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Copa do Mundo de 2026 será marcada por tensões políticas e restrições inéditas

Apesar de ser apresentada como uma Copa da América do Norte, a distribuição dos jogos é desigual

Por Sputnik Brasil com Redação 28/05/2026 06h06
Copa do Mundo de 2026 será marcada por tensões políticas e restrições inéditas
Foto: © AP Photo / Seth Wenig

A Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, promete ser histórica não apenas pelo número recorde de seleções participantes, mas também pelas tensões políticas e sociais que cercam o evento.

Apesar de ser apresentada como uma Copa da América do Norte, a distribuição dos jogos é desigual: Canadá e México vão sediar 13 partidas cada, enquanto os Estados Unidos receberão 78 jogos, concentrando as atenções e os desafios do torneio.

Um dos pontos de maior preocupação é o custo para os torcedores. Os preços dos ingressos estão significativamente mais altos do que em edições anteriores, e o valor do transporte interno também deve pesar no bolso. Segundo Adriano Freixo, doutor em história social pela UFRJ e professor do Inest/UFF, entrevistado pelo podcast Mundioka da Sputnik Brasil, enquanto na Rússia e no Catar as passagens eram gratuitas, nos EUA o transporte será caro e pode impactar até mesmo a rotina dos próprios norte-americanos.

Reportagem do The Athletic revela que o órgão de transporte de Nova Jersey planeja cobrar mais de US$ 100 (cerca de R$ 507) por uma viagem de ida e volta entre Manhattan e o MetLife Stadium, em East Rutherford — um trajeto que normalmente custa US$ 12,90 (R$ 65,40).

Além dos custos, a lotação dos estádios pode ser afetada por questões migratórias. Muitos fãs de futebol nos EUA são latinos ou descendentes de latinos, mas a política de perseguição a imigrantes e a atuação do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) criam um ambiente de insegurança, inclusive para cidadãos documentados.

“Eles se sentem inseguros para ir aos estádios, porque você imagina a quantidade de agentes do ICE que não estarão infiltrados durante esses jogos, monitorando a presença desses imigrantes. Tudo isso contribui para esse esvaziamento até o momento do evento”, afirma Freixo.

O analista lembra que, em 2023, durante a primeira Copa do Mundo de Clubes da FIFA nos EUA, houve esvaziamento de público, levando patrocinadores a distribuir ingressos para ONGs e escolas para preencher os estádios.

Outro fator inédito é a realização do torneio em um país com restrições à entrada de cidadãos de 39 países — quatro deles classificados para a Copa: Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim. O caso do Irã é emblemático: o ex-presidente Donald Trump chegou a sugerir que o país fosse substituído pela Itália, alegando não poder garantir a segurança dos atletas iranianos.

Essas restrições norte-americanas vão na contramão das expectativas da FIFA e dos patrocinadores, que esperam grande fluxo de turistas, ocupação hoteleira e vendas de ingressos, patrocínios e direitos de transmissão.

EUA recebem mundial com tensões domésticas e internacionais

A autonomia dada a órgãos como o ICE durante o governo Trump pode afastar turistas, segundo Freixo. “Às autoridades alfandegárias norte-americanas foram dados poderes discricionários. Eles podem simplesmente, por algum motivo e não precisam justificar, barrar a entrada de qualquer pessoa nos Estados Unidos. É um risco viajar para os EUA”, alerta. Recentemente, organizações de direitos humanos emitiram alertas desaconselhando viagens ao país devido a essas medidas restritivas.

As tensões também extrapolam as fronteiras dos EUA. Mesmo após receber o prêmio da paz da FIFA, o país segue envolvido em conflitos, incluindo a crise com o Irã, que estará presente no torneio. “Essa Copa está trazendo uma série de situações inéditas e esdrúxulas porque, pela primeira vez, nós estamos tendo uma Copa onde há a presença de dois países, um deles sendo a sede do evento, que estão em guerra. Isso é absolutamente inédito”, ressalta Freixo.

Para o especialista, esta será “a Copa do Mundo com o maior número de tensões latentes”. “Já tivemos Copa na Itália fascista, na ditadura argentina, em país islâmico com regime fechado como o Catar, e o nível de tensão não se igualou ao que estamos vendo para 2026”, destaca.

Apesar de todas as evidências, a FIFA não aplicou sanções aos Estados Unidos, anfitrião do evento, nem a Israel, envolvido em conflito em Gaza desde outubro de 2023. “Para quem pensa que política e futebol não se misturam, os dois pesos e duas medidas mostram que a FIFA sempre age como ator geopolítico”, conclui Freixo.

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