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Alagoas tem a maior desigualdade racial em homicídios do Brasil

Levantamento do Atlas da Violência 2026 aponta que o estado registra a maior disparidade racial em homicídios do país. Especiaista relaciona cenário ao racismo estrutural, desigualdades sociais e falhas institucionais.

Por redação 22/06/2026 15h03
Alagoas tem a maior desigualdade racial em homicídios do Brasil
Alagoas apresentou a maior diferença entre as taxas de homicídios de pessoas negras e não negras em 2024. - Foto: Agência Tatu

Alagoas registrou, em 2024, a maior desigualdade racial em homicídios do Brasil. Dados do Atlas da Violência 202 mostram que uma pessoa negra no estado teve 23 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa não negra, colocando o território alagoano no topo do ranking nacional de disparidade racial na violência letal.

Os números divulgados pelo Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelam um cenário preocupante para a população negra em Alagoas. No ano passado, a taxa de homicídios entr pessoas negras alcançou 48,8 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre não negros o índice foi de apenas 2,1.


A diferença coloca o estado na primeira posição entre as unidades da federação com maior desigualdade racial nos indicadores de violência letal. Na sequência aparecem o Amapá, onde a taxa de homicídios de pessoas negras é 16,7 vezes superior à de não negros, e Sergipe, com uma disparidade de 6,8 vezes.


O levantamento também mostra que os estados com maiores diferenças raciais em homicídios estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste, áreas que historicamente apresentam elevados índices de violência contra a população negra. Em nível nacional, a taxa de homicídios entre negros chegou a 27,3 por 100 mil habitantes em 2024, número 2,7 vezes superior ao registrado entre não negros, que foi de 10,1.


Para a advogada criminalista e presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB Alagoas, Mayara Heloise Cavalcanti, os dados evidenciam que a violência não afeta todos os grupos sociais da mesma maneira.


“Quando o ato de violência aponta que uma pessoa negra tem um risco drasticamente superior de ser assassinada em comparação a uma pessoa não negra. A gente está diante da materialização do racismo estrutural e do que a gente vai chamar também, nos estudos de criminologia, de seletividade penal”, explica.


Segundo a especialista, as estatísticas revelam uma distribuição desigual das garantias de proteção e dos direitos fundamentais.


“Esse cenário demonstra que as proteções jurídicas e as garantias fundamentais não são distribuídas de forma equânime. E acaba resultando nessa vulnerabilidade programada que desvaloriza a vida da população negra”, aponta.


Mayara destaca ainda que fatores demográficos, econômicos e institucionais ajudam a compreender a concentração dos índices mais elevados no Norte e Nordeste. De acordo com ela, essas regiões apresentam uma proporção maior de jovens, faixa etária historicamente mais exposta à violência letal.


Além disso, a advogada ressalta que a falta de oportunidades socioeconômicas e a presença de disputas entre organizações criminosas contribuem para agravar o problema.


“Existe a expansão de rotas de conflitos entre organizações criminosas e principalmente a escassez de oportunidades socioeconômicas estruturadas para juventude periférica nesses territórios. E aí acabam por consolidar o ambiente onde a letalidade encontra terreno fértil para se perpetuar com esse viés racializado muito acentuado”, pontua.


Outro aspecto apontado pela especialista é a estrutura das instituições de segurança pública. Segundo ela, estados do Nordeste ainda enfrentam desafios relacionados à capacidade investigativa e à elucidação de crimes quando comparados a outras regiões do país.


“A histórica fragilidade da infraestrutura das instituições de segurança, de investigação criminal, se comparada à estrutura de outros estados, que têm um investimento maior, mais organizado, como o Sul e Sudeste”, afirma.


A advogada também critica modelos de segurança pública focados predominantemente no policiamento ostensivo, argumentando que a prevenção e a investigação criminal deveriam receber maior atenção.


Para ela, a seletividade racial continua influenciando a atuação estatal e ampliando os riscos enfrentados pela população negra.


“A seletividade e o perfilamento racial operam a partir dessa presunção de perigo que se baseia na cor da pele. É o que transforma a própria força estatal em um vetor de risco para a população negra”, conclui.


A reportagem procurou o Governo de Alagoas para comentar os dados apresentados pelo Atlas da Violência 2026. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.