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Livraria Novo Jardim se despede como símbolo de resistência literária em Alagoas

Espaço cultural surgiu na periferia de Maceió e ficou mais de quatro anos na ativa levando a literatura alagoana para o centro do protagonismo

Por Jamerson Soares 26/05/2026 16h04 - Atualizado em 26/05/2026 17h05
Livraria Novo Jardim se despede como símbolo de resistência literária em Alagoas
Escritores Richard Plácido e Erika Santos inauguraram a Livraria Novo Jardim em abril de 2022 - Foto: Cortesia

A Livraria Novo Jardim — com “L” maiúsculo mesmo, pois espaços onde se constroem sonhos e alicerces são dignos de coisas maiores — anunciou o fim de mais de quatro anos de luta e labuta literária em Alagoas.

O anúncio foi feito na última terça-feira (19), no perfil oficial da Livraria no Instagram, por meio de um curta-documentário que evidenciou as principais ações e atividades realizadas no estado. O espaço reunia não apenas interessados em literatura, mas também pessoas que apreciam as pluralidades independentes de Alagoas vistas no audiovisual, na fotografia, na música e nas exposições de arte.

A Livraria nasceu em 2022, de forma alternativa e independente, em uma das periferias de Maceió, no Conjunto Novo Jardim, na Cidade Universitária. Mais que uma livraria, a Novo Jardim era um ponto cultural, lugar de encontros, festas, alegria, abraços e onde a literatura alagoana se tornava protagonista.

Após dois anos no bairro de origem, o espaço foi crescendo e a proposta foi levada para o Centro Cultural Arte Pajuçara, no bairro da Pajuçara, onde surgiu a possibilidade de manter a livraria de portas abertas.

“Como muitos outros espaços que têm esse caráter de cultura de resistência, existem muitas dificuldades, principalmente econômicas, para manutenção”, revelou uma das idealizadoras da Livraria e escritora, Erika Santos, que, junto a Richard Plácido, agitava o fazer literário no estado, especialmente em Maceió.

Difusão literária

Espaço de criação e difusão cultural, a Livraria Novo Jardim abriu páginas de sua trajetória para que escritores-artistas, antigos e novos, escrevessem e reescrevessem também suas narrativas e poemas.

“Nesse tempo, a gente produziu muita coisa, fez muitos saraus, lançou vários livros e conseguiu também atravessar muitas pessoas que acabaram se motivando a escrever e publicar”, disse Santos.

O espaço possibilitou a construção de novos ambientes de fluência e evidência cultural. Já foram realizadas mais de 50 atividades, entre elas saraus, performances literárias, lançamentos e relançamentos, clubes de leitura, apresentações culturais, espetáculos teatrais e musicais, debates, mesas-redondas, exibição de filmes — a maioria feitos por alagoanos —, entre outras, todas com base em uma espécie de linha fora do eixo comercial e pertencente a Alagoas.

Escritores como Nilton Resende, Milton Rosendo, Lucas Litrento, Gabriel Montilla e Danielma Reis já passaram pelos palcos da Livraria. Também foram criadas banquinhas de livros da Novo Jardim, encontros de escrita criativa e projetos em escolas. Além disso, a Novo Jardim teve grande participação em duas edições da Bienal Internacional do Livro, mostrando sua força na construção de uma sólida revolução literária.

Para Erika, depois de tanto produzir e reproduzir, a sensação que fica é de satisfação, mas também de cansaço.

“Exige muito da gente, muita presença, muito esforço. Essa sensação de estar só nesse processo é muito desgastante também, principalmente no sentido das relações políticas amplas, das políticas de Estado mesmo. Nesse percurso, a gente teve muito apoio dos amigos, das amigas, das pessoas que acreditam na literatura e de muita gente da arte como um todo, do cinema e do teatro. Mas é muito difícil fazer com que isso dure sem uma política ampla de Estado”, destacou.

Política ampla de Estado

Ao tentar criar e manter um espaço de resistência em um local onde a literatura independente alagoana não é vista como protagonista, o idealizador do projeto acaba se encontrando sozinho em determinado momento da trajetória.

A ausência de manutenção desses espaços também pode ser vista como efeito colateral de uma política que não enxerga a literatura feita em Alagoas e esses espaços de difusão literária como agentes de transformação social.

Segundo Erika Santos, não há uma política de permanência para esses espaços, que acabam se desfazendo.

“Acho que isso tem a ver com a estrutura mesmo de um Estado que percebe a cultura como algo sem valor. O Estado tem responsabilidade com a manutenção dos espaços que proporcionam essas discussões e transformações sociais”, pontuou.

Passado feliz, futuro incerto

Apesar das dificuldades financeiras para manter a Novo Jardim, Erika contou que a Livraria não tem previsão de retorno, mas que levará da experiência apenas felicidade.

“O que a gente leva da livraria é só felicidade. Teve muito percalço, muitas dificuldades, principalmente no sentido econômico, mas a gente leva muito carinho, muito afeto e muito retorno bom das pessoas que abraçaram o projeto. Talvez a gente volte, mas ainda não temos certeza.”

Para o presente, Erika e Richard pensam em desenvolver pequenos projetos na área, focar em seus livros e descansar um pouco.

“Focar em outros projetos, com mais tranquilidade e menos pressão do mercado e dessa questão econômica”, concluiu a escritora.

A Livraria Novo Jardim ficará funcionando até o dia 31 de maio de 2026. Até lá, o público poderá garantir livros com descontos de até 30%. Essa é a chance de eternizar, ao menos por algum tempo, o afeto literário do espaço que já fez muita gente se sentir acolhido.