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MP denuncia golpista que fingiu ser criança e enganou família por 14 meses
Suspeita foi desmascarada após uma familiar encontrar reportagens sobre golpes semelhantes e reconhecer características da mulher acolhida por um casal em Joinville.
O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) denunciou Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, pelos crimes de estelionato e falsa identidade após ela se passar por uma adolescente e viver durante 14 meses com uma família em Joinville, no Norte catarinense. O caso veio à tona depois que uma familiar das vítimas encontrou registros de golpes semelhantes atribuídos à suspeita em outros estados.
A denúncia foi apresentada nesta semana e aponta que Amanda teria criado uma identidade fictícia para conquistar a confiança das vítimas e obter benefícios materiais e financeiros. Segundo o Ministério Público, ela se apresentava como "Gabriele Ferreira dos Santos", alegando ter apenas 11 anos e relatando uma série de situações de vulnerabilidade para sensibilizar pessoas ao seu redor.
A fraude começou a ser desmontada graças à desconfiança de uma mulher que passou a ser chamada de "tia" pela suposta adolescente. Incomodada com algumas inconsistências nos relatos, ela decidiu pesquisar na internet casos semelhantes envolvendo pessoas que fingiam ser crianças.
Durante a busca, encontrou reportagens publicadas em 2023 sobre uma mulher identificada como Amanda, investigada por um golpe semelhante no Rio de Janeiro. Além das semelhanças na história, a aparência física da suspeita chamou atenção.
A familiar compartilhou a descoberta com o pai adotivo. Inicialmente cético, ele mudou de opinião ao assistir às reportagens e identificar que a mulher retratada era a mesma pessoa que morava em sua residência.
"Ele viu que a pessoa que foi presa no Rio de Janeiro era a pessoa que estava dentro da casa dele", relatou o delegado Rodrigo Bueno Gusso.
Após a descoberta, a família procurou a Polícia Civil em Joinville no fim de maio. Dias depois, Amanda foi presa e, posteriormente, indiciada por falsa identidade e estelionato.
De acordo com a investigação, a mulher chegou à família por intermédio de uma igreja. Na época, afirmava ser maior de idade, possuir experiência em panificação e estar em busca de trabalho. Com o passar dos meses, porém, mudou completamente a narrativa, passando a dizer que era uma criança que havia fugido do Pará após sofrer maus-tratos.
Comovidos, os moradores abriram as portas de casa e passaram a tratá-la como filha. Durante o período em que viveu com a família, Amanda recebeu moradia, alimentação, transporte, acompanhamento, medicamentos de alto custo, um quarto decorado com brinquedos infantis e até uma festa para celebrar seus supostos 12 anos.
Segundo o delegado, o envolvimento emocional foi um dos fatores que permitiram a manutenção da fraude por tanto tempo.
"Ela conseguiu sequestrar emocionalmente a família. Era uma família com boa situação financeira, então ela levava uma vida de adolescente muito boa. Durante o período em que estava com a família, ela não recebia dinheiro diretamente, mas tudo que havia de bom e do melhor ela recebia", afirmou.
A Polícia Civil também identificou que Amanda possui histórico semelhante em outros estados. Em depoimento, ela confessou ter utilizado o mesmo tipo de abordagem no Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Ceará. Um caso ocorrido em Natal (RN) também passou a ser investigado após a repercussão da prisão.
Em Santa Catarina, há ainda apurações sobre possíveis ocorrências relacionadas à suspeita em Florianópolis e Chapecó.
Um dos episódios que mais chamou atenção dos investigadores ocorreu em Nova Iguaçu (RJ), onde Amanda utilizava o nome "Duda". Na ocasião, ela foi acolhida por mulheres que atuavam em projetos sociais voltados ao atendimento de crianças vítimas de violência.
Renata Magalhães, uma das pessoas que conviveram com a suspeita, afirmou que Amanda costumava imitar a voz de uma criança para sustentar o personagem. Ela também relatou episódios incomuns durante a convivência.
"Ela vomitava a agulha. Ela vomitava, fez isso na minha frente. É uma coisa bizarra. Tenho visto muita gente rindo e fazendo piada na internet, mas ela é uma estelionatária, uma narcisista, uma mulher perigosa. É uma pessoa que vestiu um personagem e criou uma narrativa", declarou.
O Ministério Público sustenta que Amanda obteve vantagem ilícita ao receber custeio integral de sua subsistência, incluindo moradia, alimentação, transporte, medicamentos e outras despesas assumidas pela família que acreditava acolher uma adolescente em situação de risco.A defesa informou que acompanha o processo e aguarda a realização de um exame de sanidade mental autorizado pela Justiça. O pedido foi feito após surgirem informações sobre episódios de automutilação e outros comportamentos que, segundo o advogado Rafael Luiz Siewert, merecem avaliação especializada.
A suspeita permanece presa enquanto a Justiça analisa os próximos passos do processo.


