Esportes

Além dos gramados: jogadores que já quebraram o silêncio sobre saúde mental

Mês de conscientização sobre a prevenção ao suicídio também chama atenção para os desafios enfrentados por atletas

Por Redação 01/09/2026 16h04
Além dos gramados: jogadores que já quebraram o silêncio sobre saúde mental
Pressão por desempenho e exposição nas redes sociais estão entre os desafios - Foto: Gabriela Biló / Folhapress

A chegada do Setembro Amarelo nesta terça-feira (1º) coloca novamente a saúde mental no centro do debate. No futebol, onde jogadores convivem diariamente com cobranças, críticas e a necessidade de manter o alto desempenho, falar sobre sofrimento emocional ainda pode ser difícil. Nos últimos anos, porém, atletas conhecidos decidiram compartilhar experiências pessoais e mostrar que procurar ajuda também faz parte da trajetória esportiva.

A imagem do atleta como alguém que precisa estar sempre preparado para superar obstáculos muitas vezes esconde situações vividas longe dos estádios. Para alguns jogadores, o momento de maior dificuldade aconteceu justamente quando estavam no auge da carreira.

Foi o que aconteceu com Richarlison depois da Copa do Mundo de 2022. O atacante, que chegou ao Mundial como um dos jogadores mais queridos da Seleção Brasileira, passou a receber críticas após a eliminação da equipe. A repercussão afetou diretamente sua relação com o futebol e, posteriormente, sua saúde mental.

Em 2024, em entrevista à ESPN, o jogador revelou que chegou a pensar em abandonar a carreira e contou que o acompanhamento psicológico foi decisivo naquele período:

"Antes eu ia treinar e já queria voltar para casa, para o quarto, não sei o que estava dando na minha cabeça… Cheguei a falar com o meu pai que eu ia desistir. Eu tinha acabado de disputar uma Copa do Mundo, estava no meu auge. Mas cheguei no meu limite, sabe? Eu estava em depressão, queria desistir. Sofri muitos ataques depois da Copa e tive um problema pessoal em casa que me afetou muito. Logo eu, que parecia tão forte mentalmente. Depois da Copa, desabou tudo. E acho que a psicóloga me salvou, salvou a minha vida. Eu só pensava besteira, pesquisava besteira de morte. Hoje eu posso falar: procure um psicólogo, é legal você se abrir, conversar. Eu tinha preconceito antes, achava que era frescura ou eu estava doido. Na minha família, pessoas achavam também. Mas (a psicologia) foi a melhor descoberta que eu tive na vida"

A pressão também aparece no relato de Igor Thiago. Antes de viver uma fase de destaque na Inglaterra e chegar à Seleção Brasileira, o atacante passou por um período de depressão e ansiedade enquanto defendia o Cruzeiro, em 2020.

As críticas recebidas naquele momento tiveram impacto tão forte que o jogador contou ter vivido uma situação extrema durante um deslocamento para o treino. Em entrevista à TNT Sports neste ano, ele relembrou o episódio:

"Em uma manhã, indo para um treino, eu pensei em bater meu carro de tanta cobrança que eu estava recebendo, pessoas me xingando. Aquilo estava me afetando. O que não me deixou fazer isso foi a questão da minha fé, minha conexão com Deus. Cheguei em casa, conversei com minha mãe e meus irmãos. Estava passando por um momento muito difícil. E foi quando minha vida começou a ir por um percurso diferente"

Para Jhon Arias, a dificuldade teve outra origem. O colombiano chegou ao Fluminense em 2021 pouco depois de perder a avó e precisou conciliar o luto com a adaptação a um novo país, longe da família.

Nesse processo, a psicóloga do clube, Emily Gonçalves, tornou-se uma figura importante para o jogador. Depois da conquista da Libertadores, em 2023, Arias fez questão de mencionar o trabalho da profissional:

"Minha relação com a Emily é ótima, uma pessoa que me ajudou muito desde a minha chegada. Toda vez que posso, tento enaltecer o trabalho dela. Aqui muita gente trabalha muito. Talvez fora das câmeras, mas que carregam o time em momentos importantes. Pessoas que não aparecem muito, mas ajudam o Fluminense a atingir o lugar que tem atingido"

A dificuldade em reconhecer a necessidade de ajuda aparece também na história de Danilo Luiz. O zagueiro, que passou por clubes como Real Madrid e Manchester City antes de retornar ao futebol brasileiro, contou que enfrentou problemas emocionais durante sua passagem pelo clube espanhol.

Mesmo vivendo um período de sucesso profissional, o jogador questionava por que precisaria de acompanhamento psicológico. A mudança veio quando decidiu ouvir um psicólogo do esporte:

"No Real Madrid eu comecei a ter problemas emocionais, mentais, que eu não tinha antes, nem quando não ganhava tão bem e não era tão conhecido. Foi meu maior momento de dificuldade: "Quem pode me ajudar? Eu, lá no América Mineiro, não tinha nem comida às vezes e passava por cima de tudo. Agora, no Real Madrid, ganhando bem, tudo perfeito, preciso de ajuda?" Mas resolvi escutar um psicólogo do esporte, fiz minha primeira sessão, que me trouxe um conforto que não tinha há muito tempo. Eu era cheio de preconceito, de dificuldade para aceitar ajuda, mas, a partir da primeira vez, resolvi trabalhar com ele de novo e, então, queria toda semana"

Quem também decidiu falar sobre o assunto foi Cássio. O goleiro revelou que já buscou acompanhamento tanto com psicóloga quanto com psiquiatra e apontou as transformações pelas quais o futebol passou, especialmente com a influência das redes sociais.

Em entrevista ao SportsCenter, em 2024, o jogador defendeu que os clubes deem mais espaço aos profissionais de saúde mental:

"Eu frequento psicóloga, fui na psiquiatra também, tomo medicação. Acho que, no meio do futebol, a gente é meio preconceituoso. Hoje é muito importante o psicólogo, porque a gente passa por muitas coisas e precisa de pessoas para ajudar, para a gente falar. Eu, por muitas vezes, guardei coisas para mim, conversava mais com a minha esposa, mas é muito importante a ajuda de profissionais do assunto. E o futebol hoje mudou muito, questão de redes sociais, com críticas e elogios. E é importante para a nova safra de jogadores, porque a gente se deslumbra. Eu acho que os clubes deveriam ter psicólogos, é uma evolução no futebol"

As lesões, outro elemento comum na carreira de atletas, também podem provocar períodos de fragilidade emocional. É o que Arrascaeta passou a abordar ao compartilhar sua experiência com a terapia.

"Eu acredito que, desde que eu comecei a fazer terapia, parece que eu comecei a viver de novo, ou viver mais plenamente. Antes de eu começar a terapia, a minha personalidade, a minha forma de ver as coisas, o despertar de cada dia (eram diferentes). E no âmbito do futebol também. No momento das lesões, que podem acontecer num treino, num jogo, é importante você saber que você está fazendo o que tem que ser feito e estar preparado para enfrentá-las"

Os seis relatos partem de situações diferentes, mas chegam a um ponto em comum: a necessidade de reconhecer os próprios limites e buscar apoio.

Em um esporte no qual a imagem de força costuma ser associada à capacidade de suportar qualquer adversidade, as histórias desses jogadores ajudam a ampliar a compreensão de que saúde mental também precisa fazer parte da rotina de quem vive do futebol.

O Setembro Amarelo reforça justamente a importância de falar sobre o tema, quebrar tabus e incentivar a procura por ajuda. Ao exporem momentos que poderiam permanecer longe dos holofotes, os atletas transformam experiências pessoais em uma oportunidade para que outras pessoas também reconheçam quando precisam de apoio.