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“O gênero escolheu a gente”, diz Camilla Benevides sobre a identidade da Subsolo

Baterista e compositora fala sobre sua relação com a música, a formação da banda alagoana de doom metal e os planos para ampliar o alcance do grupo

Por Brenno Verissimo 01/10/2026 09h09
“O gênero escolheu a gente”, diz Camilla Benevides sobre a identidade da Subsolo
Subsolo, banda alagoana de doom metal fundada em 2025 - Foto: Raissa Winteler

O cenário independente alagoano vem apresentando uma crescente evidente. Entre bandas que incorporam o indie rock à cultura local, surge também uma aposta em sonoridades mais carregadas, marcadas por guitarras pesadas e ritmos lentos. O doom metal, subgênero do heavy metal, ainda encontra um espaço embrionário em Maceió, mas foi justamente nesse terreno que nasceu a Subsolo. A banda surgiu quase por acaso. O que inicialmente seria uma apresentação no aniversário de Camilla Benevides, em 2025, acabou dando origem a um grupo que encontrou no doom metal sua identidade. Baterista, compositora e responsável pela parte empresarial da banda, Camilla iniciou sua relação com a música ainda na infância, influenciada pela família, e passou a enxergar a atividade de outra maneira após a primeira apresentação do grupo.

Com riffs pesados, ritmos lentos e letras marcadas pela melancolia, a Subsolo ocupa um espaço ainda nichado, mas em desenvolvimento, na cena underground alagoana. A banda também busca aproximar o gênero do público local ao apostar em músicas em português e em referências que ultrapassam o universo do metal.

Nesta entrevista, Camilla fala sobre sua trajetória musical, a escolha pelo doom metal, a relação da Subsolo com o público e com outras bandas alagoanas, as influências que ultrapassam a música e os planos para os próximos lançamentos.

Como a música entrou na sua vida?


A música entrou na minha vida de forma muito natural, principalmente porque isso foi passado dos meus pais para mim e dos pais deles para eles. Meu avô era autodidata e aprendeu violão sozinho. Minha mãe também aprendeu dessa forma. Ela toca violão, teclado e piano e, quando era mais nova, tinha uma banda de pagode.

Meu pai também aprendeu sozinho. Ele chegou a construir o próprio violão com um pedaço de madeira e cordas que encontrava. Ia à igreja para observar os movimentos dos músicos e depois tentava reproduzi-los em casa. Então, a música sempre fez parte da minha vida. Desde pequena, não apenas esteve presente, mas também foi explorada de uma maneira muito legal.

O que te atraiu na bateria? Como é sua relação com a música atualmente?


Não sei explicar muito bem o que me atraiu na bateria, porque, desde muito pequena, ela já me brilhava os olhos. Quando eu tinha seis anos, meus pais perguntaram o que eu queria tocar e eu disse: “Bateria, eu quero bateria”. Só que não deu porque eu morava em apartamento, então eles me colocaram no teclado. Em 2021, finalmente entrei na bateria.

Acho que é o conjunto de conseguir ritmar e trazer um brilho maior para a música. A bateria muda totalmente uma música. Mesmo mantendo o mesmo canto e os mesmos instrumentos, diferentes ritmos de bateria conseguem transformar aquilo. Se houver um baterista ruim, ele pode fazer toda a música desandar.

Hoje, minha relação com a música está no momento mais profundo. Além de tocar na Subsolo, também escrevo muitas das letras. Elas falam sobre sentimentos que estão adormecidos ou que pertencem ao passado. Isso me permite expressar coisas que não consigo colocar em palavras, seja pelo ritmo, pela melodia ou pela métrica.

Em que momento você percebeu que queria levar a música à frente?


Foi em 2025, quando tocamos pela primeira vez no palco. Até então, eu tratava a música como um hobby, algo que fazia para me divertir com meus amigos. Quando me apresentei para um público e as pessoas gostaram daquilo que eu escrevi, dos arranjos que ajudei a construir e daquilo que ajudei a tocar, pensei: “Meu Deus, eu posso levar isso para frente”.

Foi quando percebi que poderia tratar a música como um trabalho em que eu me divirto muito. É muito legal perceber que as pessoas gostam do que você faz e se identificam com aquilo que você sente ou sentiu.

O que levou a Subsolo a escolher o doom metal como parte de sua identidade musical?


É engraçado porque a gente começou fazendo covers de Ramones e Misfits, então se considerava uma banda punk. Inclusive, no primeiro pôster do Bandas Novas, aparecemos como uma banda de horror punk.

Quando perguntaram quantas músicas tínhamos, eu falei que eram cinco. Só que, na verdade, a gente tinha metade de uma música pronta. Em um mês, conseguimos escrever cinco músicas. Os ritmos começaram a conversar entre si e percebemos que eles seguiam uma mesma linha, com referências como Queens of the Stone Age e Black Sabbath.

Então, de certa forma, a gente não escolheu o gênero. Eu gosto de dizer que o gênero escolheu a gente. Começamos como uma banda punk, mas o estilo foi se formando naturalmente enquanto escrevíamos as músicas.

O que especificamente te atrai no doom metal e como ele influencia sua forma de expressar a música?


Quando pensamos em metal, muitas vezes pensamos em voz gutural, algo rápido e pesado. O doom é justamente o contrário disso em muitos aspectos. Temos vozes limpas, como as de Ozzy Osbourne e Dio no Black Sabbath, e ritmos muito mais lentos.

Essa lentidão, misturada à afinação pesada da guitarra, traz uma melancolia muito grande. Às vezes, sinto como se a guitarra estivesse falando nas músicas. Gosto de pensar nisso durante os arranjos.

Também conseguimos misturar essas afinações pesadas com letras muito tocantes e viscerais. A gente escreve sobre o que viveu e o que vive. Às vezes exageramos essas experiências, mas acho que o artista tem essa licença, porque sentimos e vivemos as coisas ao extremo.

Além da bateria, o que é parte da Subsolo e é intrínseco à Camilla?


Acho que a Subsolo tem muito de mim porque fui eu que acabei fundando a banda. Na verdade, ela nem deveria existir. Eu faria meu aniversário em 2025 e queria fazer um karaokê, com algumas músicas tocadas ao vivo antes. O aniversário acabou não acontecendo porque o aluguel do espaço aumentou muito, mas a Subsolo nasceu daquela ideia.

O jeito melancólico das nossas músicas também tem muito de mim. Sou uma pessoa muito sentimental e melancólica, às vezes até ao extremo. No cotidiano, isso nem sempre é bom, mas, como artista, acho fantástico porque consigo explorar áreas que nem sabia que conseguiria.

Como é ocupar um espaço relativamente nichado na cena alagoana sendo uma banda de doom metal?


Foi algo que me surpreendeu bastante. As bandas do underground alagoano são muito unidas. Quando você começa a entrar na cena, percebe isso.

A Subsolo é uma banda muito nova, ainda está em uma fase embrionária, mas já recebemos bastante apoio. O Corvo e a Serpente, que é uma banda de stoner, por exemplo, foi muito parceira conosco, ajudando na votação e indicando a gente para tocar em outros lugares.

Eu realmente não imaginava que o pessoal seria tão acolhedor com bandas novas.

O que precisa ser desmistificado no gênero, principalmente no cenário alagoano?


Acho que precisa ser desmistificada essa ideia de que música boa de doom ou stoner só é boa quando é cantada em inglês. Recentemente, comentaram em uma publicação nossa que “doom em português é uma merda”.

Eu entendo que existe uma familiaridade maior com músicas em inglês nesse gênero, porque é o que estamos acostumados a ouvir. Mas precisamos trazer o gênero para o nosso convívio, para o português e para as vivências que temos.

Sei que mudanças levam tempo, mas também precisamos estar dispostos a aceitá-las. O cenário está crescendo cada vez mais, e isso é muito legal.

Qual é a relação da Subsolo com o público amante do metal?


É uma relação muito legal. Há pessoas que não conhecíamos e que foram a todos os shows que fizemos. Algumas já sabem trechos das nossas músicas, dizem qual é a música favorita delas ou comentam que sempre acompanham nossas publicações.

Eu não esperava esse acolhimento, tanto das bandas quanto do público. Talvez isso também tenha relação com o fato de não existirem tantas bandas de doom em Maceió e em Alagoas.

A gente também consegue misturar o doom com uma voz mais lírica do nosso vocalista, Isaac. Algumas pessoas comparam o estilo dele ao Angra. Acho interessante juntar um gênero que já é melancólico com uma voz que também consegue trazer essa característica.

O que, além da música, influencia a Subsolo?


Eu gosto muito dos desenhos dos anos 1990, principalmente os da MTV. Adoro Daria e Downtown. Consigo pegar elementos dessas produções e trazer para a Subsolo, não apenas no conteúdo das redes sociais, mas também na estética.

A capa do nosso single, por exemplo, é um desenho feito por um amigo, Carlos Daniel, inspirado nos traços de Downtown.

Gosto muito das cores vibrantes e dos diálogos naturais desses desenhos. São conversas que parecem aquelas que eu teria com meus amigos da faculdade. Gosto de trazer isso porque conseguimos despertar uma sensação de nostalgia em quem vê. Talvez a pessoa nem saiba exatamente o que está causando aquela sensação, mas consegue senti-la.

Como tem sido o processo de produção da banda até esta etapa? O que vocês têm lançado e planejado lançar?


Tem sido um processo muito legal, mas também mais difícil do que eu imaginava. Estamos investindo em equipamentos para conseguir produzir em casa, como interfaces, microfones melhores e bateria eletrônica.

Conseguimos produzir um single inteiro com nossos próprios equipamentos. Estamos trabalhando nele desde maio e a gravação se estendeu até setembro. Nosso guitarrista, Silas, está produzindo porque já tem conhecimento nessa área e aprendeu sozinho. Cada integrante também gravou sua parte em casa.

Também contamos com a troca com outros profissionais da cena. Tenho uma amiga, Juja Soares, que é produtora musical e já trabalhou com projetos como o Quarto Vazio. Costumo mandar as coisas para ela e perguntar o que podemos melhorar ou modificar.

Temos o single “Subsolo” pronto e pretendemos lançar outro em outubro. O primeiro foi bastante trabalhoso, principalmente porque é uma música difícil para o vocal do Isaac. A melodia passa por uma região entre a voz de cabeça e o belting, o que torna a execução mais complexa.

Ainda queremos trabalhar mais nessa música. A versão definitiva fará parte do álbum que pretendemos lançar no próximo ano.

O que você gostaria e espera que a Subsolo conquistasse nos próximos anos?


Quero muito que a gente cresça cada vez mais. Tivemos uma base muito boa com a PopFuzz e com o Caike, que sempre apoiou bastante a banda. Fizemos quatro ou cinco apresentações lá desde o nosso primeiro show, em maio, e esse espaço nos ajudou a ganhar confiança.

Nos próximos anos, gostaria que conseguíssemos chegar a estados próximos, como Pernambuco e Sergipe, para alcançar um público diferente do nosso habitual. As redes sociais ajudam, mas não é a mesma coisa que as pessoas verem a banda ao vivo e sentirem essa energia.

Quero que a Subsolo cresça principalmente para que mais pessoas escutem nossas músicas. Colocamos muito sentimento e esforço nelas. As músicas acabam sendo uma extensão da gente, do que pensamos, vivemos e sentimos. Então, ver que as pessoas gostam dessa extensão da nossa personalidade é muito especial.

Quero que mais pessoas consigam ouvir, gostar e até se viciar nas nossas músicas. Acho que não existe satisfação maior para um artista do que ver as pessoas não apenas consumindo, mas realmente gostando daquilo que você criou.