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BRICS pode ampliar circulação da literatura indiana no Sul Global
Pesquisadora aponta que falta de traduções limita acesso às obras da Índia, mas cooperação entre países pode fortalecer intercâmbio cultural
Com uma das tradições literárias mais antigas do mundo e obras escritas em centenas de idiomas, a Índia busca ampliar sua influência cultural para além de Bollywood e do yoga. Para pesquisadora, a falta de traduções ainda limita a circulação internacional, mas iniciativas como o BRICS pode fortalecer o intercâmbio cultural entre o Sul Global.
Muito antes de a Índia despontar como uma das principais economias do planeta ou conquistar o mundo com Bollywood, o país já exercia influência sobre diferentes civilizações por meio de sua produção intelectual. Obras como o Mahabharata, o Ramayana, os Vedas e as Upanishads, algumas transmitidas oralmente durante séculos antes de serem registradas por escrito, ajudaram a moldar tradições filosóficas, religiosas e literárias.
Hoje, o país realiza a maior feira literária da Ásia, viu Rabindranath Tagore se tornar o primeiro asiático a receber o Nobel de Literatura em 1913 e reúne escritores premiados internacionalmente. Ainda assim, boa parte dessa produção continua praticamente desconhecida do público brasileiro.
A explicação, segundo a professora de Literaturas de Língua Inglesa da Universidade Paulista (Unip) e pesquisadora de literatura indiana, Cielo Griselda Festino, não está na falta de autores nem na ausência de diversidade.
"A literatura indiana é tão poderosa como sua filmografia. O que acontece é que a filmografia é mais fácil de chegar. Qual é o dificuldade da literatura indiana? A tradução para a língua portuguesa", ingada ao podcast Mundioka.
Embora escritores renomados como Salman Rushdie, Arundhati Roy, Amitav Ghosh ou Jhumpa Lahiri tenham conquistado leitores em diferentes países, eles representam apenas uma pequena parcela da literatura produzida na Índia. "Quando a gente fala de literatura indiana, em geral, as pessoas entendem a literatura indiana de língua inglesa. Só que muitas línguas são faladas na Índia. Cada estado está organizado ao redor de uma língua oficial e, aliás, há muitas outras que são também faladas e têm tradições literárias", pontua.
Essa diversidade acompanha a própria formação histórica do país. Diferentemente de outras nações que consolidaram um idioma predominante para sua produção literária, a Índia desenvolveu diferentes centros culturais espalhados por seu território. Cada região construiu sua própria tradição narrativa, produzindo romances, contos, poesias e textos filosóficos que dialogam com identidades locais, religiões, costumes e experiências sociais distintas.
Para Festino, é justamente essa multiplicidade que faz da literatura indiana uma das mais ricas do mundo.
"A tradição literária indiana é de uma riqueza infinita. O problema é a tradução. Então, muitas vezes, essas literaturas que são escritas no que se chamam as bhashas, que são as línguas da Índia".
Um país, centenas de literaturas
A multiplicidade linguística talvez seja a característica que mais diferencia a literatura indiana da produção literária de outros grandes países. Embora o hindi e o inglês sejam os idiomas oficiais do governo central, a Constituição indiana reconhece outras 20 línguas, enquanto centenas de idiomas e dialetos continuam vivos em diferentes regiões do país. Essa realidade fez surgir tradições literárias próprias em praticamente todas as regiões.
Na avaliação de Festino, esse mosaico cultural torna impossível reduzir a literatura indiana a um único estilo ou conjunto de autores. E essa convivência entre diferentes idiomas produziu uma literatura marcada por múltiplos olhares sobre a sociedade indiana.
Segundo a especialista, há autores dedicados às relações familiares, outros que abordam religião, política, desigualdade, castas, questões de gênero ou identidade regional. Além disso, existem diversas obras produzidas dentro das comunidades islâmicas, romances ambientados em grandes metrópoles e obras escritas por integrantes de grupos historicamente marginalizados.
"Hoje a literatura Dalit é uma das mais importantes da Índia. Tem tantos escritores, homens como mulheres, da casta dos chamados intocáveis, que têm narrativas importantíssimas. Em particular, eles trabalham com o gênero da autobiografia, no qual contam seus próprios problemas, o que acontece com eles."
A pesquisadora enfatiza que diversidade também aparece na literatura produzida pelos povos tribais e por escritoras que discutem a condição feminina em diferentes regiões do país. "Então você vai ter esse tipo de narrativas engajadas, que são muito politizadas, e vai também ter outro tipo de narrativas que são comuns dentro da classe média ou da classe alta. Então a variedade literária é muito grande", acrescenta.
A colonização britânica transformou profundamente a produção literária indiana, lembra a especialista. Diante disso, a chegada do romance europeu modificou formas de narrar, introduziu novos gêneros e ampliou o uso da língua inglesa. O resultado, porém, foi diferente daquele imaginado pelos administradores coloniais.
Para Festino, os indianos fizeram do idioma uma ferramenta própria de expressão e produção literária. "Eu não acho que o inglês enfraqueceu ou fortaleceu. Eu acho que a língua inglesa chegou na Índia, como em muitos outros lugares, e o que ela fez foi mudar a hierarquia linguística do lugar."
Outro exemplo dessa convivência entre diferentes tradições aparece em Goa, antigo território português incorporado à Índia em 1961. Durante séculos, a língua portuguesa conviveu com o concani e outras línguas locais, formando uma produção literária singular que ainda hoje desperta interesse de pesquisadores.
"Goa foi colônia portuguesa entre 1510 e 1961. Durante essa época, a língua portuguesa foi língua materna de muitos indianos", recorda.
A pesquisadora destaca que parte dessa literatura vem sendo recuperada por meio de traduções para o inglês, permitindo que até mesmo leitores goeses que já não dominam o português tenham acesso às obras produzidas na região.
Ascensão da Índia desperta interesse pela literatura
O fortalecimento econômico e político da Índia também começa a ampliar a curiosidade internacional sobre sua produção cultural. Segundo a professora, o crescimento da influência indiana desperta naturalmente o interesse de outros países por sua literatura.
Festino observa, porém, que o cinema continua chegando ao público com muito mais rapidez. "O cinema chega muito mais rápido, mas as pessoas que realmente se interessam pela cultura começam a se interessar pela literatura", conta.
Essa relação entre projeção internacional e cultura não é nova. Ao lado da gastronomia, do yoga, da medicina ayurvédica e de Bollywood, a literatura integra um conjunto de instrumentos que ajudam a construir a imagem internacional da Índia. É justamente nesse ponto que, para a pesquisadora, o BRICS pode abrir novas possibilidades de cooperação cultural.
Na avaliação de Festino, à medida que o grupo amplia sua atuação e estreita os laços entre seus integrantes, também cria oportunidades para fortalecer o intercâmbio entre as sociedades. Se, no campo econômico, a aproximação já se traduz em investimentos, comércio e cooperação tecnológica, na área cultural ainda há um amplo espaço para iniciativas capazes de aproximar leitores, pesquisadores, universidades e editoras dos países do Sul Global.
"O BRICS também é uma forma de globalização. Eu entendo que grupos como esse, que reúnem países de diferentes partes do mundo, acabam encurtando distâncias, aproximando as pessoas e, obviamente, despertando esse interesse pela cultura do outro", resume.
Para a pesquisadora, esse movimento pode contribuir para enfrentar um dos principais obstáculos à internacionalização da literatura produzida fora dos grandes centros editoriais: a escassez de traduções. Cielo defende que o BRICS incentive projetos capazes de ampliar a circulação de autores pouco conhecidos em seus próprios países parceiros.
"Seria muito interessante se o BRICS pudesse dedicar dos fundos para a tradução de obras literárias de escritores menos conhecidos, não somente da Índia, mas da China, da Rússia, do Brasil. Definitivamente, a literatura é um caminho de integração", defende
Na visão de Festino, romances, contos e outras narrativas conseguem aproximar culturas de uma forma que dificilmente é alcançada por tratados diplomáticos ou estudos acadêmicos. Ao retratar o cotidiano, os conflitos e as experiências humanas, a literatura cria pontos de identificação entre sociedades que, apesar de geograficamente distantes, compartilham desafios semelhantes.
"Um romance tem esse poder de comover as pessoas, de criar esse sentimento de ver o outro igual, mas não somente com a literatura indiana, mas com qualquer outra literatura de qualquer parte do mundo", finaliza.

