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Conheça Eduarda Elisa, 1ª mulher trans do NE a ser eleita diretora de escola pública em Alagoas

Filha de empregada doméstica e montador de móveis, Elisa, de 29 anos, conquistou seu lugar na educação legitimando sua existência dentro da sala de aula

Por Jamerson Soares 20/01/2026 09h09 - Atualizado em 20/01/2026 10h10
Conheça Eduarda Elisa, 1ª mulher trans do NE a ser eleita diretora de escola pública em Alagoas
Eduarda Elisa se interessou pelo caminho da docência ainda na infância em Maceió - Foto: Arquivo pessoal

Filha de empregada doméstica e de montador de móveis, Eduarda Elisa Monteiro de Lima, de 29 anos, conquistou seu lugar na educação legitimando sua existência dentro da sala de aula desde a infância, quando aos oito anos viu seu futuro promissor em Fátima, docente da Escola Estadual Vitorino da Rocha, localizada no Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (CEPA), em Maceió.

Elisa é uma mulher trans negra e viu em sua professora uma oportunidade e uma inspiração para seguir o caminho da docência, sendo o que ela é e ocupando espaços de liderança. Hoje, Eduarda Elisa comemora porque continuou com sua determinação e se tornou a primeira diretora transgênero da rede estadual de Alagoas, atuando na mesma escola da infância.

"É mais que uma gestora trans, é validação da primeira, a única no Estado de Alagoas, no Nordeste e em 2026. Estar ocupando o espaço de liderança e formação humana mais importante da sociedade que é a escola, é sinônimo de esperança e perseverança dentro de um modelo de sociedade onde mais de 90% corpos como o meu estão à margem, na prostituição, porque não foram acolhidos pela família e escola", destacou a educadora.

Ela e o vice Marcus Affonso foram eleitos gestores escolares para o biênio 2026-2027, com 92% dos votos válidos. A votação aconteceu em dezembro de 2025 e o resultado foi publicado no mesmo período. A posse aconteceu em janeiro de 2026. Segundo Elisa, sua presença em um espaço de liderança pode ser um divisor de águas para pessoas trans que sonham em construir uma carreira na área.

"Percebo a minha vitória enquanto um divisor de águas, um novo caminho para que muitos outros profissionais transgêneros possam acreditar em si, no próprio potencial. Espero que o meu ingresso em um cargo de liderança motive e inspire além dos profissionais da rede desde a base, dos alunos que estão nas escolas públicas e que serão futuros professores", declarou.

A alagoana viralizou nas redes sociais recentemente após publicar um vídeo trabalhando dentro da sala da diretoria escolar. As imagens foram publicadas no Instagram, com a seguinte frase: "Quando você é a única diretora trans em uma escola pública do estado de Alagoas". A postagem recebeu 33,2 mil visualizações, mais de 2 mil curtidas e diversos comentários parabenizando a nova diretora.


Família e trajetória

Moradora do bairro Jardim Petrópolis 1, na capital alagoana, Elisa é a segunda filha mais nova de maria Vânia Monteiro de Melo, empregada doméstica natural de Pão de Açúcar, interior do estado, e de José Cícero Maurício de Lima, montador de móveis em mármore e granito natural de Viçosa, município da Zona da Mata, localizado a 86 km de Maceió.

A educadora contou que os pais eram bem ausentes na escola por motivos de trabalho. Porém, ela conseguiu ter o privilégio de sempre ter referências femininas na unidade escolar onde estudava, fazendo com que ela não se sentisse só e a querer ainda mais seguir essa jornada. "O desejo pela docência nasceu e perdurou por toda trajetória da educação básica", relatou.

Elisa também foi aluna da Escola Estadual Maria José Loureiro e da Escola Estadual Moreira e Silva, onde estudou o ensino médio até 2014, ano de conclusão. No mesmo período, tentou fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), porém não obteve uma nota que ela queria. Ingressou no curso normal conhecido como magistério na Escola Estadual Maria José Correia Titara e lá estudou seis meses para tentar faculdade de pedagogia.

Em 2016, conseguiu, por meio do Enem, ingressar no curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

"Na época, enquanto uma pessoa gay, negra e periférica, tive um acesso maior à diversidade de saberes a respeito da profissão docente, o que me fez refletir significativamente sobre os limites e possibilidades de atuação, a princípio, de uma futura pedagoga em contextos educacionais e da necessidade de formação continuada para ocupar e me legitimar nesses espaços", disse Elisa.

Com a conclusão da formação inicial em 2020, atrelado ao início da pandemia de Coronavírus, Eduarda continuou buscando novos conhecimentos tornando-se Especialista em Educação Especial pela Faculdade Estratego (PA). Em 2021, paralelamente, se tornou também Especialista em Linguagens e Práticas Sociais pelo Instituto Federal de Alagoas (IFAL) Campus Murici.

Participou das seleções em alguns programas de pós-graduação stricto-sensu da Ufal, sendo eles: Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE) em 2019 e 2020; Programa de Pós-graduação em Ensino e Formação de Professores (PPGEFOP) campus Ufal Arapiraca em 2021 e, por fim, no Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIM) obtendo êxito no processo seletivo desse último em 2022. "Sempre tive muita garra e fui uma pessoa determinada", afirmou.

Entre o final de 2021 e o início de 2022, foi aprovada no curso de bacharelado em Educação Física na Ufal, no mestrado em ensino de ciências também na Ufal e no concurso público do Estado de Alagoas, optando pelo mestrado e em atuar na rede estadual de ensino. Nesse mesmo período, ela trabalhou na Fundação Casa do Especial (FUNCAE) como professora, por cinco meses, de Jovens e Adultos (EJA) de alunos especiais.

'Eu não me encaixava diante dos padrões normativos'

Durante os desafios do percurso acadêmico e do magistério, a educadora conciliou o período de transição de gênero. Desde a pandemia, Elisa tinha acompanhamento com psicóloga de forma independente e com o apoio financeiro de uma amiga. Em 2023, a educadora seguiu buscando atendimento clínico terapêutico para, segundo ela, lidar com as mudanças envolvendo a transição.

Eduarda Elisa contou que a vivência na universidade a fizeram olhar para a infância e enxergar que estava em corpo oposto da sua identidade de gênero. "Eu não me encaixava diante dos padrões normativos entre ser homem e mulher que enxergava".

Para ela, estar em um ambiente acadêmico a fez expandir mais os horizontes de possibilidades e ideias sobre gênero e sexualidade, como também promoveu uma autorreflexão e movimento na busca de um lugar no mundo "sendo esse, encontrado em um espaço de pertencimento com a afirmação de uma identidade trans, a princípio não-binária durante a pandemia, e mulher trans após esse momento".
Ainda em 2023, durante o início do curso de mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, Elisa assumiu sua identidade de gênero enquanto mulher transexual.

A transição dentro da escola


A professora continuou atuando na educação especial do Estado, na Escola Estadual Professor José Vitorino da Rocha, localizada no bairro do Pinheiro, no prédio antigo do Senac. Lá, a unidade atende cerca de 150 crianças em regime integral e oferta os anos iniciais do ensino fundamental.

Ela contou que, no mesmo período, desde o seu ingresso na escola, sempre foi bem acolhida e respeitada, bem como trabalhou próxima à antiga gestão. "Isso me motivou a buscar ser gestora da escola", disse.

A transição de gênero na unidade escolar, segundo Elisa, em relação às crianças foi tranquila. Fez alguns encontros na sala de recursos com as turmas e explicou toda a situação de forma lúdica, sempre acompanhada da psicóloga da escola. "Explanei que na natureza, mudanças e transformações são completamente naturais, a exemplo da borboleta e sua metamorfose. Como fazia parte do seu processo evolutivo mudar, isso também era possível para nós, que estamos sempre em desenvolvimento."

Durante os encontros supervisionados, a maioria das crianças afirmou ter parentes e amigos trans. "Foi frisado nesses encontros que, independente da mudança, eu estava para contribuir na aprendizagem e que eles podiam confiar em mim. De 2023, ano que iniciei a transição, até os dias atuais, não vi dificuldades nas interações com os estudantes", relatou.

Ela também tinha contato com a comunidade escolar, participava das reuniões, era integrante do conselho escolar e tudo isso facilitou para a construção de um forte vínculo com todos.

"Estive em dialogo presencialmente, pelas redes sociais e me coloquei aberta acolher as dúvidas existentes referentes a escola, sua proposta pedagógica, objetivos, projetos, missão e principalmente valores, além disso, sempre busquei tratar com igualdade e respeito os pais e demais profissionais da instituição."

Muitos desafios pela frente

Apesar do título de primeira diretora trans de escola pública, Eduarda Elisa não quer parar em uma zona de conforto e comentou que ainda há a ausência de ações nas escolas que fomentem discussões sobre identidade de gênero, sexualidade e educação.

"Desde o meu ingresso no serviço público, só participei de uma roda de conversa em um evento envolvendo o letramento e a identidade gênero promovido pela Secretaria de Planejamento, Gestão e Patrimônio de Alagoas (SEPLAG) em 2024. Vale ressaltar que, há estudantes trans, gays, lésbicas e toda uma diversidade e pouco tem se discutido sobre esses temas nas escolas por meio da Educação Sexual", lamentou.

De acordo com Elisa, é possível reescrever um capítulo importante e necessário sobre diversidade sexual e de gênero para a educação pública de Alagoas.

"Cultura só se muda com novos hábitos e costumes, uma cultura de respeito à diversidade sem práticas que estimulem a isso, sem que envolvam os estudantes e a comunidade escolar não trará mudanças significativas. A educação só torna-se transformadora na perspectiva de Paulo freire quando não nega-se as individualidades, pois é nas suas diferenças que se potencializam suas identidades", concluiu.