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EUA transferem responsabilidade sobre crise das drogas para outros países,

Apesar do reconhecimento, o consumo de drogas nos EUA é um problema antigo

Por Sputnik Brasil com Redação 14/05/2026 06h06
EUA transferem responsabilidade sobre crise das drogas para outros países,
Foto: © AP Photo / Manuel Balce Ceneta

Os Estados Unidos apresentaram a Estratégia Nacional de Controle de Drogas para 2026, com foco especial no México, país que, sob a ótica de Washington, seria amplamente responsável pelo consumo elevado de opioides e outras drogas entre os americanos. No entanto, especialistas ouvidos pela Sputnik apontam que o documento carece de medidas preventivas efetivas.

A estratégia, anunciada recentemente durante o governo de Donald Trump, foi elogiada pelo governo mexicano. O México destacou que, pela primeira vez, os EUA reconhecem o uso de drogas como grave problema de saúde pública em sua sociedade. O ministro das Relações Exteriores do México, Roberto Velasco Álvarez, ressaltou que a cooperação e a coordenação entre os dois países são essenciais para o sucesso da iniciativa.

Apesar do reconhecimento, o consumo de drogas nos EUA é um problema antigo. Segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), as mortes por overdose diminuíram em relação a anos anteriores, mas ainda somam cerca de 71 mil óbitos anuais, um número elevado.

Em 1999, os EUA registraram cerca de 20 mil mortes por overdose. Em menos de 20 anos, esse número cresceu exponencialmente, atingindo mais de 105 mil mortes em 2022, conforme o CDC.

Palavras não sustentadas pelos fatos

O consultor de segurança David Saucedo afirmou, em entrevista à Sputnik, que os EUA vêm sendo negligentes há décadas no combate ao uso de drogas em sua população. Para ele, a nova estratégia do governo Trump não foge à regra.

"O documento menciona o uso de drogas ilícitas nos EUA, mas apenas de forma narrativa. Na prática, não há previsão orçamentária, por exemplo, para aprimorar o sistema de saúde ou investir em medicamentos que reduzam o risco de morte por fentanil", explica Saucedo.

"Não existem métricas de sucesso. Ano após ano, os dados mostram que o consumo só aumenta. Não há, de fato, uma estratégia eficiente para conter o uso de drogas ilícitas no país", acrescenta.

Javier Oliva Posada, doutor em ciência política e especialista em segurança, concorda com a análise e lembra que a falta de prevenção, políticas de saúde pública e controle farmacêutico contribuiu para a atual crise do fentanil nos EUA.

"A crise do fentanil começa com a facilidade das prescrições médicas para qualquer tipo de dor. É daí que o consumo se expande. Não podemos ignorar essa origem", destaca.

Pressão diplomática como estratégia

A Estratégia Nacional de Controle de Drogas para 2026 é vista como uma extensão da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, lançada no fim do ano passado. O documento mantém o foco na América Latina e no combate ao crime organizado, uma das principais promessas de campanha de Trump, destaca Oliva Posada.

"O texto tem 95 páginas e o México é citado 31 vezes, ocupando papel central. Trata-se claramente de uma continuidade", avalia o especialista, que vê na estratégia um possível argumento para posturas mais intervencionistas dos EUA em relação ao México.

Nesse contexto, Saucedo ressalta que o foco da estratégia está quase exclusivamente no fentanil, sem considerar a origem real do problema.

"O fentanil é o centro da estratégia, mas sua origem está nos precursores químicos da China. Não vejo Washington exigindo extradição de autoridades chinesas... porque não pode", afirma.

O governo chinês, por sua vez, nega envolvimento na produção ou tráfico da substância e reafirma compromisso no combate ao narcotráfico global.

"Os EUA não podem confrontar a China; o custo seria elevado. Mas podem pressionar o México", diz Saucedo.

México como bode expiatório, segundo analistas

Segundo Saucedo, há uma postura de aversão, até pessoal, do governo Trump em relação ao México.

"Trump prefere ver o México como origem dos problemas dos EUA, em vez de reconhecê-lo como parceiro comercial e aliado hemisférico", avalia o especialista.

Para os analistas, a estratégia antidrogas dos EUA carece de metodologia eficaz para combater o crime organizado internamente e não prevê aumento no orçamento para saúde e segurança pública, estagnado há anos.

"Os EUA transferem o custo do combate ao narcotráfico para países como o México e outros da América Latina. O México precisa investir recursos humanos, financeiros e materiais, mas onde está o investimento americano? O que se vê é apenas pressão diplomática, militar e sobre segurança, comércio e tarifas", afirma Saucedo.

Essa lacuna é considerada uma das principais deficiências do documento apresentado pelo governo Trump. Embora mencione o contrabando de armas dos EUA para o México, que alimenta grupos de narcotráfico rotulados como terroristas por Washington, não há propostas concretas para enfrentar o problema.

"Não há proibição à compra de fuzis de assalto que são legalmente adquiridos nos EUA e levados à fronteira. Não há responsabilidade compartilhada por parte dos Estados Unidos", conclui Saucedo.

Por Sputnik Brasil