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De Homero para Homerinho: ícone alagoano estreia em teatro que leva seu nome

Ator e dramaturgo, Homero Cavalcante Nunes integra o elenco do espetáculo "Você fala javanês?", que será apresentado em abril, no Theatro Homerinho

Por Jamerson Soares 27/03/2026 18h06 - Atualizado em 27/03/2026 22h10
De Homero para Homerinho: ícone alagoano estreia em teatro que leva seu nome
Homero Cavalcante vai estrear no Theatro Homerinho em abril - Foto: Agência Missue

No Dia Mundial do Teatro, comemorado nesta sexta-feira (27), Alagoas celebra um ícone que, junto à dama do teatro alagoano, Linda Mascarenhas, impulsionou a valorização do trabalho do ator criador e da dramaturgia autoral no estado. Com mais de 50 anos de carreira, Homero Cavalcante Nunes ajudou a construir o alicerce da cena teatral alagoana com bom humor e reverência.

E, para celebrar, o ator e diretor Papafigo - apelido pelo qual é conhecido - vai estrear, pela primeira vez, no local que leva o seu nome: o Theatro Homerinho, localizado no bairro histórico de Jaraguá, coração da capital.

A apresentação da peça “Você fala Javanês?”, livre adaptação da obra de Lima Barreto, assinada por Leda Guerra e dirigida por Raphael Vianna, acontecerá entre os dias 10 e 12 de abril, às 19h30. Os ingressos estão disponíveis no Sympla. (Clique aqui)

Laureado como ouro da casa


O Theatro Homerinho tem pouco mais de um ano de vida (inaugurado em fevereiro de 2025) e ainda não havia sido palco para sua principal inspiração. Até então, Homero frequentava o espaço como espectador: de forma discreta e elegante, sob uma pompa facilmente reconhecível, ele prestigia os trabalhos teatrais, mas nunca havia atuado no local.

“O artista aprende assistindo aos trabalhos de outros artistas. Tenho sentido falta do aluno e do ator também sendo plateia”, pontua ele, sempre antes do início dos espetáculos.

Homero foi um dos fundadores da Associação Teatral de Alagoas (ATA), ao lado de Linda Mascarenhas e do ator Ronaldo de Andrade. Foi professor da licenciatura em teatro na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e autor das peças Calabar: Sonho e Liberdade e a Comédia; Eira, Beira e Ramo de Figueira ou Dona Moça Solteira; além de Quando se Deu o Eclipse; A Princesa Doroteia; Com os Burros n’Água; e Uma Noite de Natal.

O ator também foi agraciado por seu trabalho como dramaturgo pela Academia Alagoana de Letras e pelo Ministério da Cultura, por meio da Funarte, além de ter atuado como coordenador do projeto de Tradições Populares no Museu Théo Brandão.

O duplo

Quando questionado sobre sua primeira aparição no palco de seu “duplo”, Homero se esquivou na resposta — típico de quem irradia humildade artística.

“Lima Barreto estreia no palco do Theatro Homerinho como dramaturgo, por meio da escrita de Leda Guerra. Fico muito feliz que isso esteja acontecendo com dois atores jovens no cenário artístico da cidade, porque é um conto tão interessante e tão atual e que, graças à escrita de minha amiga Leda, isso vai acontecer. Outra alegria muito grande é fazer com que as pessoas reflitam enquanto gargalham”, explicou.

“É um texto bem-humorado que faz uma crítica muito inteligente sobre pessoas que ainda existem na cidade de Maceió, como no Rio no início do século passado. É uma oportunidade de o público se divertir e refletir com a peça”, disse ele, que, após ser questionado novamente no dia seguinte, expressou sua alegria e ansiedade.

“Me encontro numa expectativa semelhante à de outras estreias, torcendo para que tudo aconteça de maneira perfeita. Agora, com o ‘Javanês’, um bocadinho ansioso. A bem da verdade… o ator quase octogenário [ele mesmo] sente o peso da responsabilidade da homenagem concedida pela Ivana, mas, sendo dirigido por Raphael Vianna e em cena com os atores João Victor Régis e Mitchel Leonardo, estarei tranquilo. A juventude me conduzirá”, concluiu.

A peça é uma comédia crítica que narra a história de um barão muito respeitável. Ele recebe uma carta endereçada a ele, vinda de Java — ou seja, escrita em javanês. Por isso, precisa que alguém traduza o conteúdo e, então, publica um anúncio no jornal. É nesse momento que o personagem Basílio se apresenta, enxergando ali uma chance de crescer na vida enganando o barão.

Grande momento

Ivana Iza, atriz e uma das fundadoras do Theatro Homerinho, contou que o espaço foi genuinamente construído para Homero e para celebrar toda a sua trajetória. Ela também enfatizou que sempre sonhou que o ator estreasse no local antes dela.

“Sinto que vai ser um momento, para mim, muito forte e emocionante. Homero, no auge da sua grandeza, com a sua maturidade em cena, se apresentando antes de mim, é luz, glória, poder, espelhamento e ensinamento. Tenho uma relação profunda com Homero, de amor, de filha, irmã, parceira de cena. Aluna. Neta. Estamos todos ansiosos pela sua chegada”, expressou.

Para o ator João Victor, que também integra o elenco, a proximidade de uma estreia sempre gera ansiedade. Ele acredita que a classe artística deve prestigiar o mestre Homero Cavalcante.

“O público pode esperar uma comédia social crítica, com muita irreverência e graça — sobretudo da parte de Homero. Minhas expectativas são as melhores possíveis. Esperamos casa cheia nos três dias, especialmente porque acredito que toda a classe artística de Alagoas deve prestigiar o mestre Homero Cavalcante em sua estreia no teatro que leva o seu próprio nome", disse o ator.

É chegado o momento em que o artista se abraçará com seu duplo (o Homerinho). Nesse dia, uma carta de amor ao teatro alagoano vai reverberar em forma de corpo, e a voz do Papafigo ecoará no espaço para sempre.