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Misturar produtos de limpeza pode causar danos à pele e à respiração

Combinações com água sanitária, vinagre e outros produtos podem liberar substâncias tóxicas e provocar irritações

Por Redação 05/10/2026 16h04
Misturar produtos de limpeza pode causar danos à pele e à respiração
Prática popular nas redes sociais pode causar danos à pele e ao sistema respiratório - Foto: Freepik

A mistura de produtos de limpeza para potencializar os resultados da faxina, prática que ganhou popularidade nas redes sociais, pode representar riscos à saúde. Combinações feitas incorretamente podem provocar irritações na pele e nas vias respiratórias e, em situações mais graves, causar complicações pulmonares.

Vídeos publicados no TikTok e no Instagram mostram receitas que combinam produtos como água sanitária, desinfetante e limpa-vidros. Em alguns casos, os próprios autores relatam sintomas como tontura e dificuldade para respirar após utilizar as misturas.

Segundo a biomédica Daiane Ribeiro, que atuou por dez anos na Unilever e atualmente é responsável por uma marca de produtos de limpeza de origem natural, os produtos comercializados em supermercados não costumam oferecer problemas quando são utilizados corretamente.

A especialista alerta, porém, que a água sanitária não deve ser misturada com outros produtos nem submetida ao calor.

"Todo mundo faz aquela misturinha de sabão em pó com água sanitária, ou com vinagre. O problema é que ela, quando reage com qualquer ácido, libera o gás cloro. Mesmo sem a pessoa perceber, já está inalando o vapor", diz. "É um gás tóxico que em um ambiente fechado vai fazer muito mal a quem inalar."

Ribeiro também chama atenção para o percarbonato de sódio, utilizado na remoção de manchas e que passou a aparecer com frequência em conteúdos publicados na internet.

"É o mesmo processo do cloro. Se misturado, vai liberar gases que provocam mal-estar."

A recomendação é observar sempre as instruções presentes na embalagem. Segundo a biomédica, se o rótulo não indicar que determinado produto pode ser misturado a outro, a combinação não deve ser feita.

"Sempre tem um influenciador vendendo a solução perfeita, e as pessoas acabam copiando. Mas a boa prática é não misturar", afirma.

Os produtos de limpeza são classificados de acordo com características como o pH e o potencial de liberação de gases tóxicos. Aqueles com pH entre 2 e 11 precisam de notificação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem comercializados. Já produtos com pH menor que 2 ou acima de 11,5 são considerados altamente corrosivos e possuem maior potencial de provocar lesões na pele e nos olhos.

Água quente


Outro cuidado importante é evitar o uso de água quente com produtos de limpeza sem que essa possibilidade esteja expressamente indicada pelo fabricante.

A água em alta temperatura pode atuar como catalisador das substâncias e alterar o comportamento dos produtos. Por isso, a recomendação é seguir as orientações do rótulo quanto à temperatura e ao tempo de aplicação.

Na limpeza do banheiro, por exemplo, não se deve utilizar água quente com cloro. Segundo Ribeiro, aquecer o produto não significa necessariamente aumentar sua eficiência.

No caso do hipoclorito, utilizado em produtos desinfetantes, a adição de água quente pode liberar oxigênio e favorecer a propagação do fogo.

Para remover manchas de roupas, alguns produtos, como o peróxido de hidrogênio, podem ser utilizados com água morna, desde que sejam respeitadas as orientações presentes na embalagem.

Produtos de cozinha


Receitas que combinam bicarbonato de sódio e vinagre também são comuns na internet, principalmente com a promessa de facilitar a remoção de sujeiras difíceis e desentupir ralos.

No entanto, segundo a especialista, as duas substâncias se anulam.

"Aquela espuminha que você pensa ser de algo potente é apenas um anulando o outro", afirma.

Produtos destinados à cozinha também devem, em geral, ser utilizados de acordo com sua finalidade original. As concentrações são desenvolvidas para usos específicos e nem sempre são adequadas para a desinfecção microbiológica.

Como utilizar os produtos corretamente?


O primeiro passo é utilizar cada produto para a finalidade indicada pelo fabricante. Limpa-vidros, por exemplo, não deve ser usado como produto para limpar o chão, assim como tira-limo não substitui um desengordurante.

Também é importante respeitar as instruções de diluição e o tempo necessário para que o produto faça efeito.

"Por isso é importante ler o rótulo, até para obter o benefício que o produto vai entregar. Se você usa um desinfetante diluído em água, por exemplo, sem a fazer a diluição correta, o único benefício será o cheiro. Vai anular todo o poder de desinfecção, e as bactérias vão continuar ali", diz Daiane.

Adicionar outras substâncias também não acelera necessariamente a limpeza. Cada produto possui uma concentração e um tempo de reação específico, que devem ser respeitados.

Riscos respiratórios


O pneumologista Marcelo Ceneviva Macchione explica que, de maneira geral, os produtos de limpeza podem irritar as vias respiratórias.

O médico cita um estudo publicado em 2018, que acompanhou mais de 6.200 participantes por até 20 anos e associou a exposição a atividades de limpeza a um declínio mais acelerado da função pulmonar em mulheres.

Uma análise do trabalho estimou que a magnitude da perda observada era comparável à identificada em pessoas que fumavam de 10 a 20 cigarros por dia.

"De modo geral, todos esses produtos são irritantes para a via aérea: irritam nariz, garganta, traqueia e bronquios. Quem já tem doença respiratória, como asma ou bronquite, precisa ter muito cuidado, pois as complicações podem ser muito rápidas e, em casos extremos, levar à morte por insuficiência respiratória", diz.

A exposição pode provocar sintomas imediatos, como tosse, irritação na garganta e tontura. Também podem ocorrer complicações posteriores, como broncoespasmo, que estreita as vias aéreas e dificulta a passagem do ar, e edema pulmonar, caracterizado pelo acúmulo de líquido nos alvéolos.

Como evitar problemas respiratórios?


Durante a limpeza, é importante manter o ambiente ventilado. Abrir portas e janelas ajuda a favorecer a circulação de ar e diminuir a concentração de substâncias no ambiente.

"Não é necessário usar uma máscara na maioria das vezes se o uso for feito corretamente. Quando necessário o uso de alguma proteção, isso estará indicado no rótulo", destaca Daiane.

Caso surjam sintomas respiratórios durante a utilização de produtos, a orientação é deixar o ambiente e procurar um local com ar fresco até que a situação melhore.

Contato com a pele


O dermatologista Victor Bechara alerta que as reações provocadas pela mistura ou pelo contato frequente com produtos de limpeza também podem causar dermatite por irritação.

"Isso vai acontecer nos locais de contato, principalmente continuado, como as mãos e ao redor das unhas", diz.

Pessoas expostas frequentemente a produtos de limpeza podem apresentar vermelhidão, rachaduras e outros sinais de irritação nas mãos. As unhas também podem ser afetadas.

Quando as fissuras são profundas, existe o risco de facilitar infecções. Por isso, após a limpeza, recomenda-se lavar bem as mãos com detergente neutro e utilizar cremes bloqueadores.

Quando possível, o médico recomenda o uso de luvas impermeáveis com forro de algodão para evitar o contato direto com os produtos. O látex, porém, deve ser evitado por pessoas que tenham sensibilidade ao material, já que também pode provocar dermatite e alergia.

Em casos mais graves, a recomendação é procurar atendimento médico para avaliar e tratar as lesões.