Esportes

Reconhecimento facial amplia público nos estádios e reforça segurança

A exigência do uso da biometria facial em arenas com mais de 20 mil torcedores está prevista no artigo 148 da Lei Geral do Esporte

Por Agência Brasil com Redação 03/04/2026 10h10
Reconhecimento facial amplia público nos estádios e reforça segurança

A tradição de guardar ingressos de partidas esportivas está prestes a se tornar coisa do passado. Há quase um ano, o acesso a estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas passou a ser feito, obrigatoriamente, por meio da biometria facial. Agora, o torcedor libera a catraca apenas pelo reconhecimento do rosto, cadastrado no momento da compra do ingresso, sem necessidade de apresentar um bilhete físico.

“O objetivo principal da biometria é personalizar o ingresso. Assim, elimina-se a possibilidade de o bilhete circular entre várias pessoas, ser emprestado ou trocado. Também se reduz a fraude, pois não há como copiar a face”, explica Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, uma das empresas responsáveis pelo sistema no país.


A exigência do uso da biometria facial em arenas com mais de 20 mil torcedores está prevista no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, de 14 de junho de 2023, que estabeleceu prazo de dois anos para a adoção do sistema.

O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio do mundo a implementar a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. Segundo a Bepass, responsável pela implantação na arena do Palmeiras, o tempo de entrada do público triplicou em velocidade. O clube também registrou aumento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores.

“Venho com minhas filhas. Para nós, é mais prático e rápido, pois compramos o ingresso on-line, fazemos a biometria facial uma vez e já está liberado”, relata o motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, em entrevista à TV Brasil antes de acessar a Arena Barueri para o clássico entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro Feminino.

Segundo Melchert, houve um aumento expressivo de famílias nos estádios, especialmente mulheres (32%) e crianças (26%) entre 2023, antes da nova lei, e 2025.

O público geral também cresceu. No Brasileirão Masculino do ano passado, a média de torcedores por partida foi de 25.531. Considerando apenas as 269 partidas após a obrigatoriedade da biometria facial, a média subiu para 26.513 pessoas por jogo, um aumento de cerca de 4%.

Alguns clubes adotaram o reconhecimento facial mesmo sem a exigência legal. Na Vila Belmiro, do Santos, com capacidade para cerca de 15 mil pessoas, a entrada por biometria começou em 2024. O clube estima uma economia de R$ 100 mil mensais – ou R$ 1,2 milhão ao ano – por não precisar mais confeccionar carteirinhas.

“Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao mesmo tempo, mais conforto e segurança aos torcedores. Com o reconhecimento facial, evitamos problemas com ingressos falsos e cambistas”, afirma o presidente do Santos, Marcelo Teixeira.

A segurança é reforçada pela integração dos sistemas de biometria ao Banco Nacional de Mandados de Prisão. Os dados são cruzados e, caso haja alguma pendência judicial, a polícia é acionada. No clássico entre Santos e Corinthians, em março, três homens foram detidos na Vila Belmiro: um procurado por roubo e dois por não pagamento de pensão alimentícia.

Em âmbito nacional, um acordo entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública, em 2023, originou o projeto “Estádio Seguro”. Em São Paulo, clubes e Secretaria de Segurança Pública (SSP) conectaram os equipamentos a um sistema de monitoramento por câmeras em todo o estado. No programa “Muralha Paulista”, mais de 280 foragidos foram identificados e detidos ao tentar acessar as arenas.

“Como o ingresso é personalizado, sabemos quem é o comprador. Essa informação é enviada para a Secretaria de Segurança, que faz uma varredura, verifica pendências e retorna ao controle de acesso e à equipe de segurança do estádio. O objetivo é que a polícia cumpra o mandato no momento em que a pessoa tenta entrar”, detalha Melchert.

Apesar das vantagens, há preocupações quanto ao destino dos dados coletados. O relatório “Esporte, Dados e Direitos”, do projeto O Panóptico do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), questiona a adoção da tecnologia e propõe seu banimento, alinhando-se à posição de instituições civis nacionais e internacionais. O estudo destaca riscos à privacidade dos torcedores, vulnerabilização de crianças e adolescentes e o chamado racismo algorítmico.

O relatório alerta ainda para a “datificação” – a transformação de ações do público em dados monitoráveis, relevantes para grandes empresas. Critica-se também a obrigatoriedade da coleta biométrica para a compra do ingresso, que, segundo o documento, impõe a datificação inclusive a menores, em possível conflito com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Outro ponto abordado são os riscos de identificações equivocadas e prisões injustas. O CESeC recorda o caso de 2024, quando um homem negro, torcedor do Confiança, foi retirado da Arena Batistão, em Aracaju, após o sistema de reconhecimento facial indicá-lo erroneamente como foragido. O engano foi esclarecido, mas o constrangimento permaneceu.

O relatório cita ainda estudo de 2018 das pesquisadoras Joy Buolamwini e Timnit Gebru, que aponta variação na acurácia dos algoritmos de biometria facial conforme raça e gênero. Enquanto a taxa de erro para identificação de mulheres negras era de 34,7%, para homens brancos não passava de 0,8%.

Questionado sobre os argumentos contrários ao reconhecimento facial, Melchert afirma que o armazenamento e o tráfego da biometria ocorrem de forma vetorizada, sem trânsito da foto do usuário. Ele reconhece que nenhum sistema é 100% livre de falhas, mas garante que o erro mais comum é o não reconhecimento da face. “Há um ajuste de acurácia, que determina o grau de precisão entre a biometria de referência e a do momento da entrada. É muito raro ocorrer um falso positivo: estimamos um caso em um milhão”, defende o diretor de Tecnologia, que acredita na ampliação do sistema, inclusive fora do ambiente esportivo.