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Engasgo em idosos provoca cerca de 1.500 mortes por ano no Brasil
Envelhecimento da população brasileira exige atenção redobrada à saúde dos idosos
O envelhecimento da população brasileira exige atenção redobrada à saúde dos idosos. Entre as preocupações, destaca-se um risco frequentemente subestimado: as mortes por engasgo, conhecidas tecnicamente como Obstrução das Vias Aéreas por Corpo Estranho (Ovace).
Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2024, cerca de 2.470 pessoas morreram no país devido a engasgos. Aproximadamente 60% dessas vítimas — cerca de 1.500 pessoas — tinham 60 anos ou mais. Os idosos mais longevos são os mais vulneráveis: aproximadamente 771 mortes ocorreram entre pessoas com 80 anos ou mais.
Em Alagoas, registros do Samu evidenciam a gravidade do problema. Em Maceió, foram 19 ocorrências com idosos em 2024 e 18 em 2025. Em Arapiraca, foram 11 em 2024 e 9 em 2025, somando 57 chamados em todo o estado nos dois anos. Apesar de números relativamente baixos, tratam-se de emergências que podem ser fatais em questão de minutos.
Um episódio recente, ocorrido na rua Dra. Rosa Cabús, bairro Jatiúca, no dia 7 de agosto de 2025, às 15h54, ilustra a urgência do atendimento. Uma idosa de 93 anos engasgou-se com alimento. Mesmo após tentativa inicial da manobra de Heimlich por pessoas no local, a vítima permaneceu em estado grave: inconsciente e com dificuldade respiratória.
Inicialmente, o Samu enviou uma equipe de motolância. Diante da gravidade, também foi acionada uma Unidade de Suporte Avançado (USA), classificando a ocorrência como "OVACE EM IDOSO" — prioridade máxima.
A equipe de motolância encontrou a idosa com padrão respiratório gravemente comprometido, confirmando a obstrução severa das vias aéreas. A equipe da USA realizou a Intubação Orotraqueal (IOT) no local — procedimento complexo para garantir uma via aérea segura. Após estabilização, a paciente foi encaminhada ao Hospital Geral do Estado (HGE).
“Os engasgos são emergências de altíssimo risco. Em idosos, o perigo de asfixia e perda de consciência é elevadíssimo se a obstrução não for resolvida rapidamente”, alerta o enfermeiro socorrista Breitner Pereira Lima. “Se a pessoa está consciente e tossindo, deve-se incentivá-la a tossir com força, pois isso frequentemente resolve. Se não tossir, se a respiração estiver comprometida ou não emitir som, é fundamental acionar o Samu pelo 192 imediatamente”, orienta.
Ao ligar para o 192, manter a calma é essencial. “Nossos profissionais são capacitados para o atendimento, mas precisamos de informações claras e rápidas”, destaca o coordenador geral do Samu, médico Mac Douglas de Oliveira Lima. “Quem liga deve tentar se acalmar para descrever o estado da vítima. Muitas vezes, a orientação médica por telefone é vital até a chegada da equipe”, reforça.
Para obstrução severa — quando a vítima consciente não consegue respirar, tossir ou falar —, a manobra de Heimlich é indicada. Em adultos e idosos, a técnica consiste em posicionar-se atrás da pessoa, abraçá-la pela cintura, colocar o punho fechado logo acima do umbigo, segurar com a outra mão e aplicar compressões rápidas e firmes para dentro e para cima, até que o objeto seja expelido ou a vítima perca a consciência.
“Em idosos, é preciso realizar a manobra com cuidado, devido à maior fragilidade óssea, que aumenta o risco de fraturas de costela”, ressalta Breitner. Se a vítima desmaiar, deve-se iniciar imediatamente a Reanimação Cardiopulmonar (RCP), com compressões torácicas, até a chegada do socorro especializado.
Causas e prevenção
Os engasgos em idosos vão além do descuido ocasional. Estão associados ao processo natural de envelhecimento, como dificuldade de deglutição (disfagia), fragilidade da musculatura da garganta, problemas dentários e doenças neurológicas como AVC ou Parkinson. Alimentos mal mastigados (carnes, pães), pedaços grandes de comida, próteses dentárias mal ajustadas e comorbidades também aumentam o risco. Por isso, a prevenção é fundamental.
Cuidados importantes
Preparo dos alimentos: Cortar a comida em pedaços pequenos antes de servir.
Cuidado com a mastigação: Incentivar mastigação lenta e completa. Manter a saúde bucal em dia, com acompanhamento odontológico regular, é essencial, especialmente para quem usa prótese.
Ambiente adequado: Evitar comer conversando ou rindo. O ideal é focar apenas na alimentação.
Supervisão: Redobrar a atenção durante as refeições de idosos, principalmente daqueles já diagnosticados com disfagia ou outras dificuldades de deglutição.
Adaptação: Para idosos com maior dificuldade, considerar a modificação da consistência dos alimentos (pastosos, amassados), sempre com orientação profissional.


