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Do moicano à resistência: movimento punk completa 50 anos no Brasil

Muito além da música, movimento influenciou moda, comportamento, artes visuais e a formação política de diferentes gerações em todo o país.

Por Redação 13/06/2026 10h10
Do moicano à resistência: movimento punk completa 50 anos no Brasil
Integrantes da cena punk ajudaram a transformar o movimento em símbolo de resistência cultural e produção independente no Brasil. - Foto: Reprodução

O movimento punk celebra, em 2026, cinco décadas de presença no Brasil. Nascido a partir da influência de bandas britânicas e norte-americanas que chegavam ao país ainda na década de 1970, o gênero se transformou em muito mais do que um estilo musical: tornou-se uma ferramenta de contestação social, produção independente e expressão cultural.


As primeiras escutas coletivas de discos punk ocorreram em Brasília, por volta de 1976, impulsionadas por filhos de diplomatas que tinham acesso a álbuns, revistas e materiais importados da Inglaterra e dos Estados Unidos. A troca de fitas cassete e encontros informais ajudaram a espalhar o movimento entre jovens da capital federal.


O cantor e compositor Philippe Seabra, cofundador da banda Plebe Rude, lembra que os lançamentos internacionais chegavam ao Brasil praticamente ao mesmo tempo em que eram lançados no exterior.


"As músicas eram conhecidas quase que em tempo real ao que era lançado na Inglaterra e nos EUA."


Segundo ele, a circulação de discos e revistas especializadas contribuiu para a formação de uma cena alternativa que mais tarde influenciaria grupos como Legião Urbana e Capital Inicial.


Da novidade estrangeira à voz da periferia


Se em Brasília o punk ganhou espaço entre jovens ligados ao universo cultural internacional, em São Paulo ele encontrou terreno fértil nas periferias. Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, o movimento passou a refletir questões sociais ligadas ao desemprego, à desigualdade, à violência policial e à exclusão urbana.


Para o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Moacir Alcântara, a capital paulista teve papel decisivo na construção da identidade brasileira do punk.


"Não é exagero dizer que São Paulo abrasileira o punk de forma definitiva."


Um dos marcos desse processo foi o Festival O Começo do Fim do Mundo, realizado em 1982 no Sesc Pompeia, considerado um divisor de águas para a popularização do gênero e para o surgimento de novas bandas.


O legado do "faça você mesmo"


A filosofia do "Do It Yourself", ou "faça você mesmo", permanece como uma das principais heranças deixadas pelo punk. A ideia incentivou gerações de artistas a produzirem seus próprios discos, eventos, publicações e conteúdos sem depender das grandes indústrias culturais.


Para Cannibal, vocalista da banda pernambucana Devotos, o movimento também teve impacto na formação da consciência social de jovens periféricos.


Homem negro e morador do Alto José do Pinho, em Recife, ele afirma que o punk ajudou a enxergar e questionar situações de discriminação antes naturalizadas.


"Eu sofria muito racismo, discriminação e tudo era tolerado. Era tudo normal. Após ingressar no movimento, descobri que existe toda uma máquina pensada para que isso aconteça."


Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, a Devotos acumula 38 anos de trajetória e se tornou uma das referências do punk nordestino.


Moda, arte e identidade


A influência do punk também alcançou áreas além da música. A estética marcada por jaquetas, correntes, cabelos coloridos e roupas customizadas transformou-se em linguagem visual e instrumento de contestação.


O cantor Supla é um dos principais representantes do chamado "punk de boutique", inspirado na cena britânica e nas criações da estilista Vivienne Westwood. Com quatro décadas de carreira, ele afirma que construiu sua identidade visual a partir de referências internacionais e da liberdade criativa característica do movimento.


Nas passarelas, o estilista Alexandre Herchcovitch incorporou elementos do punk em suas coleções, combinando alfaiataria com referências à rebeldia e à contracultura.


Já nas artes visuais, nomes como Silvana Mello ajudaram a levar a influência punk para galerias, animações e projetos culturais, ampliando o alcance do movimento para além dos palcos.


Meio século depois


Cinquenta anos após suas primeiras manifestações no Brasil, o punk continua influenciando artistas, coletivos culturais e novas gerações. O movimento que nasceu como um grito de inconformismo segue presente na música, na moda, na arte e nos debates sobre identidade, liberdade e transformação social.


Mais do que um estilo, o punk permanece como uma forma de enxergar o mundo e questionar estruturas estabelecidas — mantendo viva a essência de resistência que marcou sua trajetória desde o início.