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Vladimir Herzog: a morte que desmentiu a versão da ditadura

Jornalista morreu sob custódia militar em 1975; caso expôs a violência da repressão e se tornou símbolo da luta pela liberdade de imprensa e pela redemocratização do Brasil

Por Esther Barros 28/10/2026 10h10
Vladimir Herzog: a morte que desmentiu a versão da ditadura
Vladimir Herzog, jornalista morto sob custódia de órgãos de repressão da ditadura militar, em outubro 1975 - Foto: Reprodução

Em uma cela de um órgão de repressão da ditadura militar, a morte de um jornalista foi apresentada ao país como suicídio. A versão oficial, porém, não resistiu às contradições, aos testemunhos e à luta de familiares, colegas de profissão e entidades da sociedade civil. O caso de Vladimir Herzog, morto em 25 de outubro de 1975, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da violência praticada pelo Estado durante o regime militar brasileiro.

A história de Herzog abre a série "MEMÓRIA E DEMOCRACIA", uma iniciativa editorial que nos próximos dias, vai revisitar a trajetória de brasileiros que enfrentaram a ditadura, sofreram as consequências da repressão ou desafiaram os limites impostos pelo regime.

A proposta é recuperar fatos, personagens e acontecimentos que ajudam a compreender um dos períodos mais sombrios da história nacional, além de refletir sobre o valor da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Mais do que recordar nomes do passado, a série pretende mostrar como as decisões de um regime autoritário atingiram vidas, famílias e instituições e deixaram marcas que atravessaram gerações.

Um jornalista em meio à repressão


Nascido em 27 de maio de 1937, em Osijek, na antiga Iugoslávia, território que hoje pertence à Croácia, Vladimir Herzog chegou ao Brasil ainda criança, em 1942. Radicado em São Paulo, construiu uma carreira no jornalismo e também atuou como professor, cineasta e profissional ligado ao teatro.

Conhecido entre amigos e colegas como Vlado, Herzog trabalhou em importantes veículos de comunicação e desenvolveu parte de sua trajetória profissional na televisão. Em 1975, era diretor de jornalismo da TV Cultura e estava à frente do telejornal Hora da Notícia.

Naquele momento, o Brasil vivia sob uma ditadura instaurada pelo golpe de 1964. O regime restringia direitos políticos, perseguia opositores e mantinha órgãos de informação e repressão responsáveis por interrogatórios, prisões ilegais e práticas de tortura.

A imprensa também estava submetida a pressões e mecanismos de censura. Jornalistas, intelectuais, estudantes, sindicalistas e pessoas consideradas adversárias do governo podiam entrar na mira dos órgãos de segurança.

Foi nesse contexto que Herzog passou a ser alvo de suspeitas relacionadas a possíveis vínculos com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), organização que atuava na clandestinidade.

A ida ao DOI-CODI e a morte sob custódia


Na noite de 24 de outubro de 1975, agentes procuraram Herzog na sede da TV Cultura para levá-lo a prestar esclarecimentos. Após negociações com profissionais da emissora, ficou acertado que ele compareceria espontaneamente no dia seguinte.

Na manhã de 25 de outubro, o jornalista se apresentou ao DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. A unidade era um dos principais centros de repressão política do período.

Herzog não voltou para casa.

Naquele mesmo dia, os órgãos militares divulgaram a versão de que ele havia cometido suicídio por enforcamento. A narrativa oficial foi contestada desde o início e provocou indignação entre jornalistas, familiares e representantes da sociedade civil.

Relatos de pessoas que estavam detidas no local indicaram que Herzog havia sido submetido a tortura. As circunstâncias apresentadas pelas autoridades também levantaram questionamentos sobre a explicação divulgada para a morte.

O caso expôs uma característica central da repressão durante a ditadura: além da violência praticada nos locais de detenção, havia tentativas de controlar a narrativa pública sobre o que acontecia nesses espaços.

A morte de um jornalista sob custódia do Estado, seguida de uma versão oficial contestada, tornou-se um símbolo das contradições e da falta de transparência do regime.

A reação da sociedade e a força do protesto


A repercussão da morte de Herzog ultrapassou os limites da categoria profissional. Jornalistas se mobilizaram, entidades passaram a cobrar explicações e o episódio ganhou dimensão nacional.

Em 31 de outubro de 1975, milhares de pessoas participaram de um ato ecumênico na Catedral da Sé, no centro de São Paulo. A cerimônia reuniu representantes de diferentes religiões, estudantes, intelectuais, trabalhadores e integrantes da sociedade civil.

O ato foi conduzido com a participação de lideranças religiosas como o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright, além de contar com a mobilização de jornalistas liderados pelo então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas.

A cerimônia transformou o luto em uma manifestação pública contra a violência e o autoritarismo. Em um período no qual manifestações de oposição podiam resultar em perseguição, a presença de milhares de pessoas demonstrou que o medo não havia eliminado a capacidade de mobilização da sociedade.

A morte de Herzog passou a representar não apenas a violência contra um indivíduo, mas também a defesa da liberdade de imprensa, do direito à informação e da responsabilização do Estado por violações de direitos humanos.

A versão oficial foi contestada na Justiça


A investigação conduzida inicialmente pelos órgãos militares manteve a versão de suicídio. A família do jornalista, entretanto, não aceitou essa conclusão e buscou o reconhecimento da responsabilidade do Estado.

Em 1978, uma decisão da Justiça Federal responsabilizou a União pela prisão, tortura e morte de Herzog nas dependências do DOI-CODI. O processo representou um marco na contestação judicial da narrativa oficial apresentada pelo regime.

Décadas depois, a Comissão Nacional da Verdade examinou o caso no contexto de suas investigações sobre graves violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura.

Em 2012, a Justiça determinou a retificação do registro de óbito do jornalista para que constasse que a morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército, em São Paulo, em vez da versão de suicídio registrada originalmente.

O reconhecimento histórico e judicial, contudo, não significou a responsabilização criminal dos envolvidos. O caso permaneceu como exemplo das dificuldades enfrentadas pelo Brasil para investigar e punir crimes cometidos por agentes do Estado durante o regime militar.

Uma história que ultrapassa a própria morte


A trajetória de Vladimir Herzog permanece ligada à defesa do jornalismo e dos direitos humanos. Em sua homenagem, foi criado o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog, dedicado a trabalhos que contribuem para a promoção da democracia, da cidadania e da justiça social.

Sua história também ajuda a compreender por que a liberdade de imprensa não se resume ao direito de publicar notícias. Ela depende da possibilidade de investigar o poder, questionar versões oficiais, divulgar informações de interesse público e trabalhar sem ameaças ou violência.

Quando um jornalista é perseguido por seu trabalho ou quando o Estado tenta ocultar as circunstâncias de uma morte sob sua custódia, o problema não se limita à vítima direta. A sociedade perde a possibilidade de conhecer os fatos e de cobrar responsabilidades.

É essa dimensão que torna o caso Herzog tão importante para a memória brasileira. Sua morte revelou os limites impostos à liberdade durante a ditadura e a capacidade de mobilização de uma sociedade que, mesmo sob repressão, encontrou maneiras de contestar o silêncio.

Relembrar essa história não significa olhar para o passado como algo distante ou encerrado. Significa compreender como instituições, direitos e liberdades podem ser atingidos quando o poder deixa de respeitar limites democráticos.

Nas próximas reportagens da série, outros personagens que enfrentaram a ditadura serão apresentados a partir de suas trajetórias, escolhas e consequências. Histórias diferentes, marcadas pela resistência política, cultural e social, ajudarão a reconstruir um período cuja compreensão continua essencial para a memória coletiva do país.