um dos maiores estudos do mundo em Chikungunya. Tínhamos mais de 10 mil amostras de pacientes que foram acompanhados por três anos”, resume.

Ela mantinha amostras de sangue e urina de quase mil pacientes.

“A gente estava em busca de resposta de por que a Chikungunya causa tantas dores e como manejar essa dor. Essas amostras eram de pacientes que tiveram diferentes trajetórias da doença e a gente já estava em um caminho de encontrar uma resposta.”

Ela completa: “Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça.”

IMPACTO NA FORMAÇÃO DE PESQUISADORES


O prédio havia sido reestruturado durante a pandemia de Covid-19 e também foi utilizado como laboratório de campanha para a realização de testes.

“Os alunos do Nupit são incansáveis”, diz a professora Michelle Melgarejo, da UFPE. “A gente estruturou nosso prédio para a Covid-19. Foi laboratório de campanha e a gente trabalhou fazendo milhares de testes aqui”, diz.

Segundo a professora, o núcleo desenvolve pesquisas relacionadas a câncer de pâncreas, câncer de pulmão, doenças infecciosas, doenças inflamatórias, doenças imunológicas, saúde mental, aprendizado e neuro-oncologia.

“Esse incêndio representa a perda de mestrados, de doutorados ou pelo menos um atraso nesses processos e um atraso bem grande por parte da ciência pernambucana e do Brasil”, completa.

José Rafael Soares, biólogo que fez mestrado em inovação terapêutica e atualmente cursa doutorado na mesma área na UFPE, também perdeu materiais de pesquisa.

“Isso reflete em tudo que pesquisamos lá dentro. Eu, por exemplo, faço pesquisa investigando biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias. E todas as minhas amostras, coletadas no Sertão de Araripe, estavam lá”, afirma.

MEC OFERECE APOIO


O ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirmou ter recebido a notícia com tristeza e disse que a pasta acompanha as investigações.

“Estamos em contato com a reitoria da UFPE e acompanhamos as investigações para apurar as causas do incêndio. Colocamos o MEC à disposição para prestar todo o apoio necessário”, escreveu em nota divulgada nas redes sociais.

Barchini é esperado na UFPE na tarde desta quinta-feira (8).